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(A) :: O dia em que a numerologia se perdeu num futebol de praia (a crónica do Portugal-RD Congo)

O dia em que a numerologia se perdeu num futebol de praia (a crónica do Portugal-RD Congo)

João Neves, o 1+5 da equipa, marcou aos 6' e deu o arranque ideal para 2026 ser como 1966 e 2006. Problema? Ficou-se por aí. Sim, Portugal teve muita bola – mas não soube o que fazer com ela (1-1).

Bruno Roseiro
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Quase uma semana depois, chegava a hora. Como em tudo, quase como naqueles tempos de escola primária em que os nomes começados por R, S ou T ficavam sempre para o fim, há vantagens e desvantagens em ser um dos últimos a entrar em campo. Sobra ansiedade, há também alertas dos outros jogos como aconteceu no nulo da Espanha com Cabo Verde ou no empate da Suíça com o Qatar, existe demasiado tempo para moer e remoer o que deve ser feito para o tal “fazer o que nunca foi feito”. Com uma diferença – se em campanhas anteriores havia especiais cuidados para minimizar qualquer coisa que pudesse ser mal interpretada, agora a realidade era diferente. Jogadores na praia? Sim, jogadores na praia. Selecionador em final de contrato? Sim, selecionador em final de contrato. Sem tabus, sem problemas, sem dramas, com a ambição de ganhar.

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Por aí, a presença de Portugal nos EUA já era “diferente”. Matheus Nunes desconstruiu da melhor forma os passeios pela praia que tanta celeuma iam criando (acrescentando-se que foi num ambiente parecido que a Alemanha se sagrou campeã mundial em 2014 e que o PSG chegou à final do último Mundial de Clubes em 2025, por exemplo), Roberto Martínez explicou o porquê da opção de uma viagem mais tardia para Palm Beach comparando com as outras seleções, os dias foram desmistificando o peso que poderia ter trabalhar na Cidade do Futebol quando o Mundial já tinha começado. No entanto, agora chegava a hora da verdade para quem também sabia que tudo isso poderia fazer ricochete se não houvesse uma resposta em campo.

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Primeiro obstáculo mais ou menos inesperado? A ausência de Rúben Dias. O central sofreu uma pancada no particular com a Nigéria e, apesar de estar bem dentro do possível, não se encontrava a 100%, com Martínez a ser pragmático e a assumir sem tabus que o defesa mais experiente, que tem feito treino condicionado nos EUA, ficaria de fora da primeira partida para não arriscar agravar esse problema. Depois, esse possível impacto de fusos horários e diferenças de temperatura, algo que só não foi o mais relativizado na antevisão da partida porque o treinador espanhol secundarizou por completo as notícias de que iria sair da Seleção no final da competição, qualquer que fosse o resultado. “Só estou focado no Mundial, é uma não notícia”, frisou.

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“Aqui a questão do clima é muito mais fácil. É a complexidade do Mundial, esperar o inesperado. Adaptámo-nos bem ao fuso horário. Estamos a trabalhar as condições do calor, importa continuar com a preparação. O jogo com a Colômbia será em Miami e aqui não é uma temperatura exigente. À exceção da questão do Rúben, o resto da preparação foi um período muito, muito positivo, muito bom. Todos os jogadores tiveram minutos, o nível do treino está a ser muito alto. Estamos a ajustar não só ao fuso horário, que fizemos isso muito bem já com a experiência que tivemos durante o mês de março, mas também a trabalhar com a humidade e a temperatura em Miami. Até cancelar um treino foi mais uma oportunidade para trabalhar aquilo que é este Mundial, que é esperar o inesperado e tentar utilizar aquilo que acontece para acrescentar a preparação dentro do grupo”, apontou Martínez, que deixou também rasgados elogios à formação da RD Congo.

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“Todos temos de respeitar muito o que a RD Congo está a fazer com o seu treinador. Já são muitos jogos, acho que 48 jogos. Isso é um período de trabalho muito bom ao nível de seleções. O Sébastien Desabre fez uma fase de apuramento extraordinária. Estamos a falar de uma equipa que deixa de fora os Camarões, a Nigéria e ganha um playoff continental. São muito flexíveis taticamente, não são apenas uma equipa que defende em bloco baixo. As equipas africanas agora estão muito bem desenvolvidas, conseguem fazer uma pressão do bloco médio alto, ser agressivos. Gostam dos duelos físicos, do jogo vertical quando têm bola descoberta, de explorar os espaços na linha defensiva. O jogo contra a Nigéria é um jogo que mostra muito bem aquilo que as seleções africanas podem fazer. Há pontos muito semelhantes: o aspeto flexível, muitos jogadores na zona central, uma equipa que gosta do duelo físico e que é muito vertical. Bola parada? É um processo continuado, já são 40 jogos que estamos a trabalhar com a nossa Seleção”, destacou o técnico.

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Estavam lançados os dados para um encontro que, tal como o tempo que se fazia sentir, tinha um pouco de tudo, da chuva e vento à humidade e à sensação de abafado. E tudo num NRG Stadium, agora apresentado apenas como Houston Stadium, que tinha a cobertura no topo fechada durante o Mundial por imposição da FIFA, tendo em conta que a temperatura teria de ficar nos 22º para preservar ao máximo a relva natural que chegou do norte do país. Pedro Neto na esquerda foi a surpresa preparada por Martínez e foi daí que nasceu um início perfeito que entroncava muito na numerologia que o selecionador invocara antes do Mundial: João Neves, o número 1+5 de Portugal, desviou de cabeça um cruzamento do ala do Chelsea e fez o 1-0 logo aos seis minutos. A caminhada de 2026 começava com aquela sensação de que era possível repetir 1966 e 2006 (ou 2016, olhando para Europeus) mas tudo se foi esfumando com o passar dos minutos.

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Portugal teve muita bola. Muita bola mesmo. Com um problema: na maioria das vezes, não soube o que fazer com ela. Faltou velocidade, ou mudanças de velocidade, para desconstruir mais vezes a organização recuada do RD Congo, o jogo pelo corredor central ficou demasiado bloqueado, Cristiano Ronaldo pouco ou nada conseguiu dar enquanto referência ofensiva e a meia distância que tantas vezes parecia poder ser a solução tornou-se também uma arma por utilizar (pelo menos até aos 90′, quando Bruno Fernandes rematou de longe ao lado da baliza dos africanos). Nada está perdido, claro, com a Seleção a ter ainda mais dois jogos na fase de grupos para ambicionar chegar ao primeiro lugar. No entanto, ou sobretudo, nada foi ganho.

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Portugal teve um início de jogo, na bola de saída, que mostrou ao que vinha. Ao contrário do que tem vindo a acontecer em vários encontros deste Mundial, e em vez de chutar na frente quase como se fosse râguebi para ir pressionar alto e forçar o erro adversário, a Seleção fez imperar a posse. Para trás, para a frente, a circular pelos três corredores, a assumir por completo as rédeas da partida com uma reação agressiva à perda que ia fazendo com que a RD Congo não desfizesse o 5x3x2 sem bola desde o toque inicial. Portugal percebia que não tinha de entrar muitas vezes no bloco defensivo dos africanos mas sim trabalhar o jogo em posse à espera que o espaço aparecesse para ferir o adversário. Não feriu, matou logo – em nova jogada de envolvimento pela esquerda, Pedro Neto cruzou na zona entre o primeiro e segundo centrais e descobriu o pequeno grande João Neves, que do alto dos seus 174 centímetros foi mais lesto e desviou de cabeça para o golo (6′).

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Entrar a ganhar em qualquer jogo é bom, entrar a ganhar num jogo com as características que este teria com a RD Congo era perfeito. Wissa ainda teve um remate de fora da área ao lado (10′) e Tomás Araújo fez um corte providencial para canto numa jogada na área (13′) mas era Portugal que continuava a pautar os ritmos de jogo, esperando também que os africanos abrissem um pouco mais dentro da estratégia que traziam desenhada pelo técnico Sébastien Desabre. Mais uma vez, foi pela esquerda que surgiu novo aviso: Bruno Fernandes viu a desmarcação na profundidade de Nuno Mendes num lance em que Pedro Neto ficou e deixou consigo o seu defensor direto, o toque do lateral a meias com um defesa foi travado por Mpasi e, na segunda vaga, Bernardo Silva chegou atrasado ao cruzamento/remate rasteiro de Bruno Fernandes (18′). A pausa para hidratação (vulgo, compromissos publicitários) estava à porta com Portugal a controlar o jogo.

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Aí, nova diferença em relação a outras seleções neste Mundial (não todas, entenda-se). Antes de falar a todo o grupo, Martínez chamou especificamente João Cancelo, Vitinha e Bernardo Silva para tentar dar outro lastro ao lado direito de Portugal enquanto outros jogadores, como Diogo Costa, Bruno Fernandes ou Ronaldo, iam falando entre si fazendo alguns acertos táticos perante o que se passara nos 23 minutos iniciais. No entanto, a conversa deu em pouco. Aliás, não deu mesmo nada. O ritmo continuou lento, o jogo passava muito pelos pés de Vitinha mas sem jogar com qualidade ao último terço, as transições defensivas deixaram de ser eficazes como até aí. Estava a começar a nascer o contexto para uma surpresa de última hora como aquela que veio a acontecer nos descontos, com Wissa a surgir sozinho na área após um cruzamento longo para a zona entre central e lateral direito e a desviar de cabeça para o empate no quinto e último minuto de descontos já depois de uma tentativa de meia distância de Kayembe que saiu prensada para defesa de Diogo Costa (33′).

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Os adeptos da RD Congo entravam em delírio com o primeiro golo do país num Mundial, depois da passagem a zeros do Zaire pela prova em 1974, os jogadores da RD Congo reentravam no jogo com confiança redobrada que se expressava também na capacidade que tinham em posse de progredir e tentar algo mais da estreia na competição. Martínez percebia isso e mexia logo ao intervalo, com Bernardo Silva, que também tinha já um amarelo, a ficar no banco por troca com Francisco Conceição, o espalha-brasas que funcionou como amuleto do técnico no Europeu-2024. Bakambu ainda teve um remate na área descaído sobre a direita defendido por Diogo Costa mas anulado por fora de jogo (50′), João Cancelo marcou mesmo num lance em que João Neves fez uma assistência genial com o peito mas também estava adiantado (55′). Martínez chamava Vitinha para dar mais instruções mas era percetível aquilo que faltava: agitar a caixa e meter outra velocidade.

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Demorou. Mesmo com Portugal à procura sem sucesso de um momento em que ficasse mais confortável no jogo, percebia-se que começava também a nascer um sentimento de desconfiança perante as tentativas de saída da RD Congo e os esquemas táticos ofensivos onde ganhavam a maioria das bolas pelo ar. Só mesmo as iniciativas individuais com sucesso traziam algo mais ao jogo português no último terço, como aconteceu num grande lance de Francisco Conceição em que cruzou atrasado e Ronaldo desviou na área ao lado quando tinha nas costas Bruno Fernandes pronto para marcar (68′). A pausa para hidratação trouxe Rafael Leão e Nelson Semedo ao jogo por troca com Nuno Mendes e Pedro Neto, o reatamento começou com um lance a papel químico com Bruno Fernandes a abrir no espaço em Conceição mas Ronaldo a atirar ao lado (75′).

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Portugal percebera que era colocando a bola nas zonas entre central e lateral que conseguia ganhar depois a vantagem para cruzar, os passes continuavam a sair mal ou não tinham a melhor finalização. Com isso, os minutos iam passando, com a Seleção a começar a “afogar” na ténue fronteira que dividia o risco para chegar ao golo e o receio de sofrer mais desgostos numa transição, como aconteceu numa saída que terminou com um remate na passada de Bakambu que saiu forte mas por cima (78′). Martínez arriscava tudo nos instantes finais, assumindo um jogo menos trabalhado e mais direto com a entrada de Gonçalo Ramos para a saída de Vitinha numa fase mais anárquica da partida mas nem a presença de dois jogadores mais em cunha na frente fez a diferença até tendo em conta que a única tentativa de cruzamento, numa subida de João Cancelo, ficou nas mãos de Mpasi. O jogo chegava ao fim com um dececionante empate.

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