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(A) :: Empresas, empresas e empresas

Empresas, empresas e empresas

Olhando de longe, parece-me que o ministro da Economia não está suficientemente focado nas empresas. Entendo perfeitamente que se preocupe com os fundos europeus e com o PRR. Mas o PRR é passageiro.

João Marques de Almeida
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Passeando com os olhos pelos canais da televisão portuguesa, no fim de um dia de trabalho, quando ouvi o CEO do grupo José de Mello, Salvador Mello, afirmar o seguinte: “Há uma desconfiança sobre as grandes empresas, quando são as que pagam maiores salários e têm maior capacidade para inovar.” Sou um defensor convicto da economia de mercado, da liberdade económica e do papel das empresas. Eis uma boa razão para escrever um artigo sobre um tema central para a economia nacional: as empresas.

Na Europa e em Portugal, as empresas são o pilar fundamental da economia, da liberdade e da justiça social. Devemos às empresas a maior parte da nossa riqueza, mais liberdade e autonomia individuais, empregos de maior qualidade, mais inovação e, em grande medida, a justiça social; sem as contribuições fiscais das empresas não haveria educação nem saúde públicas (basta fazer as contas, em vez de ter apenas opiniões).

Como a informação deve preceder sempre a opinião, ajuda muito olhar para alguns números.

Na União Europeia, o sector empresarial (excluindo o sector financeiro e grande parte dos serviços), contribui para metade do PIB. Os sectores industriais acrescentam cerca de 3200 biliões de euros à economia europeia por ano.

Em Portugal, os sectores secundários (industrial) e terciários (serviços, incluindo os financeiros) contribuem com cerca de 90% do PIB português. Ou seja, o sector privado e as empresas produzem riqueza. O Estado gasta essa riqueza, e muitas vezes mal.

Se hoje a União Europeia é uma potência comercial, o único domínio externo onde ainda é uma potência mundial, é graças às suas empresas. Nos sectores industriais, as grandes empresas contribuem com cerca de 80% das exportações totais para mercados fora da Europa. Nos serviços, as grandes empresas contam para cerca de 53% do total das exportações.

A integração de Portugal na União Europeia também contribuiu para a internacionalização da economia portuguesa. Hoje, as exportações (de empresas portuguesas) e as importações (de empresas estrangeiras) constituem cerca de 90% do PIB português. Em 1974, era cerca de 50%. Se o modelo das esquerdas radicais tivesse triunfado em 1975, seria bem menos de 50%.

As empresas portuguesas são também as grandes impulsionadoras do investimento externo em Portugal, através de acionistas estrangeiros, quer as cotadas como as privadas. Neste momento, o investimento estrangeiro total em Portugal é cerca de 70% do PIB. A deslocação de capital estrangeiro para Portugal contribui para o crescimento económico, aumenta a produtividade e reforça a integração de Portugal na economia global. São as empresas nacionais que atraem investimento externo.

As empresas, sobretudo as maiores, também aumentam o emprego de qualidade. Na União Europeia, as maiores empresas (mais de 250 empregados) são responsáveis por mais de 35% dos postos de trabalho, os quais são em regra os melhores empregos na Europa. Em Portugal, passa-se o mesmo. Numa economia aberta, as empresas portuguesas são forçadas a competir por talento profissional e a oferecer boas condições para ganhar essa competição internacional. Há investimento nas qualificações dos seus trabalhadores e os salários são mais elevados. Se compararmos os salários das melhores empresas portuguesas com as suas concorrentes europeias, nota-se que as diferenças salariais são bem mais reduzidas do que a média nacional. O governo, as autarquias, os partidos políticos deviam fazer tudo o que fosse possível para ajudar a criar mais empresas, a fazer crescer as existentes, e não criar todo o tipo de obstáculos regulatórios e burocráticos.

Finalmente, as empresas também ajudam a estimular a inovação científica e tecnológica. Na União Europeia, o sector empresarial contribui com cerca de 65% do investimento total em inovação; ou seja, bem mais do que o investimento público.

Em Portugal, as empresas poderiam investir mais em inovação, sobretudo naquela que cria patentes. Também há um fosso entre as grandes empresas e as restantes, com as primeiras a investirem quase 80% da inovação empresarial no nosso país. As grandes empresas também poderiam investir mais em venture capital. Deveriam ter mesmo os seus fundos de venture capital para investir, quer internamente como em start ups externas.

Além de inovação nas suas áreas industriais, as grandes empresas portuguesas também investem na transição energética, sobretudo em energias renováveis (aproveitando as condições climáticas excelentes em Portugal), e nas tecnologias de reciclagem, fundamentais para o crescimento económico.

Em conclusão, as empresas contribuem para o crescimento económico, para as exportações, para o investimento externo, para a inovação científica, para a qualidade de empregos, e para a internacionalização da economia portuguesa. Ou seja, têm um papel absolutamente extraordinário na economia nacional. Sendo assim, por que razão há tantos ataques às empresas portuguesas entre os partidos políticos? Parte da explicação vem de uma cultura anti-capitalista e anti-liberdades económicas que é uma herança da revolução. Mas as extremas-esquerdas nunca mudarão. No PS, aceita-se o papel das empresas no crescimento económico, mas lida-se mal com a liberdade económica e empresarial. Tradicionalmente, os socialistas gostam que seja o Estado a dirigir as actividades empresariais. Seria muito bom se o PR defendesse a liberdade e a autonomia das empresas, olhando para o Estado como um regulador e não como um estratega empresarial. As empresas dispensam estratégias definidas pelo Estado.

Mas é da direita, tradicionalmente a favor das empresas, e sobretudo do governo que se deve esperar políticas públicas favoráveis às empresas. O apoio às empresas não é uma questão de fundos. É muito mais importante criar um ambiente político, regulatório e burocrático favorável às empresas. As boas empresas sabem ter sucesso na economia de mercado. Foram construídas e organizadas para isso.

Em particular, devo partilhar aqui uma preocupação. Olhando de fora e de longe, parece-me que o ministro da Economia não está suficientemente focado nas empresas. Entendo perfeitamente que se preocupe com os fundos europeus e com o PRR. Mas o PRR é passageiro, as empresas são permanentes. Não há uma economia robusta sem boas empresas. A principal função do ministro da Economia é contribuir para uma economia robusta. Idealmente, o ministro da Economia ocuparia 50% do seu tempo com os fundos europeus, e os outros 50% com as empresas e os respectivos sectores. Deveria ainda defender o sector empresarial dos ataques vindos das burocracias de outros ministérios. A economia nacional e os trabalhadores portugueses merecem.