Com a procura por cuidados a aumentar, o acesso a fisioterapia no Serviço Nacional de Saúde (SNS) está cada vez mais difícil. Há utentes que esperam meses para iniciar a reabilitação. “As respostas são exíguas”, alerta o bastonário dos fisioterapeutas, lamentando que os utentes “percam a oportunidade de ter cuidados de qualidade devido aos tempos de espera”. Em causa está o demorado circuito pelo qual os doentes têm de passar, e que exige uma consulta no centro de saúde e outra de Medicina Física e Reabilitação (MFR), uma especialidade também conhecida como Fisiatria. Só as consultas de MFR — indispensáveis para o acesso à fisioterapia — têm um tempo de espera mediano de quase quatro meses, sendo que há hospitais onde a espera por esta consulta é de cerca de um ano.
“É no SNS que temos os maiores atrasos, as respostas são exíguas. O SNS está bloqueado globalmente, os doentes esperam, em certos casos, durante meses”, diz ao Observador o bastonário dos Fisioterapeutas (OF), António Lopes, que considera que o acesso dos doentes está a degradar-se. A perceção da Ordem não pode ser confirmada oficialmente, uma vez que não existem dados relativos apenas à fisioterapia. “Não se encontra disponível informação relativa aos tempos de espera associados aos pedidos internos provenientes de serviços hospitalares nem aos pedidos encaminhados para o setor convencionado”, responde a Direção Executiva do SNS (DE-SNS).
No entanto, tendo em conta o circuito a que doentes que necessitam de fisioterapia estão obrigados, a realidade confirma o alerta da Ordem dos Fisioterapeutas — os doentes podem ter de esperar vários meses para iniciar a reabilitação. Na maior parte das vezes, o percurso dos doentes começa num hospital, onde é dada indicação de que necessitam de fisioterapia (na sequência de uma cirurgia ou de AVC, por exemplo). Para isso, é necessária uma consulta nos cuidados de saúde primários, para que aí seja realizada a referenciação para consulta hospitalar de MFR. Só o médico especialista em MFR pode referenciar o doente para reabilitação, um circuito que a Ordem dos Fisioterapeutas contesta.

Mediana de espera para consulta de Fisiatria é de 3,75 meses. Lista de espera aumentou
Ainda que a consulta no centro de saúde seja realizada no período de poucos dias, a consulta hospitalar de MFR pode demorar meses, o que protela o início da fisioterapia. A DE-SNS confirma que o tempo de espera para consulta de MFR e também a lista de espera aumentaram em 2025, apesar do crescimento do número de consultas realizadas, o que prejudica o acesso dos doentes. “A mediana do tempo de espera para primeira consulta hospitalar de MFR foi de 3,75 meses”, sublinha a DE-SNS, ressalvando que os hospitais têm sido confrontados com o aumento significativo da procura nos últimos anos.
Em 2025, foram inscritos 49.139 utentes em Lista de Espera para Consulta (LEC), “o que representa um aumento de 19% face a 2024 e de 40% face a 2023”, indica a entidade liderada por Álvaro Almeida. Apesar de ter também aumentado, a atividade assistencial não tem conseguido acompanhar o aumento da procura, um problema que se estende igualmente a outras especialidades. Em 2025, foram realizadas 32.528 primeiras consultas de MFR, “mais 14% do que em 2024 e mais 35% do que em 2023”, o que tem feito avolumar a lista de espera, e, consequentemente, o tempo de espera por consulta.
A espera para consulta de MFR, de onde os doentes são depois referenciados para fisioterapia, tem grandes assimetrias regionais. Em alguns hospitais, a espera para prioridade normal supera, e muito, a mediana de cerca de quatro meses referida pela DE-SNS. Segundo o portal de tempos de espera do SNS, que agrega a média de espera por consultas nas várias especialidades nos últimos três meses, no Hospital de Bragança, a espera para uma consulta de MFR de prioridade normal é de 586 dias, mais de um ano e meio. Nos hospitais de Braga e de Vila Real, a espera ronda um ano — 365 e 353 dias, respetivamente. Em Évora, os doentes esperam em média 327 dias por uma consulta. Na zona de Lisboa, os piores registos são dos hospitais de Santarém (259 dias) e Vila Franca de Xira (196 dias). Aos tempos de espera por consulta soma-se depois a demora no início da reabilitação.
Ordem dos Fisioterapeutas contesta circuito. “Não acrescenta nada”, diz bastonário
“O acesso nunca esteve bom”, alerta o bastonário dos fisioterapeutas, que defende uma alteração no circuito que os doentes têm de percorrer até chegarem ao fisioterapeuta. “O problema é que o acesso dos doentes depende de um circuito burocrático, que não acrescenta nada do ponto de vista clínico”, realça António Lopes, defendendo que deveria existir um acesso mais direto à fisioterapia, como noutros países da Europa. A demora na realização das consultas obriga os doentes a protelarem, em muitos casos, o início da fisioterapia, o que tem implicações clínicas.
“Enquanto espera, o utente perde a oportunidade para ter cuidados de qualidade. É ultrapassado o período de tempo (a seguir ao pós-operatório ou à lesão) em que poderíamos intervir e o utente não beneficia completamente da fisioterapia”, vinca o bastonário, alertando que “a pessoa continua em sofrimento e vai tendo sequelas”. E dá o exemplo dos casos de AVC. “Há um tempo de regeneração normal em que, ou aproveitamos os períodos iniciais, ou perdem-se as janelas de oportunidade”, diz o responsável, acrescentando que no caso da cirurgia à anca (uma operação comum) “se não for iniciada fisioterapia logo no pós-operatório, vai instalar-se a falta de força e outros padrões que vão ser difíceis de reverter”.
Para além do agravamento clínico, António Lopes alerta que há custos duplicados, que pesam sobre o SNS e sobre doentes e profissionais. “O que podia ser resolvido em poucas sessões acaba por ser resolvido com muitas”, lamenta o bastonário, lembrando que, quanto mais tarde for iniciada a fisioterapia, mais demorada e cara se torna a recuperação.
Só 10% dos fisioterapeutas trabalham no SNS
Um dos problemas diz respeito ao número de profissionais que trabalham nos hospitais e centros de saúde. Dos 13.500 fisioterapeutas registados em Portugal, apenas 1.500 trabalham no SNS. A Ordem dos Fisioterapeutas defende um reforço dos profissionais, particularmente nos Cuidados de Saúde Primários. Contudo, realça, “existem constrangimentos orçamentais que não permitem contratação de mais pessoas. E depois gastamos mais dinheiro a consertar”, lamenta António Lopes.
Apesar da carência de profissionais no SNS, Portugal não tem um problema ao nível da formação. Há cerca de 130 fisioterapeutas por cada 100 mil habitantes, sendo que a média europeia está nos 140, realça. Tal como noutras profissões da área da saúde, a maior carência de profissionais é notada a sul. “No norte, há mais escolas e maior oferta de fisioterapeutas”, realça o bastonário.
A falta de profissionais no SNS obriga o serviço público a externalizar parte significativa dos cuidados para clínicas com as quais estabelece convenções. Mas mesmo no setor convencionado, a capacidade de resposta fica aquém do necessário. “Atendendo aos atrasos, [as convenções] são poucas”, diz António Lopes.
Convencionados reconhecem dificuldades e pedem atualização do valor dos atos
O presidente da Associação Portuguesa de Medicina Física e Reabilitação (APMFR), que representa a rede de convencionados nesta área, admite que existem dificuldades de resposta nas clínicas privadas que têm acordos com o SNS mas garante que, em regra, os cuidados são prestados “em tempo útil” depois de o doente ser encaminhado. O problema, explica António Neves, é que, em muitos casos, a reabilitação é iniciada tardiamente, prejudicando a recuperação.
“Se os doentes já vêm do SNS com três meses de atraso, como acontece hoje em dia, é difícil. É muito importante que a fisioterapia comece de imediato, porque senão o processo de tratamento e acompanhamento será mais complicado”, salienta o presidente da APMFR, acrescentando que a demora no encaminhamento para fisioterapia tem um impacto especialmente gravoso “nas pessoas mais velhas, que são sujeitas a operações à anca e à colocação de próteses, por exemplo“.
António Neves alerta ainda que a demora no acesso à reabilitação é também prejudicial para o SNS, uma vez que o “valor que é investido nas operações pode ser colocado em causa”.
As clínicas privadas da área da Medicina Física e Reabilitação (cerca de 260 em todo o país) têm-se confrontado também com dificuldades financeiras decorrentes dos preços pagos pelo SNS pelos atos realizados. “Os valores de reembolso não são alterados há 20 anos“, queixa-se António Neves, referindo-se, por exemplo, aos casos de terapia da fala, cujas sessões são pagas pelo SNS a 3,97 euros cada. Uma sessão de terapia ocupacional via SNS apenas rende 4 euros, sendo que os valores de reembolso dos treinos terapêuticos variam entre os 1,35 e os 4 euros.
Em abril, o Governo atualizou o valor de alguns atos convencionados nas áreas das análises clínicas, imagiologia e hemodiálise mas deixou a Medicina Física e Reabilitação de fora, lamenta António Neves, acusando o Governo de não ter cumprido o compromisso que assumiu. “A atual Ministra da Saúde reconheceu a situação grave, injusta e os efeitos de uma tabela cristalizada no tempo, que tem impacto no acesso a tratamentos de MFR da população portuguesa. Inclusive, foi assumido o compromisso por parte do Sr. Secretário de Estado da Gestão da Saúde de que haveria uma atualização parcial do valor de reembolso de alguns atos. Tal deveria ocorrer em abril ou maio de 2026, mas a ACSS [Administração Central do Sistema de Saúde], até ao momento, nada se concretizou”, critica.
O responsável fala numa “notória asfixia financeira” das clínicas que trabalham nesta área, devido também ao aumento acelerado dos custos com os fisioterapeutas e outros profissionais, que não tem sido acompanhado pelo SNS. “É absolutamente essencial o fator humano e, nos últimos anos, o salário mínimo aumentou para mais do dobro e nos técnicos o aumento foi superior”, diz o presidente da APMFR, alertando para uma “situação de limitação financeira que tem como consequência uma limitação dos operadores”.
Embora o número de clínicas se tenha mantido estável, algumas reduziram o número de trabalhadores. “Há menos oferta“, sublinha, acrescentando que nos grandes centros urbanos, onde a saúde privada está mais desenvolvida e a população tem poder financeiro para ter seguros de saúde, as clínicas começam a prescindir das convenções com o SNS, agravando as dificuldades de acesso. Já nos meios rurais e no interior, o SNS continua a representar grande parte da atividade desses estabelecimentos, salienta António Neves.
O bastonário dos fisioterapeutas, António Lopes, alerta que “está a aumentar a procura e necessidade de cuidados, sobretudo devido ao envelhecimento” mas também a outros fatores (como os acidentes de viação ou as lesões decorrentes da atividade desportiva), e lamenta que o acesso ao SNS dos doentes fique cada vez mais condicionado.