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(A) :: Pode ignorar-se o sinal da pertença ?

Pode ignorar-se o sinal da pertença ?

O actual Presidente nunca desistirá de atender, proteger, privilegiar os seus - mesmo que aqui e ali os atice ou desespere, nunca esquecerá porém o seu mandamento primeiro: ser amado por todos.

Maria João Avillez
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1 Tem-se falado muito (e mal) de bandeiras numa confusão tão fértil de maus argumentos que chega a ser confrangedor: que entendimento tem do Estado português e das suas instituições e que habilitações políticas, jurídicas, históricas possui por exemplo, quem no “caso das bandeiras” aconselhou o Presidente da República? Não sabemos mas continuamos a tomar boa nota das modestíssimas argumentações políticas que aterram de Belém. O Presidente Seguro quer amar, acolher, agradar a “todos os portugueses” e (indispensavelmente) ser também por eles muito amado. Para o Chefe de Estado, cada português que vier à rede é um “peixe-voto”, há que beneficiar uns dias a uns; noutros dias aos outros, enquanto ele se diz inamovível, com lugar cativo no “centro”. Ficticiamente cativo, claro, mas enquanto cada ficção vai e vem, Seguro espera ser amado por “todos, todos, todos”, amealhando amor por esse país fora. Não é animador sob nenhum ponto de vista e falta ainda tanto tempo… (mas um dia tudo isto se tornará ainda mais claro).

2 “Há políticos que querem ser amados e eu tenho pena deles”. A frase — lucidez política e fina subtileza — foi dita há dias por Miguel Albuquerque ao Eco e cito-a porque é capaz de vir a propósito. O Presidente do Governo Regional da Madeira, político até ao osso, não tem como primeiro mandamento o ser amado por “todos”, pelo contrário: a política não resistiria e ele sabe. Claro que nem a situação nem as circunstâncias de um Presidente de Governo são comparáveis com um Presidente da República: o primeiro precisa de separar águas para escolher e decidir, o segundo precisa de as juntar para mobilizar o país e semear a boa ambição: um caminha com as regras da alternância de valores, escolhas e decisões que alimentam o valor, a vida e o ritmo das democracias; o outro tem forçosamente de atender ao valor intrínseco da alternância, mas obviamente colocando-se mais longe e numa janela mais alta. Sim, mesmo se pertencendo politicamente — e de nascença — a um desses solos políticos. Não tem sido o caso, há o iniludível sinal distintivo da pertença ideológica: já se deu por isso. Observando-se como pode ser tão impressivo esse poder sobre António José Seguro. Afinal um cidadão que fez toda a sua vida política naquele território socialista, defendendo aquelas cores, jogando aquele jogo partidário, percorrendo as mesmas moradas políticas e com muitas daquelas mesmíssimas pessoas. Ele é “dali” como eu sou do Benfica.

3 E se uns naturalmente já antecipavam tão previsível cenário presencial, outros deixaram-se misteriosamente convencer “que não” (para dizer o mínimo); e finalmente outros optaram por uma ilusão que quase se confundia com uma demissão. Mistérios da condição humana.

4 Marcelo não ficará na História como talvez tivesse podido ficar porque escolheu sempre apenas o peixe que vinha à rede do seu lado esquerdo, ignorando imperialmente o outro lado. Foi apenas fiel quando “serviu” com viva discordância ou veto os vários andamentos dos costumes ou de matérias fracturantes. Lembro-me aliás muito bem do então primeiro-ministro António Costa, imperturbável, me ter dito numa ocasião, logo nos inícios do primeiro mandato de Marcelo Rebelo de Sousa, que “cada dia era um dia”. E era, ele sabia: saiu por cima em cada um desses dias onde quase, quase tudo, foi a seu favor: dele, António Costa, do seu governo e do seu partido. Nenhuma “selfie” conseguiu disfarçar uma opção presidencial que durou quase dez anos.

5 Muito distintamente, o actual Presidente nunca desistirá de atender, proteger, privilegiar os seus — mesmo que aqui e ali os atice ou desespere, nunca esquecerá porém o seu mandamento primeiro: ser amado por “todos”. Amado com essa volúpia de agradar a todos e apelando ao seu aplauso. Não julgo que será. Mas o que tem de ser tem muita força e Seguro quer ser reeleito.

6 Não sei se daqui a cinco anos daremos razão a Miguel Albuquerque que “tem pena dos políticos que querem muito ser amados”. Seja como for, e apesar dos capítulos muito maçadores e da sua inquietante frequência, a história do novo inquilino de Belém é de seguir absolutamente: é que se todos os nossos Presidentes da República eram obviamente diferentes uns dos outros, este é muito mais “diferente”.