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Compridos, "shortinhos", micro ou descaídos até aos joelhos: o tamanho dos calções também conta para os Mundiais

Dos primeiros materiais à tecnologia mais sofisticada, dos atléticos anos 80 aos padrões néon, da declaração de guerra de Cris ao sagging de Yamal, usamos a fita métrica à evolução dos equipamentos.

Maria Ramos Silva
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Inês Correia
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Um minuto de silêncio por todos aqueles que nunca mais se endireitaram. A eternidade inteira para os dribles fatais do Anjo das Pernas Tortas. Quem tem as melhores pernas? Calma, não é interrogação estética, antes uma finalíssima sobre eficácia, com respostas para todas as posições em campo. No Mundial de 1962, Garrincha fez da imperfeição novo sexy, assumindo o protagonismo após lesão de Pelé. No Chile, o bom, o bonito e o belo era assunto traçado com régua divina. Seis centímetros separavam cada uma das pernas da lenda. Seis centímetros a separar a tristeza geral da Alegria do Povo, o outro epítome que Mané agarrou com as suas asas. Esta é também uma história de desnível de tamanhos, agora no comprimento dos calções usados ao longo de quase um século de Mundiais. Na medida do pano e na elevação ou descida da cintura.

Uma contabilidade estratégica como quem soma mentalmente os 9,15 metros da distância obrigatória da barreira. O resto é uma subtil declaração de guerra, ou pelo menos um aviso de que a bola pode acabar dentro da baliza. O hábito de puxar as pernas dos calções para cima, geralmente antes de marcar um livre direto, tornou-se uma imagem quase tão regular como o vigoroso “sim” ou a pirueta triunfante após o golo. O gesto de Cristiano Ronaldo expõe os músculos das coxas, acrescenta liberdade de movimentos e de caminho evoca a era dourada dos “short shorts”, o tempo em que os calções dos futebolistas eram bem mais curtos do que os da atualidade. Estrelas contemporâneas como Jack Grealish e Neymar seguem com frequência o hábito do capitão da seleção nacional, ilustrando ainda como o progresso tecnológico assiste o atual equipamento de campo. E de resto não é só dentro de jogo que o madeirense encurta o comprimento dos calções: é vê-lo na praia, de óculos espelhados, six pack que apela a um fact check na internet, e com uma micro sunga.

A imagem teve um gosto tão polémico (quando a bola não entrou) como revivalista. Fit and style foi o mote por excelência no arranque do futebol moderno. A tendência começa a descolar ainda nos anos 60 mas é nas duas décadas seguintes que encontra maior expressão. Os calções dos jogadores são então extremamente curtos (muitas vezes pelo meio da coxa, no máximo) e apertados, projetados para mostrar figuras atléticas. Leves, este foi o reinado do nylon brilhante, dispensando o uso de roupa interior de compressão, uma tendência que se instalaria mais tarde — com a FIFA a recomendar que esta siga a cor dominante dos calções exteriores.

Chegados ao Mundial de 2026, Willy Chavarria, LOEWE e Jacquemus são apenas algumas das marcas e designers que trabalham com seleções nacionais, a formação congolesa fez uma declaração viral com looks criados por um designer desconhecido, Cris exibiu os seus óculos escuros à partida para os EUA, e a coleção de carteiras XL dos principais craques da modalidade rivaliza com o closet das celebridades femininas. A prova pode só estar na moda de quatro em quatro anos, mas a moda está no Mundial para ficar.

Dos calções ao golo das marcas desportivas: como tudo aumentou

Parecia apenas uma piada que dificilmente algum dos adeptos iria esquecer depois daquela final da FA Cup em 18 de maio de 1991. Mas vendo bem, a graça seria um caso sério de popularidade pouco tempo depois. Em Wembley, no encontro entre o Tottenham e o Nottingham Forest, que terminou com a vitória dos Spurs por 2-1, os novos calções do equipamento Umbro dominaram tanto as atenções como a rotura de ligamentos de Paul Gascoine, que comprometeria o seu último jogo pela equipa. “Gazza” e os restantes colegas surgiam com um modelo mais longo do que o habitual, uma tendência que em dois anos iria intrometer-se por completo. As mudanças não ficariam por aqui: para trás ficava a gola em V e a emergência de um modelo de camisola que até colarinhos passava a ver, abotada à moda antiga. Na tribuna, Carlos e Diana seguiam o desfecho. Num coordenado verde garrafa, a princesa do Povo, e ícone de estilo por direito próprio, saudou os grandes vencedores.

A evolução no comprimento inscrevia-se na chamada era baggy, que de uma maneira geral importou as modas do street wear para os relvados. A roupa ficava maior, mas larga, fluída à boleia de cultura hip hop, do sucesso do basquetebol e de lendas como Michael Jordan, esse mesmo, aquele que inspirou os Air Jordan e sacralizou os ténis enquanto calçado oficial das ruas. E a par e passo, no guarda-roupa mais descontraído e desconstruído, as bermudas tinham o seu momento de glória, prolongados pelo novo milénio adentro. “Os calções de futebol eram muito curtos. Eu estava lá quando os calções passaram de curtos para longo. Foi apenas uma tendência de moda que atingiu o futebol. O que se pode fazer com os equipamentos se não seguir isso? Tinha umas pernas decentes nos anos 80, por isso estava tudo bem. Comigo funcionava.”, confessou Gary Likener à GQ.

Se em 1904, a Associação do Futebol Inglês impunha a regra dos calções a cobrirem os joelhos, 70 anos mais tarde ícones como Diego Maradona e Pelé tornavam-se os manequins por excelência do equivalente à minissaia no futebol, numa imagem que trazia a forma física dos atletas para a dianteira das atenções. Para mais, a fase dourada do “shortinho” era conjugada com a camisola devidamente enfiada para dentro dos calções.

Há quem vá mais longe no paralelismo. Em 2012, a Business Insider antecipava os níveis de crise em função do tamanho da bainha das senhoras. E o Mundial de 2014 suscitava uma curiosa comparação entre a evolução do tamanho das saias e do comprimento dos calções dos futebolistas. Numa sintonia improvável, a análise desde o começo do século XX cruzava o estilo de Mona von Bismarck, uma das melhores vestidas do começo do século passado, com as equipas pioneiras dos mundiais. Encontravam-se pontos de união entre a revolução das pernas a descoberto servida por Mary Quant, e a ascensão da cultura jovem e pop, com a mítica Inglaterra de 1966. Um desfile de Paco Rabanne de 1975 de repente forjava uma ligação com os looks da laranja mecânica de 1978.

E o que poderia haver de comum entre uns hotpants de John Galliano em 1989 e o visual de El Pibe? O resultado, neste e em qualquer das referências anteriores, é uma harmonia entre as criações no masculino e feminino, como se os relvados acompanhassem os sinais dos tempos, num encontro menos esperado entre performance e tendências.

Há diferentes fatores que explicam a transição progressiva para os calções como hoje os conhecemos, ora tecnológicos, ora económicos, ora sociais. A adoção generalizada de camadas de base e undershorts de compressão para suporte muscular obrigou ao uso de calções mais longos, e mais soltos, para cobertura suficiente. De resto, os materiais modernos assumiram-se como aliado mais eficaz contra queimadura de relva, e não só (os tecidos antigos absorviam demasiado suor e quanto mais longos e pesados, pior). Por outro lado, os calções que chegavam quase ao joelho revelavam mais espaço para servir impressões publicitárias, à boleia da explosão da indústria e globalização por completo do futebol. E por fim, a vontade de se emanciparem do estereótipo que associava a roupa demasiado curta e justa à comunidade gay e, por arrasto, ao flagelo da Sida, que tingiu os 90’s de pânico, não fica de fora das teorias.

Se os materiais caminharam para a funcionalidade, o conceito gráfico servido pelas marcas alinhava-se com os tempos políticos e culturais. O icónico padrão germânico no Mundial de 1990, em Itália, teve o dedo criativo da compatriota Adidas, com o preto, encarnado e amarelo a simbolizar a reunificação da Alemanha depois da queda do Muro de Berlim. Na vitória por 1-0 frente à Argentina, o orgulho alemão e o design ousado casavam com a inovadora tecnologia ClimaCool.

Em 1994, a herança cultural da Nigéria foi trabalhada pela norte-americana Nike, que aplicou a estética moderna à arte tradicional daquele país africano.  No mesmo ano, o efeito denim das camisolas dos EUA promoveram acesas divisões e abafaram por completo os calções encarnados escuros.

Os equipamentos dos guarda-redes costumam escapar à discussão, mas quando falamos dos anos 90 o assunto muda, obviamente, de figura. Nessa mesma edição de 94, o mexicano Jorge Campos foi um autêntico iman pelos padrões vibrantes e tons néon da camisola e calções, muitas vezes desenhados pelo seu punho e confecionados por uma pequena empresa mexicana chamada Aca Sports, que também vestiu o colombiano Rene Higuita. Em 1998, uma chama ganhava efeito gráfico nos calções do guarda-redes japonês Yoshikatsu Kawaguchi, outro nome com estilo diferenciado. É precisamente nessa edição disputada nos EUA que os nomes e números dos atletas, até então ausentes, passam a constar na parte de trás das camisolas. Já o húngaro Gabor Király, nunca foi a um Mundial mas no Euro 2016 seria notícia pelo visual anti-estrela, usando sempre calças de fato de treino, com um tamanho em cima, colocando o conforto sempre sobre o estilo e nunca mostrando as pernas, nem nos treinos.

Com a Nike e o Brasil, as memórias voltavam a ser convocadas. O equipamento “Canarinho” do Mundial de 1958 reinventava-se 40 anos depois, agora com um cirúrgico reforço da estrela azul e com os quatro títulos de campeão do mundo em evidência. As campanhas com craques da época, como Ronaldo (o Astro) e Rivaldo geraram um sucesso de vendas junto do público.

A cor e a audácia dos padrões são marcas distintivas desta fase. Em 1998, os calções XL tinham uma presença consistente. Calções compridos, e cabelos mais curtos – a não ser que se chamassem Carlos Valderrama, uma das estrelas da edição disputada em França. Pelo México, Luis Hernandez surgia em imagens em que se avistavam os undershorts, calções de lycra brancos usados sob calções que haveriam de continuar a crescer em tamanho.

Por fim, os equipamentos dos anos 2000 fundiram e consolidaram performance de ponta e estatuto cultural. O Mundial de 2002 na Coreia do Sul e Japão introduziu uma nova era de tecidos de performance. Adidas e Nike competiram pelo melhor desempenho ao nível da tecnologia de humidade, ventilação a laser, e engenharia de compressão, para uma clara evolução face à anterior edição. A seleção brasileira de 2002 ganhou o seu quinto título com um conjunto amarelo com brilho dourado que se tornou um dos projetos mais icónicos dos vencedores do torneio, com o selo da Nike. A dramática corrida da Coreia do Sul para as semifinais, a jogar em casa, criou um enorme aumento na popularidade do kit vermelho em toda a Ásia. Quatro anos mais tarde, o Mundial da Alemanha é evocado pelo contraste visual entre a estética branca e negra da equipa anfitrã e o azul profundo da Itália, que os levou à vitória nas grandes penalidades. Para a história passou também a camisola azul com faixa encarnada que seria usada pela França, como naquele infame momento da cabeçada de Zinedine Zidane.

Já a Adidas, aplicava-se no alviceleste da Argentina desse mesmo ano, uma estreia de gala para Lionel Messi nos campeonatos do mundo, que mais uma vez aproximava herança e modernidade.

Em 2010, na África do Sul, a tecnologia de impressão tornava-se ainda mais sofisticada e apetecível para o jogo de padrões, para que não fizessem apenas escola as ruidosas vuzuelas que marcaram a edição. A década seguinte, a começar pelo efeito do Mundial 2014, no Brasil, marcou um ponto de viragem e cimentou a cultura das réplicas entre os fãs. Sempre venderam bem, mas a sua acessibilidade em termos de escala atingiu um ponto alto. A geometria do equipamento germânico fez quase tanta escola quanto o infame 7-1 sobre a equipa da casa. E os miúdos em Santiago terão tentado emular o gesto que cristalizou durante a prova. Contra a equipa anfitriã, o chileno Alexis Sánchez jogou a maior parte do jogo com uma perna dos seus calções enrolada até cima. No tempo extra, foram as duas pernas.

Em 2018, na Rússia, o xadrez encarnado e branco da Croácia deixava bons sinais enquanto a Islândia se estreava. No Qatar, em 2022, a histórica prestação de Marrocos pôs o equipamento verde e encarnado no mapa das mais procuradas.

Quanto à parte inferior do uniforme, há uma nuance adicional para juntar a esta saga. Chamam-lhe sagging, ou o hábito de usar os calções, já de si compridos, ostensivamente descaídos da cintura, uma prática seguida por atletas como Lamine Yamal, Calvin Bassey ou Edon Zhegrova e para a qual se ensaiam diferentes teorias. Desde logo, deixar visível a marca da roupa interior, uma forma de inserção mais ou menos voluntária e uma oportunidade clara para as marcas, mas também, há quem creia, uma forma de iludir os adversários em campo, já que tornariam menos visível as manobras com os pés e a localização da bola.

A verdade é que a relação com o corpo e os estereótipos consentidos face a décadas anteriores também mudou. Pelo menos neste particular, o tamanho importa. Talvez alguns leitores ainda se lembrem quando o então Presidente da FIFA Sepp Blatter causou um pequeno tumulto depois de defender que as jogadoras de futebol deveriam começar a usar “calções mais apertados” para gerar mais interesse na sua modalidade. Um sugestão que não foi propriamente vencedora.

Dos primórdios à ascensão do Blokecore, do algodão cru às novas tecnologias

Sem grande surpresa, os equipamentos do Campeonato do Mundo de 1930 eram simples, pesados e funcionais, consistindo em camisas grossas de lã ou algodão, calções largos e botas de couro rígidas, que de alguma forma traduziam a roupa usada comumente na rua. Com as regras do futebol acordadas em 1863 pela Football Association, o uso de cores distintas entre adversários tornava-se obrigatório e fazia nascer os uniformes. A distinção cromática servia acima de tudo para distinguir uma equipa da outra em campo, e exprimir a identidade nacional de cada coletivo. Sem tecidos sintéticos modernos, logotipos de marca ou números de jogadores. A Itália usava azul (o azzurri), o Brasil afirma-se originalmente em branco e azul, Inglaterra alinhava de branco, tal como a Alemanha. Em 17 de julho de 1930, os jogadores da Bolívia usaram letras nas suas camisolas para o encontro frente à Jugoslávia. Alinhados, na mensagem lia-se “VIVA URUGUAY”, uma peculariedade transigida nesses primeiros anos. Inicialmente, os clubes esmeravam-se também nos ornamentos, cores e bordados, visíveis em barretes (também com efeito protetor da cabeça, face às primeiras encarnações das bolas) e brasões. Entenda-se: o uniforme era também parte da distinção social.

O estilo de vida de há um século descobriu as vantagens de uma rotina ao ar livre, e com ela uma transição de visual ajustada à mudança, naquilo que seriam as imagens precursoras do sportswear. Formas fluídas, decotes mais arriscados, a admissão dos calções. Os tecidos de tonalidade mais clara ou “crus”, sem tingimento, popularizaram-se no fabrico das primeiras indumentárias desportivas, contribuindo para uma desvantajosa e elevada retenção de líquidos, da chuva ao suor. As bermudas, largas e geralmente amarradas com cintos ou cordões, também acusavam o peso e inapropriação aos desafios dos atletas. Aos poucos, a malha de algodão, mais leve e resistente, foi rendendo o pano cru. Os uniformes ficaram mais curtos, as golas mais largas e as bermudas menores.

Ao longo da década, a formalidade no vestuário atingiu máximos através da figura do árbitro, obrigados a apitar os jogos vestindo camisas, blazers e calções extra large. Os anos 50 trariam tecidos mais leves e mangas mais curtas, com a simplicidade dos equipamentos a prevalecer nos torneios. A invenção do fio de elastano em 1959, permitiu uma revolução na indústria têxtil a partir da década de 1960, com as roupas a ganharem elasticidade e resistência a perfurações, além de mais leves e com custos mais baixos para a coloração.

Se de certa forma parecia que o jogo evoluía de forma mais veloz que os uniformes em campo, nada como um resultado traumático para revolucionar um guarda-roupa de campo. Em 16 de julho de 1950, num recém-inaugurado estádio do Maracanã, o anfitrião Brasil consente a vitória do Uruguai por 2-1, num vexame perante 200 mil adeptos. O escândalo do Maracanazo, como entrou para os anais, levou à imediata e drástica rendição dos equipamentos brancos, para abrir uma nova e umaculada página no curriculum do escrete.

A Confederação Brasileira de Desportos promoveu um concurso cujas bases eram inegociáveis: a nova proposta de equipamento deveria combinar as cores da bandeira brasileira. O esboço do escritor e ilustrador gaúcho de 18 anos Aldyr Garcia Schlee levaria a melhor : e assim nascia uma das conbinações mais famosas do mundo: a camisola amarela com detalhes verdes, calções azuis e meias brancas. Não é que o entra e sai no armário tenha operado milagre imediato: em 1954, a Hungria afastava o Brasil nos quartos de final. Mas já não havia forma de travar a marcha da lenda. Quatro anos depois, a seleção canarinha era apanhada desprevenida com uma final frente à também amarela Suécia, anfitriã do torneio. Sem equipamento alternativo na bagagem, foi preciso correr para uma loja de desporto e costurar emblemas brasileiros sobre equipamentos azuis e brancos — vendo bem, a cor era a mesma do manto de Nossa Senhora Aparecida, a padroeira do país, sinal de bom augúrio. Depois da vitória por 5-2, decidiram manter o look. No fim de contas, quem quer saber dos calções quando se tem Pelé? Em 1958, o prodígio anunciava-se ao mundo com apenas 17 anos, tornando-se o mais jovem a participar num Mundial. Marcou seis golos, incluindo dois nessa final que empurrou o Brasil para a sua primeira Copa.

Enquanto isso, a seleção portuguesa não se classificara para o Mundial de 1958, realizado na Suécia. A equipa disputou o Grupo 8 das eliminatórias europeias mas terminou na última posição, ficando atrás da Irlanda do Norte (que garantiu o apuramento) e da Itália. Em 1962, disputava apenas um jogo oficial no ano. No dia 6 de maio, no Rio de Janeiro, encaixava uma derrota frente ao bicampeão Brasil por 1-0.

Para muitos mercados, a edição em solo inglês de 1966, navegada pelos lendários Magriços, representou a primeira transmissão televisiva, pouco mais de uma década depois da transmissão inaugural de um Mundial, e assinalava a entrada na era moderna da prova. Graças às imagens em movimento, os equipamentos, a começar pelo seu design, viram a sua importância subir. 66 marcou ainda uma estreia nas mascotes, nos logotipos, no marketing, enfim. A ajudar a festa, à margem do guião, o troféu era roubado durante o torneio — e encontrado uma semana depois por um cão chamado Pickles. Melhor do que isto, só mesmo as duas pernas viradas para a esquerda de Garrincha.

Nesse mesmo ano, um choque frontal entre a Inglaterra e a Alemanha em termos de vestuário de campo. Ambas surgiam naturalmente de branco, e foi desempatar a situação por moeda ao ar: os ingleses mudavam de equipamento para a camisola encarnada. E levantavam a primeira taça. E o vestuário improvisado tornava-se uma absoluta marca de classe.

A primeira edição de um Mundial da FIFA com transmissão a cores teve o México de 1970 como palco, e de repente abria-se uma porta para alguns dos até hoje mais reconhecíveis uniformes, a começar pelo amarelo ouro envergado pelo lendário Brasil dessa era. Em Portugal, as primeiras transmissões a cores começaram apenas em 1976, durante as eleições presidenciais. Em setembro de 1979 são transmitidos os Jogos sem Fronteiras, também a cores, por imposição europeia. Seria preciso esperar até março de 1980 para começarem as emissões regulares a cores em Portugal, com o Festival da Canção RTP. Dois anos depois, os adeptos nacionais veriam o primeiro Mundial neste formato, um Espanha 1982 ao sabor do Naranjito.

Os anos 70 também trouxeram a primeira influência comercial, e o prenúncio de um mercado à espreita da explosão total. Adidas e Puma competiam agressivamente por contratos de equipamentos, trazendo novos tecidos sintéticos e a afirmação mais ou menos subtil da marca, tendência que se agigantaria na década seguinte. A edição de 1974 é um autêntico manual neste sentido. O Zaire perdia os três jogos do torneio, mas fazia-o com preocupações de elegância que perduram até hoje. As camisolas adornadas com a palavra “LEOPARDS” faziam-se acompanhar por uma foto de um leopardo a dar trabalho a uma bola de futebol. Ah, e isto conjugado com calções amarelos vistosos. O equipamento terá sido dos primeiros a apresentar o logotipo dos fabricantes, neste caso da Adidas.

Ainda nesse ano em que a final foi disputada em Munique, a Alemanha Ocidental ergueu a taça com um equipamento branco que se tornou um modelo pelo design limpo e moderno. Já os Países Baixos (quando ainda os tratávamos simplesmente por Holanda) fizeram do colour block laranja uma filosofia nacional e um símbolo global — um guarda-roupa para a posteridade, mas não sem polémica. A federação holandesa tinha um acordo com Adidas para fornecer equipamentos, mas Johann Cruyff, que tinha um acordo com Puma, recusou-se a usar risca tripla na sua camisola, a menos que fosse pago por isso. Perante a rejeição da Adidas, Cruyff  entrou em campo com apenas duas riscas nas mangas.

No Mundial de 1982, os tecidos mistos, de fibras sintéticas e naturais, haviam substituído inteiramente as antigas matérias-primas. É nessa década que surge o poliéster, primeiro mesclado com o algodão, mais tarde usado de forma integral, mas quente e desconfortável pela retenção de suor. Contudo, os equipamentos eram mais leves, apertados e coloridos. Com o mundo corporativo atento, a anfitriã Espanha imprimiu sofisticação ao V-neck e caprichou nas riscas amarelas nos calções. Para os belgas, a Admiral assinava uma criação não menos emblemática, com direito a logotipo e faixas estridentes, um dos looks mais memoráveis usados pelos Red Devils.

O Mundial de 1986 no México é sinónimo de uma das maiores performances individuais da história do torneio, das icónicas riscas azuis e brancas da Argentina, que se tornaram um dos projetos mais reproduzidos na história do futebol, permanecendo uma réplica até hoje predileta; mas também do pináculo atingido em termos de encurtamento de calções. O feito é amplamente atribuído aos uniformes usados por seleções nacionais como Uruguai, Inglaterra ou Escócia (com uma risca) a meio, um estilo ultra-curtinho que refletia as tendências de moda cultural mais amplas das décadas de 1970 e 1980.

Quanto a Portugal, a memória de Saltillo traz-nos a indignação contra a exploração comercial, que culminou numa das exibições visuais mais expressivas da história do futebol português. Nos relvados de preparação mexicanos, os jogadores decidiram entrar em campo com as camisolas de treino (e alguns até as calças) viradas do avesso. O objetivo era óbvio: esconder deliberadamente as marcas que estavam nos equipamentos, numa rejeição de dar publicidade às marcas que financiavam a Federação, sem que os futebolistas vissem qualquer contrapartida justa pelo uso da sua própria imagem.

Nos primeiros anos de trajetória na seleção, Portugal apresentava-se com equipamentos fabricados de forma amadora. Dois anos depois, passou para a fabricante Marlec (1964-1976), que assinava também os equipamentos dos principais clubes. Seguiram-se Adidas (1978) e Carné (1979), regressando ao vínculo com a Adidas entre 1980 e 1994. Segundo o Football Kit Archive, um vasto compêndio para fãs do género, a seleção une forças com a Olympic em 1995 e 1996. Já a relação com a Nike vai de 1997 a 2024 e inclui a chegada à final no Europeu de 2004 e o triunfo máximo da seleção, em França, no Euro 2016. O modelo com design diagonal e prevalência do verde escuro, estensível aos calções, é considerado um dos mais bem sucedidos pelo The New York Times. Desde 2025, prevalece a ligação à Puma. Para este 2026, só falta ver que coelho Cristiano Ronaldo tira da cartola. Ou dos calções.

No Mundial de 2022, uma imagem do capitão da seleção tornou-se viral após as câmaras apanharem o madeirense a mexer nos calções para retirar algo durante a partida de abertura de Portugal contra Gana. No rescaldo do encontro, a Federação Portuguesa de Futebol esclareceu que era simplesmente uma peça de mascar, um suplemento energético necessário para o jogo.

No grande guarda-roupa que é a história do Mundial, seria possível reservar uma gaveta só para os equipamentos, e ainda dentro dela um separador especial só para a sua parte inferior. Na semifinal de 1938 entre a Itália e o Brasil, a lenda de Giuseppe Meazza avoluma-se à medida que os seus calções ameaçam cair até aos tornozelos. No momento em que vai marcar um penalty crucial, o material que os mantém presos à cintura parte-se. A solução é segurá-los com uma mão, tirar partido do fator distração do gurda-redes na sua cara, e converter o lance em golo, ajudando a Itália a chegar à final. O termo wardrobe malfunction ainda esperaria várias décadas até sair do armário.

Há episódios mais recentes que merecem registo. Em 2018, depois de perder por 2-0 frente ao Brasil, o defesa sérvio Antonio Rukavina tirou os calções encarnados e ofereceu-os a um adepto. Já nesta edição, o balanço de um Egito-Nova Zelândia da fase de grupos passa por Mo Salah a tirar partido de um problema nos calções do adversário para garantir o golo contra os All Whites. Uns dias antes, a Inglaterra viu voar 18 mil dólares de equipamento roubado de uma carrinha que deveria seguir para Kansas City. Dois homens, Mustafa Salik e Erfan Kamal, foram acusados do desvio. Entre os items subtraídos estavam quatro calções azuis escuros. É possível que façam furor nas ruas, onde é convocada cada vez mais a tendência Blokecore.

A estética em voga mistura designs retro de 1990s do futebol, a começar pelo britânico, com a cultura do streetwear diário. Cunhado no final de 2021, o termo é um cruzamento de “bloke” ( gíria britânica para “gajo”) com “core” para descrever um olhar sem esforço, muito pub-to-pitch conduzido por camisas vintage, baggy bottoms, e ténis clássicos, muitos deles com direito a revisão atual. Basta pensar em colaborações dos últimos anos como a Wales Bonner x Adidas e outras interseções populares. Em franco apogeu do mercado da revenda, e nostalgia vintage, o essencial é resgatar do baú da família, ou procurar avidamente online, algumas pérolas de outras eras. Depois, é questão de procurar as melhores inspirações no feminino e masculino para estruturar um look com conta, peso e medida. As camisolas das seleções ajustam-se a criativas estratégias de styling, e os calções seguem o mesmo caminho.