Desde que o mundo é mundo que o poder tenta “orientar” os poetas vivos e cativar os poetas mortos, procurando nos grandes artistas, músicos, cineastas, pintores, escritores, legitimidade histórica e ideológica. Camões, como o maior poeta português, sem rival até ao aparecimento, descoberta e reconhecimento de Pessoa, não escapou a estas tentativas de captura.
O uso e abuso da História
Perante o génio de Camões, a tentação de encontrar no poeta um herói útil nunca deixou de ser transversal à direita e à esquerda, mesmo que essa utilidade pudesse vir a ser a de o elevar como suprema vítima ou supremo culpado de uma História vergonhosa, ou a de o calar como voz do privilégio branco e masculino.
O uso político da História e da cultura está, de resto, generalizado na modernidade europeia, sendo (quase) sempre possível torcer factos e comprimir génios, de modo a acomodá-los na lamparina pretendida para depois os libertar convenientemente.
Assim, escrevendo sobre as ideias políticas de Shakespeare, Noah Berlatsky, por exemplo, pôde sustentar que o Bardo era “conservador” por defender o statu quo da monarquia inglesa da primeira modernidade e a hierarquia estabelecida. Esta defesa da legitimidade monárquica e consequente condenação dos que tentavam combatê-la, como os puritanos, seria clara em Macbeth, mas também em Hamlet e em The Tempest. Por isso também Iago era o “mau” da peça, em Othello, e Lear, com o seu abandono prematuro do poder, o portador do caos. Nada disto impediria que críticos como Andrew Venning advogassem um Shakespeare de esquerda, ou “liberal”, na terminologia anglo-saxónica, pela sua crítica a figuras tirânicas ou iliberais, como Júlio César e Ricardo III. Qualquer das hipóteses é defensável, até porque, como todos os grandes criadores, Shakespeare não foi um teórico político mas, acima de tudo, um espelho da natureza humana e das sociedades onde ela se revelava, ou talvez até mesmo um “inventor do humano”, como queria Harold Bloom. Mas se os grandes textos permitem múltiplos usos e interpretações nem todos os usos e abusos são legítimos.
Em Ideas Have Consequences (1948), Richard Weaver fixou o princípio da decadência do Ocidente no nominalismo de Guilherme de Ockham, um franciscano inglês, teólogo e filósofo que, pela primeira vez, pôs em causa a existência de verdades absolutas. Defendendo que a realidade era, sobretudo, uma percepção dos sentidos e não da inteligência, Occam teria aberto caminho à transformação do “homem moderno” num “moral idiot”.
Assim, por idiotice moral, por paixão ideológica ou por uma combinação das duas, não faltaram nem faltam tentativas políticas de monopolizar textos, poetas e artistas, ou até de os cancelar. Tal como os Evangelhos, o Dante da Commedia ou o Cervantes do Quijote, o Camões d’Os Lusíadas ou da lírica é passível de ser calado ou manipulado em prol de gregos e troianos, progressistas e conservadores.
Luís de Camões, que era um português, mas também um ocidental da modernidade renascentista, estava consciente de que a liberdade de se contradizer ou de integrar a contradição fazia parte dos valores europeus. Com o “Velho do Restelo” (queira Deus que o não venham a transformar em “Idoso do Restelo”), o poeta não poupou o lado negro do império: o abuso, a corrupção e a cobiça dos poderosos e a inveja inerte dos tacanhos. Também por isso Antero e Oliveira Martins usaram Os Lusíadas na sua crítica amarga ao Portugal oitocentista: o poema, além de cantar a glória e o génio dos portugueses, ficava “gravado na alma nacional como o epitáfio da nação”.
Este pessimismo nacional, muito Geração de Setenta, convertia-se, para os republicanos do tempo, num argumento contra a monarquia dos Bragança, culpados de se afastarem da glória do século de ouro, em que controlávamos o comércio do Índico, tínhamos fortalezas e feitorias nas costas oriental e ocidental africanas, estávamos em Marrocos e começávamos a colonização do Brasil. Assim, no centenário de 1880 e a seguir ao Ultimato, a República pegaria no Camões da exaltação colonial para o arremessar contra a Monarquia.
Camões e os republicanos
Em 1880, no terceiro centenário da morte do poeta, é uma comissão executiva maioritariamente republicana que exalta o tempo épico do Portugal de Os Lusíadas, para o contrastar com a decadência oitocentista, culpando os Braganças e a monarquia pelo declínio da Nação. Na documentação comemorativa e na História das Ideias Republicanas (1880), Teófilo Braga vai mesmo apelar para que o “10 de junho de 1880”, o terceiro centenário da morte do grande poeta, seja “o começo de uma nova era de grandeza da Pátria”.
Dez anos depois, a humilhação do Ultimato serviria aos republicanos para explorar a “traição da Coroa” que cedera a uma outra coroa – a inglesa – o património ultramarino. E, ironia do destino, atendendo ao futuro da esquerda democrática do século XX, seria em nome da “revivescência da nacionalidade” e com referência à épica camoniana como símbolo da “idade heróica da Nação” (idade a que os seus herdeiros se iriam referir como “de escravatura e colonialismo”) que os republicanos obteriam a sua primeira votação popular significativa. Nesses finais do século XIX, a estátua de Camões na Baixa de Lisboa, erguida em 1867, seria, depois do Ultimato, devidamente enlutada com crepes negros e transformada em lugar de romagem. Isto apesar das ideias de “federalismo ibérico” que alguns destes republicanos perfilhavam.
É à volta desses “lugares da memória” que Teófilo unifica “as três revoluções” – a de 1640, a de 1820 e a de 1910 – num mesmo nacionalismo popular, em que o culto da pátria e dos heróis se revelam essenciais para “acordar a consciência de solidariedade da civilização ocidental”.
Como parte da sua sobreprodução bibliográfica ao serviço de ideais políticos, Teófilo Braga publica Camões e o Sentimento Nacional (1891), glorificando o poeta e a Idade de Ouro dos Descobrimentos e das Conquistas. Ajudam-no nesta empresa dois grandes da Geração de Setenta, Oliveira Martins e Antero de Quental. Em divergência com Herculano, o historiador apaixonado pelo Portugal medieval e municipal pré-expansão, Oliveira Martins e Antero veem n’Os Lusíadas, além da exaltação do povo português, um manifesto da Europa moderna, a Europa de Quinhentos e dos Estados soberanos como forma superior de comunidade política, contra as antigas fórmulas trans-estatais da Respublica Christiana papal e do Sacro Império Romano-Germânico.
Mal sabiam os republicanos, patriotas e grandes defensores do império colonial – mas ao tempo, identificados com a esquerda progressista – que estariam condenados a retorcer-se nos túmulos, ante a obra dos seus pretensos descendentes ideológicos, motores, por acção ou inércia, da descolonização. Ou perante a esquerda actual e a revisão histórica a que se dedica.
Camões, o Estado Novo e o 25 de Abril
Depois do 28 de Maio e da Ditadura Militar de 1926-1933, o Estado Novo – que, graças a António Ferro, se abriu à modernidade estética europeia, casando-a com o nacionalismo português – viu n’Os Lusíadas uma mina de ouro para a consagração e defesa dos seus valores de orientação – Deus, Pátria e Família.
É curioso que alguns oposicionistas acusassem o Estado Novo de policiar a Literatura, do Canto IX dos Lusíadas a algumas obras de ficção e de História da Geração de Setenta, como se semelhante controle fosse sequer remotamente comparável ao então exercido nas suas admiradas “democracias populares”. O certo é que a censura que de facto existia nos permitia, ainda assim, estudar uma cadeira eminentemente ideológica, como era a Literatura Portuguesa do 6º e 7º ano do liceu, pelo compêndio, aliás excelente, de dois membros do Partido Comunista: a História da Literatura Portuguesa de António José Saraiva e Óscar Lopes.
Claro está que, frente à ofensiva anticolonial das Nações Unidas, o Estado Novo usou Camões e Os Lusíadas para exaltar o patriotismo ultramarino dos militares e das novas gerações, sem que os poetas e os cantores da oposição repudiassem o poeta ou deixassem de o usar, se não na épica, na lírica. Era então considerado grande demais e rico demais para ser ignorado.
Já depois de 1974, Jorge de Sena falava num “Camões subversivo e revolucionário, em tudo um homem do nosso tempo, que poderia juntar-se ao espírito da revolução de Abril”.
Ao “espírito” das poéticas intensões revolucionárias ainda vamos, ajudados por algum engenho e arte interpretativos; aos feitos, às “obras valerosas” e ao “novo reino”, entretanto edificado, é que já não.
Mas enfim, antes a manipulação que o cativeiro da ignorância e do silenciamento.