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(A) :: Proteger o casal, educar com sintonia e não falar mal da outra casa (VII)

Proteger o casal, educar com sintonia e não falar mal da outra casa (VII)

Testemunho de uma madrasta de um filho alienado.

Eva Delgado-Martins
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Este é o sétimo e último episódio do testemunho de Inês, madrasta de uma criança numa situação de alienação parental provocada pela mãe alienadora, cujo percurso iniciámos nos artigos anteriores: “Dar voz ao silêncio: viver a alienação parental como madrasta (I)” (08 de maio de 2026), “O início da relação: quando a madrasta entra numa história já marcada pela alienação (II)”, “Conflitos, medo, mentiras e lealdades divididas: testemunho de uma madrasta de um filho alienado (III),  “Rotinas e presença: a luta de uma madrasta e um pai alienado para manter o vínculo com o filho alienado (IV),  “A entrada gradual de uma madrasta na vida de um enteado alienado” (V) e “Madrasta e filho alienado: o tempo que constrói relações” (VI).

Ao longo dos diferentes episódios da história de Inês, fomos acompanhando o percurso de uma madrasta que entrou numa família já marcada pelo conflito parental, pela alienação parental e pelas dificuldades inerentes à construção de novos vínculos relacionais. Neste último testemunho, Inês reflete sobre as aprendizagens que fez ao longo de mais de duas décadas de convivência com esta realidade. Fala-nos da importância de proteger o casal, da comunicação, do respeito pelo lugar de cada elemento da família e, sobretudo, de nunca colocar a criança no centro dos conflitos entre adultos.

A alienação parental não afeta apenas a relação entre pais e filhos. O seu impacto estende-se frequentemente ao casal, à vida familiar e ao equilíbrio emocional de todos os que fazem parte da dinâmica. Para a Inês, uma das aprendizagens mais importantes ao longo deste percurso foi a de compreender que nem todas as relações ocupam o mesmo lugar e que cada uma delas exige cuidados, limites e responsabilidades diferentes. Ao refletir sobre a sua experiência, destacou a importância de distinguir claramente a relação parental entre os pais de Lourenço, a relação conjugal que construiu com o marido e a sua própria relação com o Lourenço, enquanto madrasta. Como nos partilhou: “Eu acho que uma das coisas mais importantes é conseguir distinguir os diferentes tipos de relação que existem dentro destas famílias. Há uma relação parental que vai existir sempre entre o meu marido e a mãe do Lourenço, porque vão ser sempre os pais dele. Pode já não existir uma relação conjugal entre eles, mas existe uma relação parental que precisa de continuar a ser cuidada, com diálogo e com uma tentativa conjunta de procurar aquilo que é melhor para o futuro do Lourenço. Depois existe a nossa relação conjugal, enquanto casal, e também a minha relação enquanto madrasta. E perceber estas várias camadas e estes diferentes lugares dentro da família é fundamental. Ao longo do tempo, fui percebendo que era muito importante conseguir distanciar-me emocionalmente de algumas situações para perceber: ‘Isto não é sobre mim’ ou ‘Aqui eu tenho um papel, mas ali já não tenho.’ Acho mesmo essencial desenvolver quase uma visão mais ampla, mais distante, que nos permita não interpretar tudo como uma afronta pessoal ou como uma tentativa de nos pôr em causa. Muitas vezes, aquilo que acontece resulta simplesmente da complexidade das relações e das dificuldades emocionais envolvidas. E quando conseguimos olhar para isso dessa forma, torna-se mais fácil perceber até onde estamos dispostos a investir, o que conseguimos suportar emocionalmente e aquilo que talvez não consigamos ultrapassar. Essa capacidade de perceber os limites, os papéis e as diferentes relações dentro do sistema familiar foi, para mim, uma aprendizagem muito importante”.

As situações de alienação parental não trazem apenas dificuldades práticas. Muitas vezes despertam inseguranças pessoais, medos e fragilidades que já existiam. A Inês reconhece que uma parte importante do seu percurso passou por aprender a distinguir entre o que pertencia às circunstâncias externas e o que resultava das suas próprias vulnerabilidades, explicando-nos que: “Sim, eu acho que isso é mesmo importantíssimo, porque estas situações acabam também por tocar em coisas muito nossas. Vão buscar inseguranças pessoais, medos, fragilidades e até receios de que a relação possa não resultar por causa de tudo aquilo que está à volta. No fundo, estas dinâmicas acabam por ativar muitas das nossas referências emocionais. E acho que é muito importante conseguirmos ganhar alguma distância para perceber: ‘Isto é um problema meu, uma insegurança minha, algo que eu preciso de resolver’, ou então perceber quando estamos perante algo externo, que não depende diretamente de nós. Às vezes tem a ver com dificuldade em comunicar necessidades, em saber posicionarmo-nos, em percebermos o que é importante para nós e aquilo que não conseguimos aceitar. E isso exige um trabalho muito grande de autoconhecimento. Mas também é fundamental percebermos como podemos proteger a relação que estamos a construir de algo externo que não controlamos minimamente. Porque há situações que não conseguimos mudar, não dependem de nós, e a questão passa a ser: como é que lidamos com isso sem deixar que destrua a relação e o equilíbrio familiar?”

Ao longo do seu percurso enquanto madrasta de um filho alienado, a Inês foi descobrindo que uma das ferramentas mais importantes para proteger a relação do casal era a comunicação. Perante situações de tensão, mudanças inesperadas, inseguranças e dificuldades constantes, percebeu que o silêncio, os ressentimentos acumulados ou os conflitos não falados tendem a fragilizar ainda mais as relações. Pelo contrário, a capacidade de conversar, expressar necessidades e definir limites tornou-se um elemento essencial para preservar o equilíbrio familiar: “Ou seja, a questão passa muito por percebermos como é que conseguimos ultrapassar estas situações de maneira a que elas não prejudiquem tanto a relação. Porque afetar, vão sempre afetar. Mas a diferença está em perceber como minimizar esse impacto. E eu acho que isso só se consegue falando muito sobre o assunto. Falando e voltando a falar. Porque sinto que, quanto mais conseguimos trazer estas coisas para a conversa, menos peso elas acabam por ter. Mas atenção: não é falar num registo de ‘isto é um problema enorme e agora acabou tudo’. É falar no sentido de perceber necessidades concretas. Coisas como: ‘Eu preciso disto’, ou ‘preciso que, quando houver um fim de semana combinado, eu saiba com antecedência porque já temos coisas organizadas.’ No fundo, trata-se muito de perceber quais são os limites importantes para cada um e aquilo que precisamos de proteger dentro da relação. E acho que isto é transversal a qualquer casal, não apenas a famílias em situação de alienação parental. As pessoas têm muita dificuldade em colocar limites e em comunicar aquilo que precisam sem medo de conflito. E acho que uma grande parte do trabalho passa precisamente por aí: aprender a comunicar necessidades, estabelecer limites saudáveis e proteger a relação sem transformar tudo numa guerra”.

Inês reconhece que houve momentos mais difíceis na imposição de regras e limites, sobretudo quando Lourenço era mais pequeno. Como acontece em muitas famílias, nem sempre a criança reagia de forma positiva às orientações dos adultos, particularmente quando estas implicavam regras relacionadas com o quotidiano. No entanto, a madrasta procura, hoje, olhar para essas situações com serenidade, reconhecendo que faziam parte do processo natural de crescimento, educação e construção da relação com o enteado. A este propósito, recordou-nos: “Claro que houve alguns momentos mais difíceis. Tenho ideia de que, quando ele era mais pequeno, existiram situações em que o Lourenço era mais reativo comigo. Mas hoje em dia acabamos por guardar mais as coisas boas e deixar essas situações para trás. Se não estivéssemos agora a falar sobre isto, provavelmente já nem me lembrava de muitas delas. Acho que essas reações surgiam sobretudo quando eu colocava regras, por exemplo, quando era hora de dormir, quando insistia que tinha de comer a sopa, coisas simples do dia a dia. Eu sabia que o meu marido concordava comigo, embora talvez fosse mais flexível ou deixasse passar algumas coisas. Mas isso ainda hoje acontece também com as nossas filhas, portanto não era algo exclusivo da relação com o Lourenço. Eu sempre fui naturalmente mais rigorosa nessas questões. E sim, o meu marido intervinha quando era necessário, e eu acho sinceramente que isso é muito importante. Porque, independentemente de sermos mãe, madrasta, pai ou padrasto, há uma coisa essencial: todos estes adultos são figuras de referência para a criança. Quando um adulto é desautorizado à frente da criança, aquilo que se está a fragilizar não é apenas a autoridade daquela pessoa, é a própria sensação de segurança da criança. É como se a estrutura em que ela se apoia ficasse instável. E acho que isso é fundamental perceber”.

Para a Inês, uma das aprendizagens mais importantes ao longo deste percurso foi a de perceber que a autoridade educativa não depende do estatuto de paternidade biológica, mas da qualidade relacional que se desenvolve com a criança, transmitindo-lhe segurança, coerência e respeito. Enquanto madrasta de um filho alienado, considera que a sintonia entre os adultos que cuidam da criança é fundamental para o seu equilíbrio emocional: “Porque, se o pai não respeitasse aquilo que eu estava a dizer à frente da criança, como é que depois poderíamos ensinar o Lourenço a respeitar os adultos? A criança aprende sobretudo através do exemplo. Por isso, mesmo quando existem diferenças ou formas diferentes de agir, é importante que os adultos se apoiem mutuamente e mantenham uma posição de respeito uns pelos outros. Não se trata de impor autoridade de forma rígida, mas de transmitir segurança e coerência à criança. No fundo, a melhor maneira de ensinar respeito é os próprios adultos respeitarem-se entre si.”

A Inês sublinhou uma ideia que considera fundamental – os comportamentos desafiadores das crianças não devem ser vistos apenas como oposição ou desobediência, mas como uma procura constante de referências seguras. Como nos explicou: “No fundo, aquilo que as crianças procuram é precisamente essa segurança. Mesmo quando desafiam regras, testam limites ou parecem colocar tudo em causa, o que estão verdadeiramente a pedir é que os adultos lhes mostrem onde está a estabilidade, a coerência e o cuidado. As crianças precisam de perceber que existem referências seguras à sua volta, adultos capazes de sustentar limites com firmeza e afeto. Porque, por mais desafiadores que possam ser alguns comportamentos, aquilo que procuram é sentir que há alguém que consegue conter, orientar e proteger”.

Ao longo da sua relação com o Lourenço, a Inês percebeu que uma das realidades inevitáveis das famílias reconstruídas é a existência de diferentes regras, rotinas e formas de funcionamento entre casas. Para si como madrasta, o desafio nunca esteve em tornar as duas realidades iguais, mas sim em conseguir transmitir as regras da sua própria casa de forma tranquila, consistente e respeitadora, sem transformar as diferenças num motivo de conflito: “Sim, sim. Havia coisas muito simples que mostravam bem as diferenças entre as duas casas. Houve uma altura em que ele gostava muito de ver uma novela e nós até brincávamos com isso: “Mas tu vês estas coisas?”. Cá em casa, sempre tivemos muito o hábito dos jogos de tabuleiro. Era uma forma de criar momentos em família e até de aproximar as idades entre os irmãos — a mais nova tem dez anos de diferença dele — e, por isso, havia muito esta ideia de que, depois do jantar, não se ficava logo em frente à televisão. Provavelmente, na outra casa, a rotina era diferente e isso também fazia parte da realidade dele. Mas aquilo que tentávamos fazer era manter as nossas regras de forma tranquila e segura, sem transformar isso num conflito. Muitas vezes ele dizia: “Ah, mas eu gostava de ver…”, e nós até podíamos tentar encontrar algum equilíbrio. Ainda assim, a maior parte das vezes era simplesmente: “Aqui funciona assim.” E eu acho que as crianças acabam por perceber isso naturalmente. Percebem que existem formas diferentes de funcionar, regras diferentes, ambientes diferentes. E vão percebendo também que, em cada espaço, determinados comportamentos têm determinados resultados. O importante é que essas diferenças sejam transmitidas com segurança, sem humilhar, sem atacar o outro lado e sem colocar a criança no meio de uma disputa”.

Outra das convicções mais fortes que a Inês desenvolveu, ao longo de todo este percurso, foi a importância de nunca colocar Lourenço no meio de um conflito de lealdades. Apesar das diferenças existentes entre as duas casas e das dificuldades vividas ao longo dos anos, considera que nunca se deve desautorizar o outro pai ou mãe perante a criança. Como afirma: “Não, aí completamente. Tal como era importante eu e o meu marido estarmos em sintonia, também era importante mostrar ao Lourenço que existia respeito pela mãe, concordássemos ou não com determinadas coisas. Havia muito esta ideia de que: “Eu posso não concordar, mas não vou desautorizar a mãe à frente da criança”. No máximo, aquilo que fazíamos era explicar como funcionavam as coisas na nossa casa. Dizíamos, por exemplo: “Olha, mas nós preferimos fazer jogos”, ou “Aqui gostamos mais de fazer assim.” E está tudo certo. Porque, no fundo, quem sou eu para decidir o que é melhor ou pior na casa do outro? Não temos capacidade de mudar a outra pessoa e, sinceramente, também não acho que seja por criticar ou dizer mal que alguma coisa melhora. Pelo contrário, eu acho que quando um adulto está constantemente a criticar o outro, isso acaba por mostrar mais insegurança própria do que outra coisa. E a criança sente isso. Por isso, a nossa preocupação era muito mais transmitir estabilidade e respeito do que entrar numa guerra sobre quem fazia melhor ou pior. Era dizer: “Está tudo certo. Aqui fazemos desta maneira.” E deixar que o Lourenço pudesse viver essas diferenças sem sentir que tinha de escolher lados”.

Para a Inês, um dos aspetos mais importantes na gestão das diferenças entre casas foi a forma como os adultos comunicavam entre si sobre essas diferenças. Ao longo dos anos, percebeu que não é necessário criticar ou desvalorizar o outro pai ou mãe para explicar regras diferentes. Pelo contrário, considera que a forma como os adultos falam uns dos outros tem um impacto profundo na forma como a criança vive as suas relações e constrói os seus sentimentos de pertença: “Às vezes existe muito esta ideia de que se está apenas a criticar uma regra — por exemplo, o uso do telemóvel — e não propriamente a mãe. Mas a verdade é que, para a criança, isso acaba muitas vezes por ser sentido como uma crítica à própria mãe, mesmo que não seja essa a intenção. E isso é muito difícil de gerir, porque às vezes são pequenas nuances na forma como falamos, comentários aparentemente simples, expressões subtis, mas que a criança capta imediatamente. Os filhos estão muito atentos à maneira como os adultos se referem uns aos outros e percebem rapidamente quando existe julgamento, ironia ou desvalorização. Por isso, é preciso um cuidado muito grande na comunicação. Não significa que os adultos tenham de pensar exatamente da mesma forma ou concordar com tudo, mas sim que consigam proteger a criança desse conflito de lealdades. Porque, no fundo, somos nós os adultos. Somos nós que temos de ter a capacidade de filtrar, de regular e de encontrar formas de transmitir diferenças sem transformar o outro progenitor num alvo de crítica”.

Ao longo do seu testemunho, a Inês sublinhou que educar uma criança em contextos familiares diferentes não exige que os adultos pensem todos da mesma forma. O verdadeiro desafio está em conseguir transmitir regras e limites sem transformar essas diferenças numa crítica ao outro pai ou mãe. Para ela, é possível educar com firmeza e coerência sem alimentar conflitos de lealdade nem colocar a criança no centro das divergências entre adultos. Como nos partilha:: “Também é possível colocar limites sem transformar isso numa crítica ao outro lado. Muitas vezes passava por dizer simplesmente: “Olha, nós sabemos como faz mal-estar tanto tempo ao telemóvel, por isso aqui preferimos que não estejas tanto tempo nisso. Vamos antes passear, sair, fazer outra coisa. Ou seja, a ideia não era dizer que a mãe fazia mal ou que as regras da outra casa estavam erradas. Era apenas mostrar que naquela casa existia uma forma diferente de funcionar. E isso pode ser feito de forma tranquila, sem atacar, sem comparar e sem colocar a criança numa posição de ter de defender um dos lados. Porque, no fundo, as crianças conseguem lidar com diferenças entre casas muito melhor do que com conflitos entre adultos. O que as fragiliza não é tanto existirem regras diferentes, mas sim sentirem que amar um lado implica desvalorizar o outro”.

A história da Inês mostra que a alienação parental poderia ter afastado Lourenço do pai, da madrasta e das irmãs. No entanto, a presença consistente do pai, a sintonia do casal, a prudência de Inês, o respeito pela mãe e a preocupação constante em proteger a criança do conflito permitiram construir um vínculo seguro e duradouro.

Ao longo deste percurso, a Inês foi descobrindo que o mais importante não era convencer Lourenço de que uma forma de educar era melhor do que a outra. O objetivo passou sempre por transmitir as regras e os valores da sua casa de forma clara, respeitadora e consistente, ajudando-o a compreender que diferentes famílias podem funcionar de maneiras diferentes sem que isso implique conflito, rejeição ou a necessidade de escolher lados.

O seu testemunho evidencia também a importância da forma como os adultos comunicam. É possível estabelecer limites, educar, transmitir valores e proteger a criança sem recorrer à crítica, à comparação ou à desvalorização do outro pai ou mãe. Pequenas diferenças na linguagem utilizada podem ter um impacto profundo na forma como a criança vive as suas relações familiares e constrói o seu sentimento de pertença.

Para a Inês, as crianças possuem uma enorme capacidade para compreender que existem diferentes realidades familiares. Conseguem adaptar-se a regras distintas, a rotinas diferentes e a estilos educativos variados. O que verdadeiramente as fragiliza não é a existência dessas diferenças, mas a sensação de que amar uma pessoa implica trair ou desvalorizar outra.

Este último episódio do testemunho de Inês revela-nos que o papel de uma madrasta ou padrasto pode ser difícil, inseguro e, muitas vezes, invisível. Mas mostra também que pode ser profundamente significativo, construído através da persistência, do respeito, da paciência e da capacidade de colocar sempre o bem-estar da criança acima dos conflitos dos adultos.

No fundo, a sua história recorda-nos que o maior presente que os adultos podem oferecer às crianças em contextos de alienação parental é a liberdade de poderem amar todas as pessoas importantes da sua vida sem culpa, sem medo e sem conflitos de lealdade.