Temperaturas de 40 a quase 45ºC podem parecer verdadeiramente assustadoras quando aparecem nos modelos de previsões para a próxima semana. E são. Mas os especialistas estão ainda mais preocupados e atentos a outros números: os do calor que vai fazer durante a noite, noites que serão tropicais e, em alguns locais, até tórridas, ou seja, com mais de 20ºC a 25ºC.
Portugal prepara-se para enfrentar a segunda onda de calor significativa de 2026. Depois do episódio excecional registado em maio, que levou os termómetros perto dos 40 graus em várias regiões do país, uma nova massa de ar muito quente vinda do Norte de África e uma gota fria a oeste da Península Ibérica ajudarão a arrastar e a aquecer ainda mais metade da Europa. Essa massa de ar muito quente ficará praticamente parada sobre Portugal, Espanha, França e parte do Reino Unido, devido a um bloqueio nos países nórdicos, elevando novamente as temperaturas. As previsões apontam para máximas que podem chegar a quase 45ºC em várias zonas do interior português, em Espanha e em França.
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“Sempre que temos temperaturas muito elevadas e períodos de onda de calor sabemos que isso impacta muito na nossa saúde”, alerta Miguel Telo de Arriaga, diretor dos Serviços de Prevenção da Doença e Promoção da Saúde da Direção-Geral da Saúde. “Pode haver aumento da mortalidade, mas também da procura de cuidados de saúde”, acrescenta o responsável, explicando que há uma coordenação já estabelecida entre a DGS, o Governo, o Ministério da Saúde e o SNS.
Mas se o calor extremo preocupa os médicos e autoridades de saúde, as temperaturas mínimas elevadas ainda os deixam menos descansados. “As tais noites tropicais são muito importantes porque não permitem arrefecimento”, explica Miguel Telo de Arriaga.

Enquanto uma noite tropical corresponde a uma temperatura mínima igual ou superior a 20 graus, numa noite tórrida os termómetros não descem abaixo dos 25 graus. Pode parecer ótimo para uma noite de esplanada ou um passeio marítimo, se for apenas uma vez sem exceção. Pode parecer apenas um detalhe meteorológico passageiro. Mas para os especialistas em saúde pública é muito mais do que isso, sobretudo se o fenómeno se estender no tempo, como vai ser o caso.
A situação não deverá, aliás, limitar-se a Portugal. Os modelos meteorológicos apontam para noites muito quentes em grande parte da Península Ibérica, especialmente na Andaluzia, Extremadura e sul de Espanha, bem como em zonas do sul de França. Até partes da Inglaterra poderão registar temperaturas noturnas excecionalmente elevadas para a época.
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O fenómeno resulta da combinação entre uma massa de ar quente africana, o reforço do anticiclone dos Açores, a forte insolação típica dos dias mais longos do ano e o calor acumulado nos solos após semanas consecutivas de temperaturas acima da média. Há ainda outro fator importante. Estamos muito próximos do solstício de verão, quando os dias atingem a sua maior duração. As noites são mais curtas e os solos já aquecidos têm menos tempo para libertar o calor acumulado durante o dia.
O que é o stress térmico?
Quando faz muito calor, o organismo entra num esforço permanente para manter a temperatura corporal dentro de limites seguros. A transpiração aumenta. Os vasos sanguíneos dilatam-se. O coração trabalha mais para transportar calor para a pele, onde pode ser dissipado. Quando estes mecanismos deixam de ser suficientes, surge aquilo que os médicos designam por stress térmico.
O stress térmico não é uma doença. É uma condição fisiológica em que o organismo tem dificuldade em libertar o excesso de calor acumulado. As consequências podem incluir desidratação, fadiga, tonturas, dores de cabeça, perda de concentração, agravamento de doenças cardiovasculares e respiratórias, exaustão pelo calor e, nos casos mais graves, golpe de calor.
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É precisamente essa dificuldade em dissipar calor que se agrava quando as noites permanecem quentes. “Muitas vezes temos alguma compensação noturna porque as temperaturas diminuem e permitem refrescar. Permitem até às pessoas dormir e ter algum conforto. Quando isso não acontece, afeta a saúde mental, a perceção de bem-estar, mas também a dimensão fisiológica”, explica Miguel Telo de Arriaga.

É durante a noite que o organismo deveria recuperar do esforço realizado durante o dia. É durante a noite que a temperatura corporal deveria descer. É durante a noite que o coração deveria desacelerar. Mas quando os termómetros continuam acima dos 20 ou 25 graus, essa recuperação torna-se muito mais difícil.
Porque são as noites quentes tão perigosas?
As consequências vão muito além do desconforto. Vários estudos internacionais mostram que temperaturas noturnas elevadas reduzem a qualidade do sono, diminuem o sono profundo e o sono REM, aumentam a frequência cardíaca e comprometem a recuperação física e mental. Dorme-se pior, recupera-se menos e o organismo começa o dia seguinte já cansado e sob pressão. É um efeito cumulativo.
Uma noite quente pode não ter consequências graves. Cinco ou seis noites consecutivas seguramente já terão. É por isso que os especialistas olham cada vez mais para as temperaturas mínimas e não apenas para as máximas.
A própria Direção-Geral da Saúde identifica a subida das temperaturas mínimas como um dos fatores com maior impacto potencial na saúde das populações, devido ao aumento da desidratação e da descompensação de doenças crónicas.
Segundo o serviço europeu Copernicus, 2024 registou o segundo maior número de noites tropicais desde que há registos na Europa. Em várias regiões do Mediterrâneo ocorreram dezenas de noites tropicais adicionais face à média histórica. Em algumas zonas da Grécia registaram-se mais 55 noites tropicais do que o habitual. Em partes de Itália houve mais 50. As alterações climáticas estão a tornar estas noites cada vez mais frequentes.
Também a BBC Weather tem vindo a destacar o aumento das noites tropicais no Reino Unido, um fenómeno historicamente raro que começa agora a tornar-se cada vez mais normal.
Nem todas as regiões enfrentam, contudo, o mesmo risco. “O risco no Sul do país é diferente do risco a Norte. O risco no interior é diferente do risco no litoral”, lembra Miguel Telo de Arriaga. É precisamente por isso que os planos de resposta das autoridades de saúde são adaptados às características de cada região.
As mortes por calor
O calor raramente mata de forma direta e é isso que o torna tão traiçoeiro. “Muitas vezes aquilo que acontece não é haver um problema de saúde direto por parte do calor”, diz Miguel Telo de Arriaga, acrescentando: “O calor funciona quase como um gatilho para exacerbar algumas doenças de base que as pessoas já têm. Acaba por promover a descompensação dessas doenças.”
É por isso que os médicos falam frequentemente em “mortes silenciosas”. O calor não surge normalmente como causa principal da morte. Mas pode desencadear enfartes, AVC, insuficiência cardíaca, agravamento de doenças respiratórias ou falência renal.
Os idosos são particularmente vulneráveis porque apresentam menor capacidade fisiológica para regular a temperatura corporal. Estão também em risco grávidas, bebés, crianças, pessoas com doenças crónicas, trabalhadores expostos ao exterior e pessoas socialmente isoladas.
O que aconteceu no verão passado?
A preocupação não é teórica. Entre 27 de julho e 15 de agosto do ano passado registaram-se em Portugal 1.331 mortes acima do esperado. O excesso de mortalidade ocorreu em todas as regiões do país e afetou sobretudo pessoas com mais de 75 anos.
O episódio coincidiu com um longo período de temperaturas elevadas. Foi precisamente durante essa onda de calor que vários países europeus reforçaram medidas de proteção da população.
Em Espanha, várias comunidades autónomas reforçaram recomendações e medidas destinadas a trabalhadores expostos ao exterior, sobretudo nos setores da agricultura, construção civil e limpeza urbana. Foram recomendadas alterações de horários, pausas adicionais, acesso permanente a água, adaptação das tarefas às horas menos quentes do dia e monitorização reforçada do risco de stress térmico.
A preocupação era simples: reduzir a exposição prolongada ao calor num país onde as ondas de calor são cada vez mais frequentes, mais intensas e mais duradouras. Como a que se aproxima.
O que recomenda a DGS?
A principal recomendação continua a ser simples: hidratação. “Hidratar, manter-nos frescos, hidratados e informados são as três ações que preconizamos como sendo as mais importantes”, resume Miguel Telo de Arriaga.
Mas nem todas as bebidas hidratam da mesma forma. Questionado sobre se uma cerveja ou um refrigerante podem substituir a água durante uma onda de calor, o responsável da DGS é taxativo. “Não. Estamos a falar de água. A água é a melhor bebida que nós podemos ter para hidratar.” E explica porquê. “As bebidas alcoólicas e as bebidas açucaradas podem promover é a desidratação. Muitas vezes levam-nos mais vezes à casa de banho e acabam por contribuir para a perda de líquidos.”

Por isso, a recomendação mantém-se simples: beber água regularmente ao longo do dia, mesmo antes de surgir a sensação de sede. Um litro e meio por regra. Mais para quem trabalha ao calor ou em sítios mais quentes.
A DGS aconselha ainda:
- beber pelo menos 1,5 litros de água por dia;
- evitar bebidas alcoólicas;
- evitar bebidas muito açucaradas;
- evitar exposição solar entre as 11h e as 17h;
- usar roupa leve e clara;
- utilizar chapéu e óculos de sol;
- evitar esforços físicos intensos nas horas mais quentes;
- procurar sombra;
- manter as habitações frescas;
- fechar estores, persianas e cortinas durante o dia;
- ventilar a casa durante a manhã e à noite;
- acompanhar idosos, crianças e pessoas com doença crónica;
- seguir os avisos das autoridades de saúde e proteção civil.
Uma chamada pode salvar vidas
Os especialistas alertam que muitas pessoas idosas perdem parcialmente a sensação de sede com o envelhecimento, aumentando o risco de desidratação. Por isso, a vigilância familiar pode fazer a diferença. “Temos que recordar os nossos avós, os nossos pais, os nossos filhos da importância de estarem hidratados”, sublinha Miguel Telo de Arriaga.
Nem todos os portugueses dispõem de ar condicionado ou conseguem manter as casas frescas durante episódios prolongados de calor. Nestes casos, a DGS recomenda procurar espaços públicos climatizados durante algumas horas por dia. “É importante que as pessoas consigam refrescar durante duas a três horas por dia”, diz Miguel Telo de Arriaga.
Esses espaços podem ser centros comerciais, bibliotecas, juntas de freguesia, centros comunitários ou outros edifícios com temperatura controlada. Segundo os especialistas, duas ou três horas num ambiente fresco podem reduzir significativamente o impacto do calor acumulado no organismo.
Durante décadas, as ondas de calor eram medidas sobretudo pelas temperaturas máximas. Hoje, os especialistas olham cada vez mais para as mínimas. Porque é durante a noite que o corpo recupera. Porque é durante a noite que a temperatura corporal desce. Porque é durante a noite que o coração desacelera. E porque é durante a noite que o organismo se prepara para enfrentar o dia seguinte. Quando as noites deixam de arrefecer, o calor deixa de ser apenas desconfortável. Passa a tornar-se um risco invisível para a saúde pública.