(c) 2023 am|dev

(A) :: A nota de suicídio escondida, os guardas que dormiam e as câmaras mortas na prisão. Como foram os últimos 35 dias de vida de Jeffrey Epstein

A nota de suicídio escondida, os guardas que dormiam e as câmaras mortas na prisão. Como foram os últimos 35 dias de vida de Jeffrey Epstein

Investigação reconstrói, com milhões de documentos, últimos dias de Epstein: da detenção no aeroporto até ao corpo encontrado na cela. Falhas humanas e técnicas deram-lhe oportunidade de se enforcar.

Manuel Nobre Monteiro
text

Para o mundo, Jeffrey Epstein era o milionário que cultivava relações com algumas das figuras mais influentes da política, dos negócios e da sociedade internacional. Para o sistema prisional federal de Nova Iorque, era apenas o recluso número 76318-054. A detenção no Aeroporto de Teterboro, em Nova Jersey, em julho de 2019, marcou o início de uma queda repentina que, em pouco mais de um mês, o levou do círculo da elite global para uma cela em Lower Manhattan, onde morreu aos 66 anos enquanto aguardava julgamento por suspeitas de tráfico sexual de menores.

Uma investigação do New York Times, baseada em mais de três milhões de páginas de documentos, fotografias e vídeos, reconstrói agora os últimos 35 dias de vida do “perturbado, triste” milionário. Os ficheiros revelam que a morte de Epstein resultou de uma combinação de falhas institucionais, erros humanos e uma clara intenção suicida, embora continuem a existir dúvidas e especulações sobre a existência de uma conspiração para matar o empresário norte-americano.

A turbulenta aterragem de Epstein nos EUA: do aeroporto para a prisão

A queda de Epstein começou a desenhar-se de forma definitiva no final da tarde de 6 de julho de 2019, numa pista do Aeroporto Teterboro, em Nova Jersey. Cerca de 12 agentes da polícia federal de investigação norte-americana (FBI) e da polícia de Nova Iorque aguardavam, estrategicamente posicionados, pela chegada de um jato privado proveniente de Paris para executar um mandado de detenção. Enquanto o avião fazia a descida final, Epstein ainda geria o seu império: planeava uma ida à sua ilha privada nas Caraíbas e agendava uma entrevista com Stephen K. Bannon, o antigo conselheiro de Donald Trump. No momento em que as rodas do avião tocaram na pista, a bolha de imunidade que protegeu o milionário durante décadas rebentou.

Os agentes do FBI entraram no jato privado, verificaram passaportes e detiveram Jeffrey Epstein, que foi escoltado até ao terminal do aeroporto. Aí, o empresário enviou uma última mensagem a Bannon: “Tudo cancelado“. “Não vai fazer a entrevista?”, respondeu o conselheiro de Trump, que não teve qualquer resposta.

Durante a viagem de carro para Manhattan, Epstein, embora soubesse exatamente a razão pela qual a justiça estava atrás dele, questionou as autoridades sobre se o caso era sobre “tráfico sexual” ou sobre “menores”. A investigação, aberta sob sigilo oito meses antes, focava-se nas vítimas de Nova Iorque que tinham ficado de fora do seu caso anterior na Flórida. Se fosse condenado, Epstein enfrentava até 45 anos de prisão, uma perspetiva que o levou a dizer ao entrar na custódia federal: “Oh, isto é mau. Isto é mesmo muito mau”.

https://observador.pt/especiais/jeffrey-epstein-o-monstro-que-precisou-de-amigos-famosos-e-de-muito-dinheiro/

Pouco depois das 21h00 do dia 6 de julho, o norte-americano deu entrada no Centro Correcional Metropolitano de Nova Iorque (MCC New York), um complexo em Lower Manhattan conhecido pelas condições deploráveis e disfunção institucional. O homem que vivia rodeado de luxo era agora o recluso número 76318-054. Uma funcionária, Elba Torres, notou logo que o milionário parecia “perturbado, triste e um pouco confuso”, recomendando que a equipa de psicologia falasse com ele para prevenir pensamentos suicidas.

O MCC de Nova Iorque fica no centro de Manhattan, entre as zonas de luxo. Trata-se de um prédio que, à primeira vista, pode até passar despercebido entre a Igreja de St. Andrew’s ou a ponte de Brooklyn, mas chegou a acolher cerca de quatro mil visitas por dia. Só as câmaras de vigilância e as vedações de aço que o rodeiam, bem como as interdições ao trânsito, dão indícios de que este não é um prédio qualquer. É um dos centros de detenção de máxima segurança dos Estados Unidos. Os reclusos de alto perfil, como “El Chapo” Guzmán ou Bernie Madoff, foram enviados para a unidade de segurança máxima do edifício, onde o isolamento é total e a vigilância por vídeo funciona 24 horas por dia. No entanto, não houve indicação de que essa unidade tenha sido considerada para acolher Epstein.

O New York Times nota que devido a uma falha inicial, o empresário foi colocado na unidade 5 North, uma zona particularmente dura da prisão. Ali, Epstein foi imediatamente alvo de extorsão por um recluso conhecido como “Loco Tron”, que tentou assustá-lo para obter dinheiro. Outro recluso recordou que o homem parecia estar em “estado de choque”.

No dia seguinte, 7 de julho, o diretor da prisão ordenou a transferência de Epstein para a Unidade de Habitação Especial (SHU). Aqui, os detidos ficavam fechados 23 horas por dia e eram colocados lado a lado com os reclusos mais violentos. Foi assim que o empresário acabou numa cela com Nicholas Tartaglione, um antigo polícia acusado de quatro homicídios. Ao saber do passado de Tartaglione, Epstein, visivelmente nervoso, esmurrou a porta e chamou, aos gritos, pelos guardas.

Na manhã seguinte, a psicóloga Elissa Miller colocou Epstein sob observação devido aos “múltiplos fatores de risco para suicídio”, mas rapidamente o devolveu à cela, convencida pelo seu discurso otimista de que “estar vivo é divertido“. Miller descreve Epstein como alguém de bom humor, que falou com otimismo sobre as possibilidades de ser libertado sob fiança antes do julgamento, descartando a ideia de que representava qualquer ameaça para si próprio.

O primeiro alerta na prisão: “Como se faz uma forca?”

O declínio psicológico de Jeffrey Epstein atingiu um ponto sem volta no dia 18 de julho. Até então, o milionário acusado de tráfico sexual mantinha a esperança de que a sua fortuna e influência lhe garantissem a liberdade. No entanto, após os procuradores federais argumentarem que o risco de fuga era “extraordinariamente elevado”, um juiz federal negou-lhe a fiança.

Ao regressar à cela, partilhada com Tartaglione, Epstein terá desistido de lutar pela liberdade e fez uma pergunta ao seu colega: “Como é que se faz uma forca?”

Nos dias seguintes, Tartaglione relatou ter impedido, por duas vezes, Epstein de se suicidar. Numa delas, encontrou o empresário a tentar atar um lençol à grade da janela da cela. Noutra, descobriu uma corda improvisada escondida debaixo do colchão. Apesar da gravidade dos relatos, Tartaglione afirmou, segundo os documentos consultados pelo New York Times, que os guardas do MCC desvalorizaram os avisos, chegando a rir-se das suas preocupações. Estes incidentes, cruciais para entender o percurso de Epstein, nunca chegaram a constar dos registos oficiais da prisão.

A madrugada de 10 de agosto foi marcada por uma sucessão de falhas humanas e técnicas. Os documentos a que o New York Times teve acesso revelam uma prisão federal disfuncional que, na noite em que deveria estar sob vigilância máxima, simplesmente "parou".

Na madrugada de 23 de julho, cerca das 1h27, os guardas prisionais ouviram um estrondo vindo da cela de Epstein. Ao chegarem ao local, encontraram o recluso imóvel no chão, com um laço de tecido laranja à volta do pescoço. Tartaglione, que alegou ter cortado a corda e iniciado manobras de reanimação, descreveu o momento como uma tentativa real de enforcamento.

Contudo, a reação de Epstein após recuperar a consciência alimentou o ceticismo das autoridades. Os relatórios da altura indicam que se comportou de forma estranha: fechava os olhos sempre que alguém tentava contacto visual e, numa cela de observação, deixava-se cair da cama apenas para se endireitar assim que pensava que não estava a ser vigiado. Para a tenente Glenda Anderson-Layne, tratava-se de uma “performance”. O próprio norte-americano deu versões contraditórias. Primeiro acusou Tartaglione de o tentar matar. Mais tarde, disse não se lembrar de nada e, depois, afirmou a um advogado que tudo não passou de uma “brincadeira” realizada pelo colega de cela.

Este episódio levou a psicóloga do MCC, Elissa Miller, a adotar uma postura de desconfiança. Miller acreditava que Epstein, habituado a manipular ambientes de poder, estava agora a tentar “jogar com o sistema” prisional para forçar uma transferência para prisão domiciliária, uma vez que “se reunia com os seus advogados todos os dias”. Como resultado, o risco de suicídio de Epstein foi classificado como apenas “moderado” e o seu estatuto foi rapidamente mudado de “vigilância de suicídio” para uma “observação psicológica”.

No abismo: a quase certa nota de suicídio de Jeffrey Epstein

O maior erro de julgamento das autoridades pode ter derivado da ausência de uma prova que esteve oculta durante anos: uma carta de suicídio. De acordo com a investigação do jornal nova-iorquino, a nota foi encontrada por Tartaglione e estava escondida entre as páginas de uma novela gráfica que Epstein estava a ler na cela.

No bilhete escrito num pedaço de papel pautado pode ler-se: “Investigaram-me durante meses — NÃO ENCONTRARAM NADA!!!”. “É um privilégio poder escolher o momento certo para dizer adeus. O que queres que eu faça — a chorar a soluçar!!”, lê-se ainda. “NÃO TEM GRAÇA”, conclui a nota, com essas palavras sublinhadas. “NÃO VALE A PENA!!

https://observador.pt/2026/05/07/tribunal-divulga-suposta-nota-de-suicidio-de-jeffrey-epstein/

O diário norte-americano não confirmou a autenticidade do bilhete, mas notou que há uma expressão que se repete no texto — “bust out cryin” (“desatar a chorar”) — que Epstein também usava em e-mails previamente divulgados. Também outra expressão — “No fun” (“Não tem graça”) — era usada por Epstein em mensagens privadas com amigos e familiares, um detalhe que um impostor ou o próprio Tartaglione dificilmente conheceriam.

A razão pela qual esta prova nunca chegou aos investigadores na altura prende-se com a estratégia legal de Tartaglione. O seu advogado, Bruce Barket, decidiu manter a nota sob sigilo para proteger o seu cliente, que enfrentava a pena de morte e queria usar o documento para provar que Epstein tentara o suicídio e que ele, Tartaglione, tinha sido o “herói” ao salvá-lo. “O nosso trabalho é proteger o nosso cliente, não ajudar a prisão a fazer o seu trabalho”, justificou Barket.

Se os psicólogos da prisão tivessem tido acesso a este manuscrito, que terminava com a frase “o melhor para todos”, o perfil de risco de Epstein teria sido reavaliado.

A noite fatal de 10 de agosto: erros dos guardas e câmaras mortas

Nos dias seguintes, Epstein esteve numa unidade de observação. William Mersey, um recluso que o observou durante esta fase, recordou-o como alguém que “parecia vencido” a processar a ideia de que iria passar o resto da vida na prisão. O empresário estava horas na sala de visitas com uma grande lista de advogados, que serviam mais como companhia do que como estrategistas. Nesses encontros, mostrava-se obcecado em encontrar informações comprometedoras sobre Donald Trump para oferecer aos procuradores em troca de redução de pena, mas os seus apontamentos revelavam pouco mais do que insultos genéricos.

https://observador.pt/2026/01/31/tres-milhoes-departamento-de-justica-dos-eua-divulga-maior-leva-de-ficheiros-epstein-com-alegacoes-contra-trump-bill-gates-e-elon-musk/

No dia 30 de julho, Epstein regressou à SHU, desta vez com um novo companheiro de cela: Efrain Reyes, que descreveu Epstein como alguém que estava constantemente a fazer exigências aos guardas e que vivia num estado de desespero profundo. “Eu sei que nunca mais vou ver a rua“, terá dito Epstein a Reyes, acrescentando que a prisão não era forma de viver.

O erro das autoridades começou a desenhar-se a 9 de agosto, um dia antes de Epstein morrer. Reyes foi transferido de cela, deixando Epstein sozinho no cubículo número 220. Apesar de ordens expressas para que o milionário nunca estivesse sem companhia devido ao risco de suicídio, nenhum novo recluso foi mudado para a cela 220. Nessa noite, Epstein fez o seu último telefonema: disse que queria falar com a mãe, morta há 15 anos, mas ligou para a namorada, Karyna Shuliak, dizendo-lhe para ser forte e que a amava.

A madrugada de 10 de agosto foi marcada por uma sucessão de falhas humanas e técnicas, nota o New York Times, que teve acesso aos documentos que revelam uma prisão federal disfuncional que, na noite em que deveria estar sob vigilância máxima, simplesmente “parou”.

Tova Noel, com pouco mais de um ano de serviço e sem treino específico para a Unidade de Habitação Especial (SHU), estava a cumprir um turno duplo de 16 horas. Ao seu lado estava Michael Thomas, um veterano de 12 anos que foi convocado para a vigilância devido à falta de guardas. Thomas estava no seu terceiro turno consecutivo. O peso da responsabilidade sobre Jeffrey Epstein era conhecido, mas tratado com ironia. No computador do posto dos guardas, um sinal alertava: “RONDAS OBRIGATÓRIAS DEVEM SER FEITAS A CADA 30 MINUTOS EM EPSTEIN N.º 76318-054 COMO ORDENADO POR DEUS!!!!”. Na prática, a realidade foi oposta.

O último contacto confirmado com Epstein ocorreu pouco depois das 22h00 de 9 de agosto, quando Noel fez a ronda e o empresário lhe pediu para ligar a sua máquina de CPAP (utilizada para a apneia do sono). A investigação encontrou aqui o seu primeiro grande obstáculo: o sistema de vigilância. Uma falha de hardware ocorrida uma semana antes significava que quase metade das câmaras da SHU não estava a gravar, embora transmitissem imagens em tempo real. Entre as poucas imagens recuperadas, às 22h40, a câmara captou um vulto laranja indistinto a subir as escadas em direção ao corredor de Epstein. Embora tenha alimentado teorias sobre um assassino, o inspetor-geral concluiu ser “muito provável” que fosse a guarda Noel a transportar lençóis ou uniformes de recluso, uma vez que ela tinha as chaves da unidade.

Enquanto os dois guardas estavam no posto, Chad Brown, um recluso da cela vizinha de Epstein, relatou ter ouvido algo perturbador naquela noite: o som de lençóis a serem rasgados. Reconhecendo o potencial significado do ruído, Brown tentou intervir de forma indireta, perguntando a Epstein se ele tinha selos postais que pudesse usar. “Eu não pedi selos nenhuns”, respondeu o empresário, com uma calma que Brown recordou como “invulgar”. O som de tecido a rasgar continuou por mais dez minutos antes de ficar tudo em silêncio. Foi o último sinal de vida de Jeffrey Epstein.

Entre a 1h00 e as 2h44 da manhã, as câmaras de vigilância que ainda funcionavam mostraram Noel e Thomas sentados à secretária, imóveis. Os investigadores federais concluíram que os guardas estavam a dormir. Noel tentou mais tarde acordar Thomas por volta das 3h00, mas este não reagiu. Às 3h14, Noel abandonou o posto durante três minutos para ajudar numa contagem noutra ala da prisão, deixando a unidade de Epstein sem qualquer vigilância ativa.

https://observador.pt/2019/08/11/apesar-de-ter-apresentado-tendencias-suicidas-epstein-nao-estava-sob-vigia-quando-se-enforcou/

Durante todo este período, as rondas de 30 minutos que deveriam ter sido realizadas nunca aconteceram. No entanto, para efeitos de registo oficial, os guardas falsificaram os documentos, assinando formulários que confirmavam inspeções que nunca realizaram. A negligência só foi interrompida às 6h30 da manhã, quando Michael Thomas iniciou a distribuição do pequeno-almoço. Ao chegar à cela 220, encontrou Epstein imóvel, pendurado no beliche por um laço de tecido laranja. O corpo estava a poucos centímetros do chão.

Thomas cortou o laço laranja e iniciou compressões torácicas, gritando desesperadamente: “Respira, Epstein, respira!”. Momentos depois, a admissão da culpa foi verbalizada pelo próprio guarda à sua colega Noel: “Vamos ter tantos problemas“. Mais tarde, perante um tenente da prisão, Thomas seria ainda mais explícito: “Nós lixámo-nos”.

O debate forense: suicídio ou conspiração?

Jeffrey Epstein morreu na cela no dia 10 de agosto de 2019. Apresentou-se, desde então, o suicídio como causa de morte, mas sempre foram surgindo questões quanto à forma como teria conseguido suicidar-se. Após a sua morte, abriu-se uma nova frente de batalha no campo da medicina forense, onde a interpretação de lesões físicas se tornou o centro de uma das maiores controvérsias do sistema prisional norte-americano.

Epstein foi declarado morto às 7h36 de 10 de agosto, no Hospital New York-Presbyterian Lower Manhattan, após ter sido transportado de urgência do MCC. No dia seguinte, Kristin Roman, uma examinadora médica da cidade de Nova Iorque, realizou a autópsia cujas conclusões seriam, cinco dias depois, inequívocas: Epstein morreu por enforcamento suicida.

Esta declaração oficial foi contestada por Michael Baden, um patologista de 91 anos contratado por Mark Epstein, o irmão do financeiro. Baden, que já tinha liderado o gabinete de examinadores médicos de Nova Iorque nos anos 70 e participado em investigações de casos célebres como os de John Belushi ou George Floyd, assistiu à autópsia e concluiu que as evidências apontavam para homicídio por estrangulamento, e não para suicídio, devido a três fraturas no pescoço.

Segundo o patologista, este padrão de lesões no pescoço é muito comum em casos de estrangulamento homicida e, na sua experiência, quase nunca visto em suicídios. Esta tese alimentou rapidamente as teorias de conspiração que já circulavam nas redes sociais, sugerindo que Epstein teria sido silenciado por alguém com interesse em proteger os segredos da elite global.

https://observador.pt/2019/08/12/as-reacoes-a-morte-de-epstein-a-furia-das-vitimas-as-teorias-da-conspiracao-e-o-ponto-de-situacao-da-investigacao/

Contudo, a investigação do New York Times consultou nove patologistas e médicos que ofereceram uma perspetiva diferente, sublinhando que a “ciência forense não é uma ciência exata”, mas sim interpretativa. Estes especialistas notaram que, embora as fraturas tenham sido vistas como indicadores claros de homicídio, o conhecimento médico atual confirma que elas podem, de facto, ocorrer em enforcamentos suicidas. Judy Melinek, uma patologista forense citada na investigação, explicou que lesões idênticas podem resultar tanto de um crime como de um ato voluntário, sendo o contexto da cena da morte muitas vezes mais decisivo do que as lesões em si.

O grande obstáculo à verdade absoluta foi a “gestão desastrosa” da cena do crime por parte do MCC, assinala o jornal nova-iorquino. Quando os agentes do FBI chegaram à cela 220, sete horas após a descoberta do corpo, encontraram um local que tinha sido totalmente mexido pelos guardas e paramédicos. A desorganização foi tal que os investigadores nem sequer tentaram recolher amostras de ADN, algo que é uma rotina em cenas de crime.

Mais grave ainda foi o erro na recolha de provas físicas. Fotografias da cela reveladas posteriormente mostram que os investigadores registaram o laço errado. O objeto como prova não correspondia em ângulo ou largura à marca deixada no pescoço de Epstein. O laço que provavelmente suportou o peso do corpo (uma tira de tecido mais longa, estreitamente torcida e rasgada num ponto) foi encontrado num canto da cela no meio do caos e acabou por ser deitado para o lixo antes que alguém reconhecesse a sua importância.

A conclusão das autoridades sobre o processo criminal por negligência e falsificação de documentos dos dois guardas foi de que, dada a rapidez com que um enforcamento pode ser executado, a negligência, embora grave, dificilmente teria impedido o suicídio de Epstein.

Os dois guardas que estavam em serviço na SHU na noite da morte de Epstein, Tova Noel e Michael Thomas, acabaram por enfrentar um processo criminal por negligência e falsificação de documentos, depois de os investigadores confirmarem que tinham assinado formulários que garantiam a realização de rondas que, na verdade, nunca aconteceram. Noel e Thomas mantiveram o silêncio durante dois anos, aceitando cooperar apenas em 2021 em troca da suspensão do processo criminal. Apesar de uma investigação exaustiva, os procuradores federais acabaram por retirar todas as acusações. A conclusão final das autoridades foi de que, dada a rapidez com que um enforcamento pode ser executado, a negligência dos guardas, embora grave, dificilmente teria impedido o suicídio mesmo que as rondas de 30 minutos tivessem sido cumpridas com rigor.

Como resumiu o então diretor do Bureau of Prisons, Hugh Hurwitz, “haveria demasiadas pessoas envolvidas” para que um crime desta natureza continuasse oculto. Em última análise, as fotografias da autópsia e os registos médicos oferecem mais possibilidades do que conclusões definitivas. Especialistas como Melinek sugerem um cenário plausível de suicídio: Epstein, partindo de uma posição sentada ou ajoelhada no beliche inferior, poderia ter inclinado o corpo para a frente, usando o seu próprio peso para cortar o fluxo sanguíneo, perdendo a consciência em segundos.

Embora não se possa provar com certeza absoluta que foi isto que aconteceu, os factos apurados indicam que a morte foi o resultado de um conjunto de falhas institucionais e negligência humana, que deu a um homem desesperado a oportunidade de realizar um desejo que já tinha tentado fazer anteriormente.