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(A) :: Zeros à esquerda fulos com zeros à direita do Elon

Zeros à esquerda fulos com zeros à direita do Elon

Se Musk fosse decente, vendia tudo e dividia a fortuna pelo mundo. Causaria o colapso económico global, sim, mas não seriam 150€ a impedir uma criança em África de ir ao próximo concerto do Bad Bunny.

Tiago Dores
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É hoje que Portugal se estreia no Mundial: que emoção! Uma pessoa até se esquece que a Procissão do Corpo de Deus alterou o seu percurso para evitar o Martim Moniz e não correr o risco de maçar os fãs do multiculturalismo; que o Presidente da República vetou o decreto sobre a colocação de bandeiras ideológicas em edifícios públicos denotando total desconhecimento do que é um Estado, o que não é assim tão relevante num Chefe de Estado; que André Ventura apareceu de D. Afonso Henriques no Dia de Portugal causando polémica com o lema “Deus, Pátria e Família”, quando o lema mais indicado para estes tempos de imigração desgovernada e inexistente natalidade seria “Adeus, Pátria e Família”.

Na verdade, agora que chegou o dia do primeiro jogo da selecção portuguesa até já me tinha esquecido que o mundial estava a decorrer. Que neste torneio com um critério de entrada mais lasso que o de um bar na rua principal de Albufeira há mais joguinhos do que na política portuguesa. Que dizer, por exemplo, do excitante Haiti-Escócia? Talvez o mesmo que há a dizer da peregrinação dos políticos portugueses para irem ver jogos do mundial, directa ou indirectamente às custas do erário público. Deprimente.

Mas atenção, nisto de aceitarem borlas da Federação Portuguesa de Futebol para ver a selecção no mundial, não vamos pôr todos os partidos no mesmo saco. Nomeadamente, o Bloco de Esquerda, que não enviará qualquer ponta de lança ao mundial 2026. Também porque foi o único partido a não ser convidado pela FPF, é certo. Mas mesmo que tivesse sido convidado, o BE não enviava ninguém aos EUA. Para já, porque isto é malta que considera que a única forma legítima de entrar na América é saltando a fronteira. E depois porque, muito provavelmente, não lhes foi dirigido qualquer convite uma vez que embarques em flotilhas financiadas por terroristas do Hamas não devem ser compatíveis com desembarques em terras do Tio Sam.

O que é compatível com as terras do Tio Sam é isto: após a entrada em bolsa da Space X, alguém como Elon Musk tornar-se o primeiro trilionário do mundo. Quantos zeros são isto? Digamos que são quase tantos zeros como os que há anualmente na prova específica de Matemática de acesso à faculdade. E digamos também que o que não tem faltado por aí são inúmeros zeros à esquerda danados com os zeros à direita que o Elon acumulou.

Mas se conseguissem ser justos, até os zeros à esquerda reconheceriam o trabalhão que deu ao Musk acumular esta fortuna. Não foi nada fácil. O homem só aqui chegou após décadas e décadas a percorrer África, América Central, América do Sul e toda a Ásia, a tirar o pãozinho da boca de crianças famélicas e a vender as carcaças ao melhor preço nos comércios locais. Tudo para amealhar este 1.000.000.000.000 de dólares, mais centena de milhar de milhão, menos centena de milhar de milhão.

Agora, os zeros à esquerda até têm um ponto. Se o Elon Musk fosse um tipo realmente decente, vendia tudo o que tem e distribuía a fortuna pelo mundo. Provavelmente provocava um colapso económico global, claro, mas, por outro lado, não seriam 150€ a impedir uma criança, sei lá, na República Dominicana, de ir ao próximo concerto do Bad Bunny.

E não mencionei o clássico “Ele devia era acabar com a fome no mundo!”, porque isso, infelizmente, não é viável. Não tanto por culpa do Musk, mas mais pelo real desinteresse demonstrado pela própria ONU de Guterres. Basta recordar que, há cinco anos, o diretor do Programa Alimentar Mundial afirmou que 6 mil milhões de dólares vindos de bilionários como Musk poderiam ajudar a resolver a crise de fome global. Ao que Elon Musk respondeu propondo vender parte das ações da Tesla para doar exatamente esse valor, com uma única condição: que as Nações Unidas explicassem, de forma transparente, como é que esse montante acabaria com a fome no mundo e como os fundos seriam usados. A resposta da ONU foi um sonoro “cri, cri… cri, cri… cri, cri”, seguido de um diplomático “… Bom, vamos almoçar! Às quatro voltamos para aprovar umas resoluções a acusar Israel de genocídio e está feito o dia.” E está feito o dia.