À hora a que o cronista batia à máquina esta prosa, Portugal ainda não tinha feito a estreia no Mundial. Quer dizer que tanto poderá ter ganho por 15-0 como sido cilindrado pelo adversário, adormecido o Texas de tédio com um jogo de empatas a meio-campo ou que nem sequer tenha havido jogo, adiado sine die devido a uma tempestade ou alerta de bomba ou aterragem ovni. Isto é, a esta hora, manda a equação de Schrödinger: a selecção ganhou e perdeu. Foi incrível e ridículo. Glorioso e lamentável. Ronaldo deu razão aos críticos e calou-os a todos. Não importa. Para o ponto da crónica, não é relevante. E isso é muito relevante.
O futebol é irrisório e enorme, uma distracção acessória e um fenómeno essencial. Orwell, que até morreu em 1950, muito antes de isto ganhar as proporções que ganhou, é que a percebeu logo toda: “futebol é a guerra sem tiros”. Parecendo uma futilidade, por vezes até algo primitiva, é sintoma precisamente do oposto: da evolução civilizacional que permitiu às nações poderem enfrentar-se, competir, medir forças e, portanto, agitar as suas bandeiras, tocar a reunir, reafirmar-se, recordar o que as une e separa, sem terem de pegar em armas e irem para o campo de batalha. Sem o futebol, ou outro desporto favorito que ocupe o mesmo lugar no coração da multidão, que seria hoje a bandeira mais do que um elemento decorativo içado em edifícios oficiais? O hino nacional mais do que uma marcha tocada por bandas militares? Em que outra circunstância veriam o povo cantar e agitar e sentir como seus os símbolos nacionais?
O futebol, soccer, desporto-rei ou, simplesmente, “o jogo bonito”, é de tal forma o espelho de um país que basta olhar para a evolução da nossa selecção através do tempo (à atenção, aliás, dos saudosistas do antigamente): mesmo durante a longa carreira de Eusébio e com todo o potencial de recrutamento dos então territórios ultramarinos, até ao 25 de Abril, só por uma vez nos apurámos para uma grande competição. E em democracia, foi ver-nos passar de uma equipa de baixinhos talentosos, mas desorganizados, que de vez em quando lá ia graças a um charuto do meio da rua de Carlos Manuel ou a umas defesas milagrosas de Bento e que acabava, inevitavelmente, a chorar o azar ou a injustiça disto ou daquilo, para explicar o fracasso ou a vitória moral, para uma de tipos espadaúdos, filhos já de umas quantas gerações com os padrões de nutrição e cuidados médicos europeus, treino científico e organização, que, de vez em quando, até ganham mesmo as competições e até o fazem sem espinhas. Sim, quando em dúvida sobre os méritos ou deméritos da democracia ou da integração europeia, não é preciso ir às estatísticas do Pordata; basta consultar as cadernetas de cromos: alguma coisa temos andado a fazer bem pela nutrição, educação, saúde pública deste país dos anos 80 até agora.
Quer isto dizer que a bola merece o espaço quase sagrado que conhece em Portugal? Não. A bola não merece que todas as conferências de imprensa do seleccionador nacional sejam transmitidas em directo. Que se siga a traseira do autocarro da selecção do centro de estágios para o hotel e do hotel para o estádio. Que se páre a agenda política do país por qualquer jogo que não seja uma final. Que tenha de lá estar sempre na tribuna um dos mais altos representantes da nação (ainda não vem na Constituição. Ainda). Que agora também devessem ir os líderes de todos os partidos e bancadas parlamentares (para quando também os Presidentes do Supremo Tribunal e do Constitucional, representantes dos três ramos das Forças Armadas, os Presidentes dos Governos Regionais, das CCDRs das comunidades emigrantes, da Associação Nacional de Municípios e das Freguesias, já agora?). Que o Presidente da República passe na flash interview e também dê o seu palpite ou faça a sua análise às incidências da partida. Que toda a pátria se ponha de chuteiras, porque essa, já agora, até era a de Nelson Rodrigues.
Porque, caro Schrödinger, o futebol é mais do que um jogo e é só um jogo. Sem contradição. É mais do que um jogo antes de abrirmos a caixa, que é como quem diz, antes de o jogo começar. Quando já ganhámos e já perdemos. Quando é o hino e a bandeira, o país reunido à volta do campo ou do ecrã, quando é tudo o que levou aqueles homens ou mulheres ali, quantas vezes símbolo de histórias de superação, ascensão social, integração, de um país que, apesar dos pesares, é tantas vezes capaz de o fazer. Depois… Depois é só bola. Uns pontapés e um árbitro, um espírito de grupo ou uns egos inflamados. Se ganhamos 15-0 ou somos cilindrados, não é Portugal que se salva ou condena; é o Ronaldo ou o Éder. O comprazimento com a fama do pretenso “melhor do mundo” é um consolo terceiro-mundista que disfarça uma sociedade muito pouco exigente com ela mesma. É ver como a Inglaterra, que até inventou o jogo, se ri das suas derrotas. Para já não dizer que qualquer país a sério sabe que colar política e feitos desportivos tem um nome e não é patriotismo; é propaganda.
Força, Portugal. Vamos ganhar ou perder clamorosamente e continuar com a nossa vida.