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Quarta-feira era dia de Portugal entrar em campo. O dia que marcava o início da campanha da Seleção Nacional no Campeonato do Mundo-2026 era também o início da caminhada de outro português, que se estreava no Canadá algumas horas mais tarde. Apesar de ter tido apenas 75 dias para preparar a seleção do Gana, Carlos Queiroz partia para o seu quinto Mundial com a ambição de chegar à fase a eliminar. O português de 73 anos é, a partir de agora, o segundo selecionador com mais participações em fases finais da competição, em igualdade com Bora Milutinovic e apenas atrás de Carlos Alberto Parreira (seis participações). Transformou as suas equipas em fortalezas e pontificou-se como o mestre da preparação científica, capaz de construir defesas de betão em equipas com pouca qualidade técnica.
https://observador.pt/especiais/a-aposta-entre-600-candidaturas-milhas-de-viagens-imprevistos-mentalidade-mandela-como-queiroz-tentou-preparar-o-gana-em-apenas-75-dias/
Num grupo com Inglaterra e Croácia, Gana e Panamá sabiam de antemão que tinham poucas aspirações a terminar nos dois primeiros lugares. Contudo, o aumento do Mundial para 48 seleções e a possibilidade de apuramento para oito dos 12 melhores segundos classificados davam um sinal de esperança às duas seleções. Nesse contexto, o jogo do BMO Field revestia-se de tamanha importância, já que era imperativo vencer. Os black stars contavam com uma ausência de vulto para a estreia, já que Thomas Partey não podia defrontar o Panamá por conta do visto, que foi recusado pelas autoridades canadianas, depois de o médio ter alegadamente mentido. A federação ganesa recorreu para o Tribunal Federal canadiano, esperando agora ter uma das suas principais figuras nos próximos jogos da fase de grupos.
“O resultado final no futebol é sempre um mistério. Quinto Mundial? Não há fórmula nenhuma e é por isso que continua a ser tão especial, mesmo depois de todos estes anos. Somos fortes e vamos mostrar os nossos pontos fortes no jogo. O Panamá é uma equipa bem organizada e temos um grande respeito por eles, porque são competitivos. Temos boas soluções para os seus pontos fortes e vamos tentar explorar os pontos fracos que têm. Uma coisa que aprendi com as minhas experiências passadas é que há uma diferença entre uma boa decisão e a decisão certa. Nem sempre é algo que se consiga perceber na altura. Às vezes tomamos a decisão certa e as coisas não correm como esperávamos. Aprendi bastante com treinadores e jogadores. Acredito que esta é uma oportunidade para refletir. Espero que Deus me dê a inspiração para tomar as decisões certas, para usar a minha experiência e tudo o que aprendi na vida”, perspetivou Queiroz.
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Sem Partey, Carlos Queiroz optou por colocar Elisha Owusu e Ernest Nuamah no meio-campo, com Antoine Semenyo e Jordan Ayew como figuras mais relevantes da sua equipa. No ataque, a grande ausência foi mesmo Mohammed Kudus, que falha o Mundial por lesão. Destaque ainda para a titularidade do ex-V. Guimarães Gideon Mensah e para a presença do ex-Sporting Abdul Fatawu, que era apontado ao onze, no banco. Nos canaleros, Ismael Díaz, a grande figura da equipa, que foi o melhor marcador da última Gold Cup e passou pelo FC Porto, começou no banco, com Puma Rodríguez, que passou pelo Famalicão, a merecer a confiança de Thomas Christiansen.
Com a chuva e o vento a fazerem-se sentir em Toronto — o BMO Field não tem cobertura —, o Panamá teve uma entrada bem mais afirmativa, com o Gana a jogar na expetativa e à procura do erro. A primeira oportunidade saiu dos pés de Amir Murillo, que ganhou espaço na direita e cruzou para o remate cruzado de Cecílio Waterman, que obrigou Lawrence Ati Zigi a aplicar-se logo a abrir (2′). A partir daí a toada manteve-se intacta, mas com menos ocasiões de perigo, que só voltaram a aparecer na reta final da primeira parte, com Cristian Martínez a cruzar para o guarda-redes do St. Gallen, primeiro adversário do Benfica na caminhada rumo à fase de liga da Liga Europa, socar, só que a bola sobrou para Jiovany Ramos rematar por cima (38′). O jogo acabou por chegar ao intervalo com apenas uma oportunidade, naquele que foi, provavelmente, o pior do Mundial até esse momento.
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Ao intervalo surgiu nova contrariedade para Queiroz, que teve de lançar Benjamin Asare na baliza, por conta da lesão de Zigi. A entrada do Gana acabou por ser bem melhor e, logo no início, fez o que não conseguiu fazer em toda a primeira parte: rematar à baliza. Kamaldeen Sulemana cruzou da esquerda para a área, onde Jonas Adjetey apareceu a cabecear para as mãos de Orlando Mosquera (48′). Já com Fatawu e Brandon Thomas-Asante em campo, os panamenhos voltaram a criar perigo, com Carlos Harvey a colocar em Cristian Martínez ao segundo poste, que atirou à malha lateral (60′). Christiansen começou a arriscar mais no ataque e lançou José Fajardo e Azarias Londoño, e por pouco não sofreu o golo, com Ramos a impedir que Ayew finalizasse com um grande corte (65′). Na resposta, o defesa apareceu em evidência no ataque, atirando ligeiramente ao lado depois de ter tirado um adversário do caminho (67′).
A pausa para hidratação acabou por surgir no melhor momento do jogo, o que motivou os assobios dos adeptos. Ainda assim, o encontro manteve-se aberto e, na sequência de um livre de Ayew, Adjetey cabeceou ao lado (73′). Logo a seguir foi a vez de Ismael Díaz e Kwasi Sibo saírem dos bancos, numa fase em que o jogo se voltou a partir, com muitos passes falhados de passe a passe. No fim, Prince Adu e Aníbal Godoy entraram para os respetivos ataques e defesas, a tempo de assistirem ao único golo do jogo: Thomas-Asante apareceu em velocidade na esquerda, ganhou a linha de fundo e contemporizou, colocando na altura certa para Caleb Yirenkyi que, vindo de trás, só teve de encostar para o fundo da baliza (90+5′). Assim que soou o apito final, Queiroz desatou a correr em direção a um dos topos do BMO Field, onde se encontravam os adeptos do Gana, para comemorar com eles efusivamente, incluindo de joelhos e colado ao relvado.
A estrela
- Incontornavelmente, Caleb Yirenkyi foi a grande figura deste jogo. O médio de 20 anos do Nordsjaelland até tem características mais posicionais e de pressão intensa, mas foi o desbloqueador que Carlos Queiroz utilizou para a vitória, optando por soltar Yirenkyi das amarras defensivas na reta final. Para lá do golo, que fez no seu único remate à baliza, Caleb somou 31 passes certos (em 32), três dribles (100% de eficácia), nove conduções com bola, nove recuperações de bola e duelos no chão ganhos.
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O joker
- Aos 34 anos, Jordan Ayew é mais um dos bons exemplos de longevidade proporcionados por este Mundial. Estreou-se no Campeonato do Mundo do Brasil e, 12 anos depois, continua a ser importante numa equipa ganesa que procura reconstruir-se. Apesar de ser colega de ataque de nomes como Antoine Semenyo ou Abdul Fatawu, Ayew mostrou que continua a ser uma das figuras do seu país, tendo sido dos seus pés que saíram as poucas oportunidades criadas pela sua equipa antes de sair. Foi do banco que assistiu ao golo da vitória.
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A sentença
- Para a história fica mais um jogo deste Mundial decidido no fim, e que pode ser importante nas contas do Gana pela passagem à próxima fase. Para já, a equipa de Carlos Queiroz igualou Inglaterra no primeiro lugar do grupo L, tendo agora pela frente o duelo frente aos ingleses. O Panamá tem uma tarefa bastante difícil pela frente, apesar de estar, para já, empatado com a Croácia no terceiro lugar. Os panamenhos estiveram a pouco mais de um minuto de somar o seu primeiro ponto em Campeonatos do Mundo.
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A mentira
- Se dúvidas ainda existissem, foi preciso esperar pelo penúltimo jogo da primeira jornada da fase de grupos para se perceber que a pausa para hidratação serve para tudo, menos para o propósito que lhe dá nome. Como tem sido habitual neste Campeonato do Mundo, o árbitro parou o jogo a meio de cada uma das partes, numa altura em que a chuva intensa caía sobre o relvado do BMO Field. Para além disso, a tarde desta quarta-feira em Toronto tem sido bastante amena, com os termómetros a baixarem dos 20°C, acrescentando-se 74% de humidade e o vento próximo dos 20 km/h. Ainda assim, estas pausas acabaram por não ter impacto direto no jogo, ao contrário do que tem acontecido durante esta competição.
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