O ex-primeiro-ministro espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, assegurou estar totalmente inocente e prometeu “absoluta transparência” após ter sido ouvido durante três horas pelo juiz da Audiencia Nacional, José Luis Calama. Indiciado por tráfico de influências, branqueamento de capitais, fraude fiscal e contrabando, o antigo governante do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) quebrou um silêncio de quase um mês para garantir que não possui quaisquer bens fora de Espanha.
“Primeiramente, quero agradecer a todos pela paciência, e também ao público. Permaneci em silêncio por 29 dias, preparando-me para este momento e para os que virão. Mantive-me calado por respeito ao sistema judiciário e a Sua Excelência, que foi o primeiro a ouvir-me. Podem ter a certeza de que darei as explicações necessárias nos próximos dias. Sou acusado de crimes gravíssimos que não cometi. Sempre me comportei com decência e honestidade, e agora tenho a tarefa de prová-lo. Farei isso com absoluta transparência e total confiança”, começa por referir em comunicado citado pela imprensa espanhola.
O ex-chefe do Executivo revelou ter entregue ao tribunal uma “autorização universal voluntária” para demonstrar que não tem contas, empresas ou produtos financeiros ocultos. “Não tenho absolutamente nada fora de Espanha”, vincou, admitindo o sofrimento pessoal com o caso: “Quando se sabe que se é completamente inocente, como é o meu caso, e se tem plena fé no sistema judicial, o mais doloroso é saber que muitas pessoas podem sentir-se traídas se acreditarem no que se diz a meu respeito. A minha mensagem dirige-se também a todos os meus concidadãos: peço a vossa confiança. Não vos desiludirei. Pode demorar mais ou menos tempo a provar a verdade, mas ela prevalecerá e reconquistarei a confiança daqueles que agora duvidam. Verão”.
Durante a sessão, o juiz da Audiencia Nacional questionou repetidamente Zapatero sobre uma alegada empresa que este teria criado no Dubai. Segundo fontes judiciais avançaram à imprensa espanhola, o ex-primeiro-ministro negou categoricamente a existência da firma, rejeitando a tese da acusação de que esta teria sido utilizada para receber comissões ilícitas do resgate financeiro da companhia aérea Plus Ultra.
Zapatero, de 65 anos, foi ouvido esta quarta-feira por um juiz de instrução, num caso em que está indiciado por tráfico de influências e branqueamento de capitais e numa audiência que ficou, à partida, concluída.
As associações Vox, Hazte Oír e Iustitia Europa, que constituem a ‘acusação popular’ (algumas delas ligadas à extrema-direita) pediram à Procuradoria Pública que solicite a prisão preventiva do ex-primeiro-ministro Zapatero, bem como a apreensão do passaporte. Mas no final da declaração, Zapatero saiu da Audiencia Nacional de Espanha e entrou num carro privado, sem ter ficado retido pelo juiz.
José Luis Rodríguez Zapatero chegou à Audiencia Nacional dez minutos antes da hora agendada para a sua audição. Por razões de segurança, escreve o ABC, Zapatero entrou no edifício através do acesso principal, optando por não prestar declarações aos jornalistas. À chegada, o antigo governante foi alvo de insultos e gritos por parte de várias pessoas que o esperavam na rua.
https://twitter.com/el_pais/status/2067141270825308250
À espera do ex-governante estava ainda uma orquestra a tocar a canção Bella Ciao.
https://twitter.com/TheObjective_es/status/2067145454756729048
De acordo com o mesmo jornal, Zapatero está a avaliar o pedido de suspensão temporária da sua filiação partidária no PSOE, caso o juiz decrete medidas cautelares após o seu depoimento na Audiencia Nacional.
Ao ABC, fontes próximas de Zapatero garantem que o objetivo é poupar o atual primeiro-ministro, Pedro Sánchez, a uma decisão “difícil”, permitindo-lhe enfrentar o Congresso e a Comissão Federal livre desse desgaste político.
O depoimento surge após o juiz José Luis Calama ter intimado o antigo chefe do Executivo como arguido num processo que começou por suspeitas de corrupção. A investigação foi, entretanto, alargada aos crimes de fraude fiscal e contrabando, relacionados com um lote de joias — avaliado em 1,3 milhões de euros — que as autoridades apreenderam no interior do cofre do seu gabinete de trabalho. Zapatero terá agora de justificar formalmente a posse destes bens.
https://observador.pt/especiais/uma-empresa-venezuelana-uma-consultora-espanhola-e-um-ex-chefe-de-governo-no-topo-da-piramide-6-respostas-sobre-a-investigacao-a-zapatero/
A audição judicial de Zapatero arranca em simultâneo com o início da sessão de controlo ao Governo no Parlamento espanhol. Devido à sobreposição de horários, a situação jurídica do ex-presidente deverá dominar o debate e tornar-se o principal foco de desgaste para o Governo de Sánchez durante a sessão de perguntas dos deputados, segundo a imprensa espanhola.
Primeiro-ministro de Espanha entre abril de 2004 e dezembro de 2011, Zapatero foi um dos grandes apoiantes de Sánchez nas últimas eleições espanholas, em julho de 2023, e chegou a ser classificado pela imprensa como o “grande ativo eleitoral” atual do PSOE.
De acordo com o sumário do processo judicial, a que a agência Lusa teve acesso, Zapatero é suspeito de liderar “uma estrutura estável e hierarquizada de tráfico de influências” para obter “benefícios económicos” através de “intermediação e o exercício de influências em instâncias públicas em favor de terceiros, principalmente, a empresa Plus Ultra”.