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"Impedidos de viver o seu amor, como Romeu e Julieta, decidiram agir": jovem de 16 anos matou os avós com a ajuda do namorado em França

Investigadores ficaram impressionados com "completa falta de emoção" dos adolescentes. Após cometerem o crime, roubaram dinheiro e compraram três telemóveis e um urso de peluche.

Margarida Vieira dos Santos
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François e Danielle Lanis, um casal na casa dos 70 anos, foram encontrados mortos na sua casa em Villers-Semeuse, uma localidade francesa junto à fronteira com a Bélgica, no dia 31 de março. O homicídio foi planeado e executado pela neta, de 16 anos, com a ajuda do namorado, de 15, por acreditar que os avós queriam impedir a sua relação. Segundo o procurador do caso, os adolescentes confessaram o crime pouco depois de serem interrogados e prestaram depoimentos coincidentes nos aspetos essenciais, demonstrando “completa falta de emoção”, escreveu o Le Monde.

Três dias antes da execução do crime, o rapaz entrou na casa dos avós e da jovem, que vivia com o casal por ordem do tribunal, e permaneceu escondido debaixo da cama da adolescente até 30 de março, data da morte. Segundo o jornal francês, a adolescente de 16 anos terá esfaqueado a avó no andar superior da casa, com uma faca de cozinha que escondeu debaixo da cama onde o rapaz estava. Provocou seis ferimentos na idosa, incluindo duas facadas no peito que se revelaram fatais, de acordo com o médico-legista. Ao ouvir os gritos, o avô, François, subiu sem perceber o que se estava a passar e acabou por ser esfaqueado cinco vezes pelo namorado da neta, atingido na zona lombar, no braço esquerdo e na coxa direita.

A investigação revelou que os adolescentes terão arrastado os corpos de François e Danielle Lanis para o andar de baixo, onde pontapearam e esfaquearam novamente as vítimas. De seguida, levaram os cadáveres para a cave e cobriram-nos de forma improvisada com vários objetos encontrados no local. Acabaram por voltar para o andar de cima, onde tentaram limpar as manchas de sangue e a faca, deixando-a no lava-loiça da cozinha.

Mais tarde, os jovens revistaram o quarto do casal, onde encontraram uma caixa que continha entre três e quatro mil euros, que terão roubado antes de fugirem. O dinheiro, segundo o Le Monde, foi posteriormente gasto num centro comercial, onde compraram três telemóveis e um urso de peluche. Passaram a noite de 30 para 31 de março numa zona industrial abandonada, perto de uma estação de comboios, local onde acabariam por ser detidos pela polícia.

Pela manhã, familiares próximos do casal tocaram à campainha. Como ninguém respondia ou abria a porta, decidiram ligar para os bombeiros, que encontraram sangue nas escadas. A polícia foi rapidamente chamada ao local e o bairro foi isolado.

“Impedidos de viver o seu amor, como Romeu e Julieta, decidiram agir”

A jovem conheceu o namorado, colega do curso de mecânica no liceu, em setembro de 2025. Desde então, os dois eram vistos como “inseparáveis”, passando a maior parte do tempo juntos e mantendo-se isolados dos restantes colegas, de acordo com relatos recolhidos pelo jornal francês junto de outros alunos. Em declarações ao Le Monde, o tio da adolescente contou que o casal já falava mesmo em casar e comprar um carro, apesar da idade.

A jovem, que até então não tinha dado motivos de preocupação, começou a envolver-se em conflitos. Os avós chegaram a descobrir que saía da escola durante a hora de almoço para se encontrar com o namorado e decidiram obrigá-la a permanecer no recinto escolar.

À medida que a relação se tornava mais intensa, familiares e amigos passaram a descrevê-la como obsessiva. Meses antes do crime, o rapaz tinha sido detido por alegadamente atacar outro aluno com uma tesoura, num episódio motivado por ciúmes — aguardava julgamento por causa deste caso. “François disse-lhe que Kevin não era o rapaz certo para ela, que era uma má influência, que não o queria em sua casa, que aos 15 ou 16 anos era demasiado nova para ter relações sexuais”, relatou um familiar ao jornal francês.

“Impedidos de viver o seu amor, como Romeu e Julieta, decidiram agir”, afirmou um investigador. Durante o interrogatório, a jovem alegou que a sua avó lhe tinha dado uma chapada, numa tentativa de a afastar da relação. “Eles queriam impedir-nos de viver o nosso amor”, justificou a neta de François e Danielle Lanis às autoridades.

“Os investigadores, bem como os procuradores, ficaram impressionados com a completa falta de emoção”

O procurador do caso, François Schneider, afirmou que a investigação se concentrou “rapidamente” na neta, uma vez que era a única pessoa da família que não tinha contactado os avós nem demonstrado qualquer preocupação com o seu desaparecimento. “Os investigadores, bem como os procuradores, ficaram impressionados com a completa falta de emoção. E com a frieza geral, apesar de algumas lágrimas”, disse ao Le Monde.

“A certa altura, ela caminhava por um dos corredores do tribunal, com as mãos algemadas atrás das costas, escoltada por gendarmes. Os nossos olhares cruzaram-se. Já vi assassinos antes. Mas ela causou-me um efeito que nunca tinha experimentado. Um arrepio de pavor percorreu todo o meu corpo por causa do olhar dela”, admitiu um outro investigador.

As primeiras avaliações psicológicas e psiquiátricas, segundo o jornal francês, indicam que nenhum dos jovens revelou medo da morte, quer ao provocá-la quer ao expor-se ao risco, e que ambos sabiam o que estavam a fazer quando cometeram o crime. Também não demonstraram consciência das consequências, incluindo para as suas próprias vidas. No entanto, “os psiquiatras apontam para défices emocionais e distanciamento“.

O rapaz de 15 anos poderá enfrentar até 20 anos de prisão, enquanto a jovem, apontada como a “força motriz” do crime, poderá ser condenada até 30 anos caso o tribunal não considere o seu estatuto de menor como fator. O julgamento deverá decorrer em Reims até ao final de 2027 e realizar-se-á à porta fechada, uma vez que ambos os arguidos são menores de idade.

A morte de François e Danielle Lanis, de acordo com o Le Monde, chocou os habitantes e os autarcas da localidade francesa. Quem os conhecia descreve o casal como “profundamente humano”, “sempre generoso e disponível para ajudar”, sem “um pingo de maldade”, marcado por uma “pura bondade” e por uma relação “muito unida e apaixonada”.