O português é falado por mais de 260 milhões de pessoas, em quatro continentes, e é a língua mais falada de todo o hemisfério sul. Olhamos para ela, ainda assim, como se fosse uma relíquia de família: bonita, antiga, posta à mostra uma vez por ano para as visitas verem.
Na semana passada celebrámos Camões. Esta semana, voltámos ao esquecimento.
A língua é cultura, sim. Mas a língua também é economia. É diplomacia. É soberania. É a maior rede de influência que um país pequeno alguma vez herdou, a língua que ajudou a desenhar a primeira globalização, e tratamo-la, teimosamente, como folclore. Reduzimo-la ao passado, ao museu e ao feriado, quando ela é, de todos os nossos activos, o de maior futuro: oficial em nove países, em crescimento acelerado em África, instalada precisamente naquele “sul global” que toda a gente diz querer cortejar. Somadas, as economias de língua portuguesa valem perto de três biliões de euros e, se fossem um só país, figurariam entre as dez maiores do mundo. Não é só passado: é futuro.
A prova de que não temos política da língua está à vista de quem a queira ver.
Está no ensino do português no estrangeiro. No Luxemburgo, professores pediram ao Presidente e ao primeiro-ministro que olhassem “com o coração” para o futuro do regime jurídico do ensino do português. Receberam, em troca, a promessa de que o Governo “tudo fará para garantir condições”. Mas à língua não falta quem a olhe com o coração. Falta quem a olhe com visão estratégica, quem reconheça, de uma vez, o seu valor e o seu potencial.
Está na rede de escolas, que é o braço de qualquer diplomacia cultural séria. Os outros perceberam há muito que a língua se semeia: o British Council, a Alliance Française, o Instituto Cervantes ou o Goethe-Institut espalham-se pelo mundo, não apenas onde a sua língua já se fala, mas sobretudo onde querem que se passe a falar. Nós limitamo-nos, e mal, ao espaço que já era nosso, como quem rega só o canteiro que já está verde. Talvez nem se invista porque se imagina, lá no fundo, que o português é coisa que os emigrantes só praticam no verão, quando regressam, como se não fosse a língua em que muitos deles vivem, estudam e trabalham todos os dias do ano, a milhares de quilómetros daqui.
Está no Camões I.P., há anos preso a uma missão sem ambição e, ainda por cima, encarregado de gerir a cooperação. Duas tarefas imensas, nenhuma com os meios à altura.
E está até no que parece um avanço. A candidatura do português a língua oficial das Nações Unidas é justa, e devemos persegui-la sem complexos e sem desistir. Mas surge desgarrada. Um símbolo não é uma política. Uma boa intenção solta não é uma estratégia.
E o que está em jogo é material, não apenas sentimental. As indústrias da língua, o ensino, a tradução, a edição, os conteúdos ou o software, produzem riqueza e emprego. A inteligência artificial é disso exemplo: alimentá-la em português é não só defender um mercado, mas sobretudo garantir o crescimento da própria língua. O turismo, a captação de estudantes, a expansão das instituições de ensino superior portuguesas que vão poder associar-se, em consórcio, com congéneres no estrangeiro, elevando a nossa academia e a nossa língua a outro nível: tudo isto faz o português alastrar e consolidar um mercado de centenas de milhões de consumidores, unidos entre si pela língua de Camões.
E temos um trunfo que raramente jogamos: quem aprende português ganha, de caminho, a porta de entrada para o espanhol e para mais umas largas centenas de milhões de falantes. Aprender a nossa língua é, para um americano ou um europeu não latino, abrir dois mundos pelo preço de um.
O que falta não são falantes. O que falta é uma política. Uma estratégia nacional da língua que seja integrada e não dispersa, que trate o português também como activo económico e instrumento de política externa, e não apenas como herança a inventariar. Com ambição de expandir o ensino para lá do mundo lusófono e de ligar a língua à diplomacia económica e ao sul global. E que transforme a candidatura a língua oficial da ONU num remate dessa estratégia, e não num gesto à procura de causa.
E o tempo joga a nosso favor, se não o desperdiçarmos. Os 260 milhões de falantes de hoje serão, segundo as projecções das Nações Unidas, cerca de 400 milhões em 2050 e perto de 500 milhões no final do século. Poucas línguas no mundo têm diante de si uma trajectória destas. A pergunta é se vamos chegar a esse futuro como donos de uma estratégia ou como espectadores de um crescimento que aconteceu sem nós.
Camões deu-nos uma pátria que é a língua. Merece bastante mais do que um feriado.