A ideia de tirar uma tarde de descanso começa quase sempre por ser encarada com entusiasmo. Mas, chegada a hora de não fazer nada, quem é que nunca começou a sentir inquietação e acabou, afinal, por passar o tempo a arrumar a casa, a responder a e-mails ou a adiantar trabalho atrasado, de forma a — como dizemos tantas vezes — “aproveitar o tempo para fazer alguma coisa útil”?
Alguns investigadores da área da psicologia evolutiva defendem que as raízes deste fenómeno são tão antigas como a nossa espécie. Ao longo de centenas de milhares de anos, vivemos num ambiente onde ter alimento, abrigo e segurança exigia um esforço constante e os períodos prolongados de inatividade podiam significar menos recursos e maior vulnerabilidade.
O problema é que o mundo mudou mais depressa do que o cérebro humano. Hoje, para a maioria das pessoas, descansar durante uma tarde ou tirar uns dias de férias não significa ameaça alguma, mas podemos senti-lo dessa forma na mesma, já que os sistemas mentais moldados em ambientes ancestrais continuam a influenciar-nos.
Esta ideia é conhecida como a hipótese do desajuste evolutivo: características que foram úteis no passado podem produzir respostas desajustadas em contextos modernos — neste caso, a sensação de inquietação, ansiedade ou culpa quando estamos a descansar, apesar de não haver uma ameaça real.
Por outro lado, social e culturalmente também recebemos sinais, desde cedo, de que ser produtivo é uma virtude. Somos elogiados quando nos esforçamos, trabalhamos, estudamos e apresentamos resultados. Em contrapartida, o descanso é frequentemente associado à preguiça, à falta de ambição ou à perda de tempo. Para a psicóloga Carla Costa Lopes, é muito prevalente a ideia de que “o nosso valor pessoal e a nossa identidade dependem da nossa produtividade”. Ou seja, “desde cedo, algumas pessoas aprendem que ser útil, eficiente ou estar sempre ocupado é uma condição [necessária] para receber reconhecimento, aprovação, afeto ou amor”. Talvez por isso, para tanta gente, estar em atividade permanente, atarefado e com muitos compromissos, sociais e profissionais, tornou-se uma medida de sucesso.
Esta dificuldade em não fazer nada é um fenómeno suficientemente frequente e relevante para já ter sido batizado e ser estudado. Chama-se intolerância ao descanso e é definida pela aversão ou dificuldade em tolerar períodos de inatividade, sendo a culpa, ansiedade ou vergonha manifestações dessa dificuldade.
Um estudo de 2025 conclui, sem surpresa, que as pessoas com esta dificuldade apresentam maior risco de dependência do trabalho, maior probabilidade de desenvolver burnout, sofrimento emocional e problemas de sono. Há também uma relação bem estabelecida entre a intolerância ao descanso e o stress, a ansiedade e os sintomas depressivos.
Esta dificuldade em descansar — muitas vezes marcada por inquietação e ansiedade — surge frequentemente durante as férias. Traduz-se num incómodo perante o ócio, numa compulsão em consultar repetidamente o e-mail profissional ou na necessidade de ocupar cada momento do dia com tarefas que pareçam produtivas. “Este fenómeno sugere que, para muitas pessoas, o trabalho deixou de ser apenas uma atividade e passou a ocupar um papel central e praticamente único na identidade”, diz Carla Costa Lopes. “Vivemos numa cultura que valoriza o desempenho constante, a otimização do tempo e a disponibilidade permanente. Como consequência, o tempo livre pode deixar de ser vivido como espaço de recuperação e lazer e passar a ser encarado como uma oportunidade perdida de produzir mais.”
Isto é especialmente importante porque descansar não é apenas parar. É preciso conseguir viver o descanso sem culpa, sentindo que se tem direito a esse tempo e a essa tranquilidade. Um outro estudo, que analisou a forma como as pessoas encaram os momentos de lazer concluiu que quem os vê como uma perda de tempo tende a retirar menos satisfação dessas pausas e a apresentar piores indicadores de saúde mental. Ou seja, mesmo quando estão efetivamente a descansar, estas pessoas têm mais dificuldade em desfrutar desse tempo, porque a sensação de que deveriam estar a fazer algo útil impede-as de aproveitar plenamente o descanso.
Além da ansiedade e da culpa, também o tédio e o aborrecimento parecem ter um papel na dificuldade em parar. “Estamos cada vez mais habituados a uma hiperestimulação constante: notificações, redes sociais, informação e entretenimento permanente. O sistema nervoso adapta-se a este ritmo excessivo e rápido e a ausência de estímulos em períodos de descanso pode ser interpretada como desconfortável”, diz Carla Costa Lopes. “No entanto, a capacidade de estar sem fazer nada é uma competência psicológica importante, associada à criatividade, reflexão, autorregulação emocional e bem-estar.” Descansar não é um luxo nem um sinal de preguiça e saber fazê-lo sem culpa é tão importante como trabalhar, defendem os especialistas.