Um homem sueco de 61 anos foi condenado a quatro anos e cinco meses de prisão por ter explorado sexualmente a sua mulher. De acordo com a sentença do Tribunal de Ångermanland, divulgada esta terça-feira e citada pela imprensa local, o arguido incitou e manipulou a mulher para ter relações sexuais (mediante pagamento) com mais de 250 homens desde 2023.
Tomas Runsten foi condenado por lenocínio agravado, tentativa de violação, dois crimes de agressão, seis crimes de ameaças e uma infração relacionada com substâncias dopantes. O tribunal determinou ainda o pagamento de uma indemnização de 200 mil coroas suecas (cerca de 18,3 mil euros) à vítima e a entrega de 310 mil coroas (cerca de 28,4 mil euros) correspondentes aos lucros obtidos de forma ilícita.
No mesmo processo, outros 28 arguidos foram considerados culpados por compra de serviços sexuais. No total, o caso abrangeu 29 condenações por factos ligados à prostituição da mulher de Runsten. Dois dos clientes receberam penas efetivas de prisão, um foi condenado a liberdade vigiada e os restantes foram punidos com multas.
Durante a investigação, inciada em outubro do ano passado após a vítima denunciar o caso, as autoridades suecas encontraram 11 câmaras de vigilância instaladas na casa do casal e cerca de 19.600 vídeos de cariz sexual. As mensagens recuperadas do arguido constituíram uma das principais provas dos crimes: mostraram instruções enviadas à mulher sobre o nome dos clientes, os horários dos encontros e os valores a cobrar.
O tribunal considerou provado que o homem exercia um sistema de controlo sobre a vítima através de violência física, dependência emocional e consumo de álcool e drogas. “O homem influenciou e coagiu a sua mulher a praticar atos sexuais, a transmiti-los online, a receber mais clientes para serviços sexuais e a tentar persuadir vizinhos e clientes a ter relações sexuais com ela”, afirmou o juiz Johan Ahlberg num comunicado citado pela Associated Press. “Em muitos casos, isto foi também feito através de insistências prolongadas e do uso de linguagem desagradável e condescendente”, sublinhou ainda.
Apesar disso, o juiz entendeu que não existiam provas suficientes para condenar Runsten por violação nos casos analisados. A decisão reconhece que o arguido ultrapassou limites estabelecidos pela mulher e que a influenciou e coagiu a participar nos atos sexuais, mas conclui que não ficou demonstrada, em cada episódio, a ausência de consentimento exigida para esse crime.
A defesa alegou que as mensagens trocadas entre o casal faziam parte de um jogo sexual baseado na fantasia de um “homem humilhado”. O tribunal rejeitou essa explicação, considerando que os contactos incluíam elementos demasiado concretos, como nomes de clientes, datas, preços, moradas e instruções operacionais, para serem interpretados como mera encenação.
Em 1999, a Suécia implementou a Sexköpslagen, uma lei pioneira que criminaliza exclusivamente a compra de serviços sexuais (o cliente) e o lenocínio, enquanto descriminaliza totalmente a venda (a pessoa em situação de prostituição). Conhecida internacionalmente como o Modelo Nórdico, esta abordagem assenta na premissa da igualdade de género, tratando a prostituição como uma forma de exploração e violência onde o vendedor é a parte vulnerável a proteger. Em 2025, o Governo sueco alargou a lei para incluir também atos sexuais praticados à distância, nomeadamente através da internet, quando o pagamento é condição para a realização do ato.
O caso tem sido comparado ao de Dominique Pelicot, embora existam diferenças relevantes entre os dois processos. No caso francês, Pelicot foi condenado a 20 anos de prisão por drogar a mulher, Gisèle, e permitir que dezenas de homens a violassem enquanto estava inconsciente. Na Suécia, o tribunal validou a ocorrência de coação e exploração de cariz sexual, mas absolveu o réu das violações particulares referidas na acusação por falta de prova.
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“A Suécia tem agora o seu próprio caso Pelicot. Um homem vendeu a sua mulher a mais de 100 homens. Trata-se de um caso terrível que demonstra o que a violência dos homens contra as mulheres, a compra de serviços sexuais e a exploração realmente significam”, afirmou a ministra da Igualdade de Género sueca, Nina Larsson.