Em 1994, os pais de Erling Haaland, Alexander Sørloth e Kristian Thorstvedt integraram a seleção da Noruega no Mundial. Nos EUA, o país acabou por ser eliminado de forma inédita: as quatro equipas do grupo terminaram empatadas com quatro pontos, tendo a decisão caído a favor da Itália e da Irlanda, apenas porque os nórdicos marcaram menos um golo. Nesta edição de 2026, no mesmo palco americano, os filhos assumem o testemunho para tentar reescrever a história.
Mas quem são as famílias que protagonizam esta enorme coincidência?
Os Haaland: da defesa ao ataque letal
O percurso de Erling Haaland confunde-se inevitavelmente com as pisadas do pai, Alf-Inge Haaland, cuja carreira internacional também ficou ligada ao futebol inglês. Em 1993, um ano antes de disputar o Mundial dos EUA, Alf-Inge deixou o Bryne FK para assinar pelo Nottingham Forest, como descreve a NDTV Sports. Passou com sucesso pelo Leeds United — onde atingiu as meias-finais da Taça UEFA em 2000 — antes de se transferir para o Manchester City por cerca de 4 milhões de euros.
Ao contrário do filho, que se tornou avançado, Alf-Inge jogava como defesa e médio defensivo. Contudo, a sua carreira foi abruptamente interrompida. A 4 de abril de 2001, durante um dérbi de Manchester em Old Trafford, uma entrada violenta de Roy Keane ao nível do joelho causou-lhe danos irreparáveis. O impacto da lesão, agravado por problemas crónicos no outro joelho, obrigou Alf-Inge a retirar-se do futebol em 2003, com apenas 30 anos — três anos após o nascimento de Erling.
De regresso à Noruega, Alf-Inge dedicou-se ao setor imobiliário e incentivou o filho a seguir a carreira no futebol, integrando-o na academia do Bryne. Desde cedo que o antigo jogador assumiu as funções de empresário e conselheiro de Erling, gerindo os passos estratégicos da sua carreira, incluindo a mediática transferência para o Manchester City em 2022. Curiosamente, apesar de ter vivido poucos anos em Inglaterra na infância, Erling nunca escondeu a sua ligação a Leeds, cidade que aponta como parte da sua identidade. Agora, ao liderar a Noruega no Mundial 2026, a história que o pai construiu nos relvados serve de pano de fundo aos golos e recordes que o filho quer quebrar.
Os Sørloth: o faro pelo golo corre no sangue
Gøran Sørloth, nascido a 16 de julho de 1962 em Kristiansund, na Noruega, foi um avançado-centro que construiu a maior parte da sua carreira no futebol nórdico. O ponto alto da sua carreira foi vivido ao serviço do Rosenborg BK entre as décadas de 1980 e 1990, segundo o Transfermarkt.
Mais tarde, o jogador registaria uma curta passagem por empréstimo pelos alemães do Borussia Mönchengladbach em 1989 e uma temporada completa nos turcos do Bursaspor na época de 1993/94. O avançado acabou por encerrar a sua caminhada profissional nas épocas de 1994 e 1995 ao serviço do Viking FK.
Três décadas depois, o legado da família na frente de ataque da seleção norueguesa continua vivo através de Alexander Sørloth. O atual avançado, que joga no Atlético de Madrid, em Espanha, herdou não só a envergadura física do pai, como também o seu faro pelos golos.
Os Thorstvedt: das luvas de Erik aos pés de Kristian
Erik Thorstvedt, histórico guarda-redes norueguês nascido a 28 de outubro de 1962 em Stavanger, construiu uma carreira no futebol inglês ao serviço do Tottenham Hotspur entre 1988 e 1996. Numa entrevista ao clube, Erik contou que a sua chegada a Londres se concretizou após uma passagem pelo IFK Göteborg. “Na verdade, eu já tinha estado com os Spurs uns anos antes, mas não me foi possível assinar pelo clube porque não consegui obter uma licença de trabalho”, explicou. Quando conseguiu ser contratado, ficou radiante: “Jogar no futebol inglês sempre foi um grande sonho meu”.
Contudo, a sua estreia a 15 de janeiro de 1988 contra o Nottingham Forest foi um autêntico “trauma”, oferecendo o golo da vitória a Nigel Clough. O guarda-redes admite que o seu rumo no clube mudou num momento de sorte frente ao Southampton, onde evitou uma expulsão ao colidir com Alan Shearer a 25 metros da baliza, mantendo a titularidade numa época em que os Spurs terminariam em sexto lugar no campeonato inglês.
Na temporada de 1990/91, Thorstvedt foi o guarda-redes titular na grande final da Taça de Inglaterra, ironicamente contra o Nottingham Forest. Numa partida tumultuosa, com a lesão de Gazza e um golo anulado a Lineker, o Tottenham deu a volta e venceu por 2-1 no prolongamento, permitindo a Erik erguer o prestigiado troféu. Quando se retirou do futebol devido a problemas crónicos nas costas, o norueguês continuou ligado ao desporto, assumindo o cargo de treinador de guarda-redes da seleção da Noruega durante vários anos.
O futebol profissional continua presente na família através do seu filho, Kristian Thorstvedt. Atualmente com 27 anos, o médio que está no Sassuolo, em Itália, decidiu que o seu futuro não passava por travar golos, como o pai, mas sim por marcá-los.
O acerto de contas com o passado
Para os três filhos, o Mundial 2026 é uma oportunidade de vingar a noite de 1994. Em solo transatlântico, os três rapazes já não jogam apenas pelo presente: jogam para fechar um ciclo familiar pendente e transformar a antiga desilusão dos pais na maior glória do futebol norueguês.
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