Não tinham passado três meses desde que a República Democrática do Congo (RDC) tinha declarado a independência, quando um homem informalmente identificado na CIA como “o Joe de Paris” aterrou na capital de Leopoldville. Na mala, trazia um kit que incluía um poderoso veneno. O objetivo era colocá-lo na comida ou na pasta de dentes do primeiro-ministro congolês: Patrice Lumumba, o primeiro líder de Governo eleito livremente na História do país, que se destacava por um discurso nacionalista e anticolonialista.
O plano acabou por não ser posto em marcha – e ainda hoje subsistem dúvidas sobre se terá sido ou não ordenado diretamente pelo Presidente Dwight D. Eisenhower. Mas Lumumba seria assassinado à mesma poucos meses mais tarde, de forma violenta, na sequência do golpe de Estado que levou ao poder Mobutu Sese Seko.
Mas o que tem um líder africano morto nos anos 60 a ver com este Mundial de futebol? Para Michel Nkuka Mboladinga, tudo. O adepto congolês tornou-se viral na última Taça das Nações Africanas (CAN na sigla original) por assistir aos jogos nos estádios de pé, em cima de um pedestal, com a mão levantada – a mesma posição de uma famosa estátua de Lumumba em Kinshasa. Agora, com a RDC de regresso a um Mundial ao fim de mais de 50 anos de ausência, Mboladinga – também conhecido como “Lumumba Vea”, que significa literalmente “Lumumba vive” – estará nas bancadas.
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“Escolhi Patrice Lumumba porque ele é um modelo de coragem e de liberdade”, explicou o congolês aos jornalistas ainda durante a CAN. “Para mim, o futebol é mais do que desporto, é memória. Lumumba deu a sua vida pela nossa dignidade. Se eu posso dar 90 minutos dos meus músculos para o honrar, é um pequeno preço.”
O homem que se tornou viral e que recusou dois mil euros por jogo
Ao longo do torneio africano, que terminou em janeiro deste ano, Lumumba Vea tornou-se um favorito das câmaras de televisão. Para começar, dava nas vistas pelos seus fatos coloridos, escolhidos a dedo para se parecerem com a bandeira da República Democrática do Congo. Depois, porque era impossível não reparar num homem que passa 90 minutos de pé, completamente imóvel e com a mão levantada.
“Fico imóvel porque acredito que dá à equipa resistência emocional”, disse agora Nkuka Mboladinga ao Wall Street Journal. O congolês — que, de acordo com o L’Equipe, faz isto à porta do estádio do seu clube, o AS Vita, desde 2013 — garante que treina 40 a 50 minutos antes de cada partida para conseguir aguentar o esforço físico.
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O fenómeno passou da RD Congo para o resto do mundo, elevando Lumumba Vea a uma figura adorada no seu país. “É um símbolo daquilo que amamos”, disse um adepto congolês, Chris Mantanta, ao The Athletic. “Ele está num pedestal e ele ser globalmente reconhecido faz-nos perceber que somos especiais. As pessoas agora conhecem o Congo.”
Quando os Leopardos foram eliminados na Taça das Nações Africanas num jogo contra a Argélia, Mboladinga colapsou no final da partida, desfeito em lágrimas, sendo amparado pelos adeptos do seu país que estavam no local. Antes disso, tinha sido gozado em campo pelo avançado argelino Mohamed Amoura: quando este marcou o golo da vitória, virou-se para as bancadas e imitou a posição de Lumumba Vea, para depois se deitar no chão de forma desafiadora. Ao perceber o simbolismo da performance de Mboladinga, o jogador acabou por pedir desculpa e a seleção argelina deu ao congolês uma camisola da Argélia com o nome “Lumumba” nas costas.
Segundo o jornal nigeriano Vanguard, quando a RDC foi eliminada da competição, Mboladinga recebeu propostas para continuar a aparecer nas bancadas nos jogos de outras equipas – alegadamente, ter-lhe-ão oferecido dois mil euros por jogo. Mas o congolês “escolheu a lealdade ao lucro”, escreve o jornal, “cimentando a sua reputação de patriota genuíno em vez de um artista à procura da fama”.
Patrice Lumumba, “herói para uns” e “um Castro ou pior” para outros, foi assassinado em 1961
Nkuka Mboladinga fala repetidamente da sua admiração por Patrice Lumumba. Numa entrevista à Associated Press durante a CAN, o adepto descreveu-o como o político que deu “liberdade de expressão” aos congoleses: “Ele sacrificou a vida por nós, para nos dar liberdade. É um herói para nós, um espírito, um modelo.”

Lumumba ganhou particular destaque no dia da independência da RD Congo, assinalado a 30 de junho de 1960, quando discursou enquanto primeiro-ministro perante vários dignitários, incluindo o Rei Balduíno, da Bélgica. Em frente ao representante do país que colonizou a RDC, Lumumba fez um discurso que o tornaria um ícone pan-africanista: “Sabemos bem as ironias, os insultos, os golpes que tivemos de suportar de manhã, ao meio-dia e à noite, por sermos negros”, afirmou. “Esta independência do Congo, mesmo sendo proclamada hoje em acordo com a Bélgica, qualquer congolês digno desse nome nunca esquecerá que foi conquistada através da luta.”
A independência fora acordada, mas a influência da Bélgica no país não desapareceu. A província de Katanga alimentava desejos separatistas, sustentados por Bruxelas, e Lumumba pediu a intervenção das Nações Unidas para estancar a crise, sem sucesso. Isolado, o primeiro-ministro recorreu ao líder da União Soviética, Nikita Kruschev, que lhe deu apoio militar – uma ação que chamou a atenção dos norte-americanos. Allen Dulles, diretor da CIA, chegou a classificá-lo como “um Castro ou pior”.
No meio da crise, o Presidente Kasa-Vubu decide demitir Lumumba. Duas semanas depois, o coronel Mobutu — com o apoio dos governos belga e norte-americano — leva a cabo um golpe de Estado. Não demoraria até mandar prender o primeiro-ministro.

Em janeiro de 1961, Lumumba é levado para a região separatista de Katanga. Aí, é torturado por militares da região, supervisionados por dois belgas. É depois fuzilado e o seu corpo é colocado numa vala comum. Mas, pouco depois, os assassinos mudam de ideias: desenterram o corpo e decidem cortá-lo em pedaços e depois dissolvê-lo em ácido. A operação foi supervisionada por um comissário da polícia belga, Gerard Soete, que guardou um dos poucos restos mortais de Lumumba que subsistiram: um dente de ouro, que acabaria por ser devolvido à família anos depois.
A Bélgica acabaria por fazer um mea culpa da morte de Lumumba em 2002, na sequência de uma comissão de inquérito que concluiu que “o assassinato não poderia ter sido levado a cabo sem a cumplicidade de responsáveis belgas apoiados pela CIA” e que “a Bélgica tem uma responsabilidade moral pela morte”. O ex-vice-presidente da Comissão Europeia e diplomata belga Étienne Davignon foi formalmente acusado de crimes de guerra pelo seu envolvimento no assassinato de Lumumba, mas morreu há cerca de um mês.
https://observador.pt/2026/05/18/ex-diplomata-belga-alegadamente-envolvido-no-assassinato-de-patrice-lumumba-morre-antes-de-ir-a-julgamento/
A ligação entre o futebol congolês e a política não é nova, como se viu particularmente no Mundial de 1974 – única vez em que o país participou na competição até agora –, quando Mobutu Sese Seko liderava a RD Congo, renomeada à altura Zaire.
O ditador envolveu-se pessoalmente na campanha da seleção de futebol, dando várias prendas aos jogadores depois de estes se qualificarem para o Campeonato do Mundo. “Recebeu-nos na sua casa e deu a cada um de nós um carro e uma casa”, recordou à BBC o defesa Mwepu Ilunga. Mas a lisonja deu lugar à ira quando a equipa foi eliminada, em particular por causa de um jogo humilhante contra a Jugoslávia, que terminou 0-9.

Mais recentemente, o conflito em que o país está mergulhado há anos tem ensombrado os Leopardos. Vários grupos rebeldes como o M23 têm devastado a RDC em lutas pelo controlo dos valiosos recursos minerais que se produzem no país. No meio desse cenário, a seleção congolesa posicionou-se publicamente durante a Taça das Nações Africanas de 2023, com vários jogadores a alertarem para a crise no país. “Toda a gente vê os massacres no leste do Congo, mas toda a gente está calada”, acusou o avançado Cedric Bakambu nas redes sociais.
Em 2022, o Ruanda decidiu apoiar militarmente o M23, o que fez escalar a situação. Formalmente, está em vigor um acordo de paz desde 2025, mas as forças ruandesas mantêm-se no país. Apesar do cobalto, cobre e ouro que a RDC produz, 75% da população vive com menos de dois euros por dia.
Os Leopardos mobilizaram-se para levar Mboladinga aos EUA
É neste contexto que a República Democrática do Congo volta pela primeira vez a um Mundial depois de 1974. E logo a um que tem lugar nos Estados Unidos, país que esteve envolvido na morte de Lumumba e que, como explicou um adepto ao The Athletic, é visto pelos congoleses como tendo “tido um grande papel a desestabilizar o Congo”. “Continua a ser um símbolo do imperialismo”, disse Louis Mukoma.
Michel Nkuka Mboladinga volta a colocar os holofotes nessa relação histórica tensa com o seu gesto de apoio à seleção em memória do antigo primeiro-ministro. E a fama que conquistou começa lentamente a transformar-lhe a vida: este antigo gerente de uma padaria é agora acompanhado sempre em viagens por um judoca que trabalha como seu guarda-costas e o Presidente do país, Félix Tshisekedi, ofereceu-lhe um carro de luxo. “O sucesso veio do nada, não estávamos à espera”, confessou ao L’Equipe Samy Ntumba Shambuyi, um dos seus managers. “Ele costumava ir beber cervejas aos bairros de classe trabalhadora e isso acabou.”
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Com o surto de ébola que grassa na RDC neste momento, os congoleses foram impedidos de entrar nos Estados Unidos, o que significa que os Leopardos terão menos apoio nos estádios. Mas a comunidade imigrante nos EUA já se está a mobilizar. Segundo o embaixador congolês no país, o presidente da Câmara de Atlanta – onde a RD Congo irá jogar contra o Uzbequistão — já perguntou especificamente se Lumumba Vea vai estar nas bancadas.
Os jogadores pediram e o Presidente Tshisekedi autorizou que o adepto fosse incluído na delegação oficial do país, o que lhe permitirá estar presente neste Mundial, ao contrário da maioria dos adeptos. “Eles adoram-no”, resumiu ao Wall Street Journal o presidente da Federação de Futebol congolesa, Véron Mosengo-Omba, sobre a relação dos jogadores com Nkuka Mboladinga, que classificou como “um símbolo nacional de resiliência e orgulho”.

Significa isso que, quando a República Democrática do Congo defrontar Portugal esta quarta-feira, em Houston, o homem-estátua que homenageia Lumumba estará de pé nas bancadas? Na verdade não. Mboladinga juntou-se demasiado tarde à equipa e não conseguiu cumprir o período de isolamento obrigatório imposto pelos EUA, por causa do surto de ébola, a tempo de poder entrar no país para ver o jogo. Será preciso esperar mais dez dias para ver a estrela congolesa das redes sociais em ação neste Mundial.