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(A) :: Os reaccionários chocam contra a realidade

Os reaccionários chocam contra a realidade

A globalização e o comércio livre são, sem uma única excepção que valha a pena, o melhor motor de crescimento que a humanidade conhece, e o proteccionismo a forma mais fiável de o desligar.

Jorge Fernandes
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Um espectro assola o Ocidente – o espectro do reaccionarismo. Em todo o Ocidente, uma bela parte dos reaccionários estão convencidos de que assistem ao funeral de uma época. Segundo estes reaccionários, que têm, naturalmente, os seus apóstolos e beatos em Portugal, o liberalismo morreu, a globalização foi uma ilusão, o livre comércio um erro que a história agora corrige, e a única resposta séria à ascensão da China passa por fechar mercados, erguer tarifas e repatriar os empregos que, juram-nos, hão-de redimir os perdedores da globalização. Tudo isto anunciado com a placidez de quem deslindou as leis da história. Ora, essa pose já a conhecemos, ainda que invertida: há trinta anos, foi o liberalismo triunfante a proclamar, com idêntica certeza beatífica, que a democracia de mercado era o derradeiro estádio da história. Errou redondamente. Os reaccionários de hoje que lhe celebram as exéquias herdam-lhe o pecado intacto: tomar a conjuntura por lei natural e fundar a economia inteira sobre a presunção de ter lido o futuro.

O ano de 2016 foi a charneira desta visão do mundo. O Brexit primeiro, a eleição de Trump meses depois, deram alento a uma direita que prometia o ressurgimento da nação: não o Estado administrativo, mas a comunidade de destino, o corpo político soldado por referências comuns, feito de uma língua, de uma história, de uma tradição religiosa partilhada, de uma memória que precede e transcende o indivíduo. A essa pátria reencontrada opunha-se o inimigo de sempre, o “cidadão de lado nenhum”: o cosmopolita que atravessa fronteiras sem as sentir, que fala línguas que não a sua e que tem a impertinência de julgar que o soft power americano foi, no cômputo geral, uma bênção para o mundo.

Os acontecimentos de 2016 prometiam devolver ao Ocidente a sua pujança económica, política e moral. Tornar o Ocidente grande outra vez. Para a semana cumprem-se dez anos sobre o referendo do Brexit, e dez anos não são um acaso. São tempo bastante para que a tendência de fundo se sobreponha aos acidentes do percurso: passou uma pandemia, uma guerra na Europa, um choque inflacionista, meia dúzia de primeiros-ministros, e o sinal mantém-se. É o prazo ao fim do qual uma decisão destas deixa de ter desculpas e passa a ter resultados. A pergunta já não é especulativa: está hoje o Reino Unido melhor do que estava há dez anos?

O estudo mais sério já produzido sobre a questão, assinado por Bloom, Bunn, Mizen, Smietanka e Thwaites e publicado pelo NBER em 2025, mede a Grã-Bretanha contra mais de trinta economias comparáveis e contra a contabilidade de milhares de empresas britânicas. O veredicto dispensa retórica: “estimamos que, em 2025, o Brexit havia reduzido o PIB do Reino Unido entre 6% e 8%”. O investimento caiu entre 12% e 18%, o emprego entre 3% e 4%, a produtividade outro tanto. Não é o prognóstico apreensivo de um economista em 2016, que era, então, chamado de “projecto do medo”. É a fatura de uma década, fechada ao cêntimo.

A imigração leva a ironia de tudo isto ao extremo. O Brexit prometeu cortá-la, convicto de que a chegada de europeus comprimia os salários nacionais. No entanto, a imigração líquida atingiu máximos históricos e limitou-se a substituir europeus por não europeus. A troca não foi inócua. Saíram trabalhadores comunitários, em larga medida circulares, que vinham, trabalhavam e regressavam; entraram fluxos mais distantes e mais permanentes, vindos de fora da Europa. O país que votou para fechar as portas acabou com mais imigração do que nunca, e de proveniências culturalmente mais afastadas daquela “comunidade de destino” que dizia querer preservar.

Há uma ironia mais funda, porém. O Brexit só fazia sentido como aposta sobre um certo estado do mundo. A Grã-Bretanha abandonava o bloco europeu para retomar a sua vocação antiga, a “Global Britain”, a velha potência mercantil de regresso aos mares abertos do comércio livre. Mas essa aposta repousava sobre uma condição que ninguém em Westminster se deu ao trabalho de enunciar: a de que alguém continuaria a manter a globalização de pé. Esse alguém só podia ser os Estados Unidos. O cálculo, no fundo, era elementar. Sair da ordem regional para prosperar na ordem global, na confiança de que o seu fiador permaneceria no posto. Sucede que o mesmo abalo político que desprendeu o Reino Unido da Europa chegou a Washington nesse mesmo ano e, uma década volvida, dedicou-se a desmantelar com tarifas exactamente aquilo de que o Reino Unido passara a depender. A Grã-Bretanha apostou na abertura do mundo no preciso momento em que o garante dessa abertura decidia fechá-la. Não há “Global Britain” concebível num planeta onde todos se barricam ao mesmo tempo. A aposta perdeu-se não apenas pelo que o Brexit era em si, mas porque o tabuleiro em que fazia sentido se desfez, desmantelado pelos próprios que nele jogavam.

É justo conceder o que há a conceder. Nem toda a profecia sombria se cumpriu, a abertura comercial resistiu mais do que se temia e a City não se esvaziou. Reconhecê-lo, contudo, não restitui a razão a quem prometeu fartura. De resto, os problemas económicos nunca estiveram em Londres, uma metrópole pujante e cosmpolita que até votou contra o Brexit. O desenlace não foi a ruína súbita que uns anunciaram nem a emancipação próspera que outros venderam, mas algo mais insidioso: um empobrecimento lento e silencioso, decidido nas urnas e cobrado a prestações ao longo de dez anos.

E é aqui que a solução dos reaccionários se desfaz nas próprias mãos. Os dados não admitem ambiguidade, nem nunca admitiram: a globalização e o comércio livre são, sem uma única excepção que valha a pena, o melhor motor de crescimento que a humanidade conhece, e o proteccionismo a forma mais fiável de o desligar. Ter de explicar isto em 2026, a um país que o ensinou ao mundo em 1846, quando revogou as Corn Laws e fez do livre-câmbio doutrina de Estado, é de um fastídio que beira o insulto à inteligência. Mas que se explique, já que insistem em desaprender o que souberam primeiro: a muralha não protege ninguém, empobrece toda a gente, e o reerguer da nação por via do recuo é promessa que nenhuma economia alguma vez cumpriu. A conta da bebedeira colectiva dos reaccionários chegará. Ao Reino Unido já chegou.