À boa maneira inglesa, sem tabus ou preocupações, Bernardo Silva decidiu com tempo que era altura de ter um novo desafio. Ele, mais do que ninguém, sempre foi um jogador e uma pessoa de projetos – e com essa identificação plena de que tudo tem um início e um fim. Após quase uma década em Manchester, a coincidir com o reinado de Pep Guardiola no City, era o momento de dizer adeus com 19 títulos, incluindo uma inédita Liga dos Campeões e um Mundial de Clubes entre seis ligas, a braçadeira de capitão e o estatuto de lenda. A extensão do técnico catalão em campo saía pela porta grande em busca de uma janela de oportunidade que lhe garantisse um novo projeto que o desafiasse como jogador. Muitas voltas depois, ele está decidido.
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“Quando cheguei há nove anos, seguia o sonho de um menino, com vontade de ter sucesso na vida e de alcançar grandes feitos. Esta cidade e este clube deram-me muito mais do que isso, muito mais do que alguma vez esperei. O que conquistámos e alcançámos juntos é um legado que guardarei para sempre no meu coração. Os centuriões, o quádruplo doméstico, o triplete, os quatro títulos consecutivos [da Premier] e muito mais… Não foi assim tão mau. Daqui a alguns meses, será altura de dizer adeus à cidade onde não só conquistámos tanto como clube de futebol, mas também onde comecei o meu casamento e a minha família. Do fundo do meu coração, Inês e Carlota, obrigado!
Aos adeptos, o vosso apoio incondicional ao longo dos anos é algo que nunca esquecerei. O meu principal objetivo como jogador era jogar sempre com paixão para que vocês se sentissem orgulhosos e bem representados em campo. Espero que tenham sentido isso em todos os jogos. Cheguei como jogador do Manchester City, parto como mais um de vocês, um adepto do Manchester City para toda a vida. Continuem a apoiar esta equipa jovem e tenho a certeza de que eles vos vão proporcionar muitas novas memórias fantásticas no futuro.
Ao clube, ao Pep, à equipa técnica e a todos os meus colegas de equipa destes nove anos, obrigado por todas as memórias e por me terem deixado fazer parte desta jornada durante tanto tempo. O ambiente que criámos todos os dias no campo de treino fez-me sentir em casa e parte de uma grande família. Vamos aproveitar juntos estas últimas semanas e lutar pelo que esta época ainda nos reserva. Adoro-vos a todos.”
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Despedida mais profunda era difícil, a ponto de alguns amigos que são adversários na Premier League, como Bruno Fernandes, terem feito questão de deixar uma palavra de elogio ao esquerdino de 31 anos. Só faltava mesmo saber o próximo destino do internacional português. E foi a partir daí que começou um autêntico carrossel de cenários e oportunidades, que fechou com um epílogo em forma de volte-face inesperado.
Numa primeira instância, e perante a confirmação desse cenário de saída, Bernardo Silva foi recebendo algumas abordagens que, nesta fase, não eram propriamente do seu interesse como era o caso do Médio Oriente. Em paralelo, também o Galatasaray, um daqueles clubes turcos que têm dinheiro para investir em qualquer jogador de topo caso assim deseje, se chegou à frente. E a Juventus, claro, que há muito seguia a situação do jogador formado no Benfica perante essa hipótese de chegar a custo zero (com pagamento de um chorudo prémio de assinatura). No entanto, nessa fase, a principal possibilidade estava na Catalunha: o Barcelona, clube pelo qual torcia em Espanha quando era mais pequeno e jogava ainda pelos encarnados.
Pelos blaugrana, Bernardo Silva parecia disposto a tudo – incluindo reduzir de forma substancial o salário que tinha em Manchester, percebendo também as dificuldades que o Barça ainda enfrenta em termos de folha salarial de acordo com as regras estipuladas pela La Liga. Mais: o esquerdino queria partir para o Mundial com tudo acertado e fechado, como pensava ser possível acontecer. No entanto, com o passar dos dias, a realidade era outra. O Sport, jornal desportivo catalão, escreveu mesmo que, a seguir ao princípio de acordo fechado pelo agente Jorge Mendes com os culé, houve divergências em termos de visão para o futuro que fizeram ruir o negócio – nomeadamente o facto de ninguém, do técnico Hansi Flick ao diretor desportivo Deco, lhe ter garantido o papel central no projeto desportivo que pretendia ver clarificado. E as próprias declarações do jogador foram mostrando que aquilo que parecia certo estava em vias de mudar.
“Já disse que não vou para o Benfica agora. Há uma intenção que é certa: eu quero voltar. Não sei se, na altura em que quiser voltar, o clube me vai querer. Mas quero voltar. Houve contactos para ver se havia intenção. Futuro? Quero resolver entre o final da época e o começo dos treinos com a Seleção, para estar com a cabeça limpa. O Mundial é uma competição demasiado importante para estar com a cabeça noutras coisas”, referiu em maio ao Canal 11. “Houve momentos em que quis decidir o meu futuro neste período entre final de City e começo de Mundial, mas tem sido um bocado confuso. Quero esquecer isso e estar focado em Portugal e tomar a decisão quando tudo isto acabar. Tenho tempo, não tenho pressa”, disse mais tarde ao Expresso, quando se preparava para integrar os trabalhos do conjunto português na Cidade do Futebol.
https://twitter.com/mbafraaude/status/2065192482380407218
A hipótese Barcelona perdia gás, a Liga espanhola nem por isso deixava de estar no horizonte. Contudo, e também aqui, num instante tudo mudou. Na última semana, quando o Atl. Madrid pensava ter ganho essa corrida pelo internacional português, o rival Real Madrid assumiu a dianteira e fechou o acordo com Jorge Mendes para assegurar a contratação a custo zero do jogador a pedido de José Mourinho, novo treinador dos merengues. Por um lado, o português tinha garantido um papel central naquilo que será o futuro do clube da capital espanhola. Por outro, o técnico ganhava uma dose extra de liderança no balneário, problema que tinha identificado nas conversas com Florentino Pérez. O volte-face estava concretizado.
https://twitter.com/FabrizioRomano/status/2066849770849612238
Esta terça-feira, de acordo com informação partilhada pelo especialista em transferências Fabrizio Romano, Bernardo Silva terá assinado contrato pelo Real Madrid, ficando assegurado como a quarta contratação da formação espanhola depois de Ibrahima Konaté, Denzel Dumfries e Marc Cucurella. E a “revolução” dos blancos pode não ficar por aqui, com Enzo Fernández, também do Chelsea, apontado ao Santiago Bernabéu depois de ter aberto a porta a uma saída de Londres. Florentino Pérez quer dar um novo fôlego ao clube para rivalizar com o Barcelona depois de duas épocas sem títulos e Bernardo Silva será um dos pilares de toda essa reestruturação do futebol dos merengues… depois do principal foco, que passa pelo Mundial.