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Com produção artesanal na América Latina, Índia e Portugal, marca de lifestyle Carolina K. abre pop up na Comporta

Fundada há 20 anos por uma argentina radicada em Miami, a Carolina K. junta design, sustentabilidade e técnicas ancestrais latino-americanas em peças de vestuário e decoração.

Sâmia Fiates
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Se é verdade que a roupa fala, Carolina Kleinman, o nome por trás da marca de lifestyle Carolina K., é um bom exemplo. É dia de estreia da seleção de Lionel Messi no Mundial de Futebol. A designer natural da Argentina, mas que estabeleceu o seu negócio de roupas e itens de decoração em Miami, nos EUA, encontra-nos no rooftop do Bairro Alto Hotel, em Lisboa, num vestido em crochet azul e branco com um Sol de Maio no peito e o número 10 nas costas, produzida em algodão pima no Peru e com o bordado feito à mão. Na cabeça, uma boina listada de ráfia tecida à mão no Equador. Peças que inspiram herança, origem e artesanato. E que a designer apresenta ao público português — e europeu — na próxima quinta-feira, numa pop-up na Quinta da Comporta, que abre entre sessões de sound healing, cânticos e um brunch com pratos da linha para a casa.

A marca de roupa e lifestyle já está presente em cerca de 250 lojas internacionais e vende online para todo o mundo, mas Carolina Kleinman quer aumentar a presença na Europa, a começar pela produção. “Fiz uma viagem de carro até ao Porto e produzi alguns dos meus artigos para a casa numa fábrica lá. São peças de porcelana com ouro verdadeiro, de uma coleção linda chamada ‘Desert Animals‘”, conta-nos, alguns dias antes de partir para a Comporta. A linha de chá em porcelana com detalhes em ouro 24 quilates é dos poucos artigos produzidos cá — a maioria das peças é confecionada em países da América Latina, onde começa a história da própria Carolina Kleinman.

Nascida na Argentina, numa família ligada à produção têxtil e às artes, a designer carrega orgulhosa parte das suas raízes. “A minha mãe, Diana Kleinman, era designer de moda na Argentina. O meu pai cresceu na Bolívia. O meu avô veio do leste europeu para a Argentina num navio, na década de 1910. Tornou-se comerciante e, quando o meu pai era pequeno, mudaram-se para La Paz, na Bolívia, onde o meu avô tinha uma empresa de têxteis e passamanarias”. Na juventude, Carolina Kleinman trabalhou com a mãe e viveu em Los Angeles (“porque também adoro música e representação e estava a tentar encontrar o meu caminho”), quando, há cerca de 20 anos, criou uma marca própria. “Decidi que teria de ter um propósito, algo cultural e significativo a dizer, além de ser intemporal. Sabia que queria fazer algo com significado na minha vida.”

A vida entre a Argentina, o Peru e o México

Foi quando Carolina Kleinman viajou para o norte da Argentina. “O meu primeiro encontro foi numa pequena cidade em Jujuy, chamada Tilcara. Fui ao mercado e vi todos aqueles têxteis coloridos”, descreve a designer. Em La Paz, na Bolivia, conheceu uma artesã que trabalhava com as cholitas — as mulheres locais bolivianas, com as suas saias rodadas e tranças compridas — com quem colaborou na sua primeira coleção artesanal. A outra metade da coleção foi feita no Lago Titicaca, no Peru. “Na minha primeira campanha, usei cerca de oito mulheres, nenhuma delas modelo. Marchavam lado a lado e todas vestiam uma peça feita à mão. A partir daí, passei a viver no Peru porque percebi que, para trabalhar com os artesãos, é preciso estar muito ligado; não é algo que se faça numa semana.”

Do Peru, partiu para Tepoztlan, vila ao sul da Cidade do México, onde continuou a trabalhar enquanto formava família. “É considerada uma cidade mágica. Criámos os nossos filhos na natureza enquanto eu viajava para diferentes partes do México, como Oaxaca, Chiapas e Puebla. No total, criei quatro filhos: três enteados, que amo como meus, e o meu filho, que agora tem 16 anos. Eles viajavam comigo e viviam estas experiências, visitando os artesãos. O meu marido é fotógrafo e diretor musical, por isso fotografava tudo para a marca”, conta a designer. A certa altura, a família decidiu fechar a casa em Tepoztlan por um ano e viver em Pisac, perto de Cusco, no Vale Sagrado do povo Inca. “Nesse ano, encontrei um alfaiate e ia aos mercados. Percebi que muitas das coisas que eu adorava já não eram feitas. Eram têxteis antigos; os novos já não eram iguais. A lã, por exemplo, não era tingida naturalmente e parecia-se mais com acrílico. Tornei a minha missão preservar ao máximo estas técnicas ancestrais através da marca e dar visibilidade a estes ofícios incríveis para que não desaparecessem.”

Carolina Kleinman passou a trabalhar cada vez mais perto dos artesãos de pequenas aldeias latino-americanas — recorda ter reunido um grupo com mais de 300 pessoas. “Naquela altura, antes do Instagram, era difícil para os clientes compreenderem que cada peça é única e uma obra de arte — que se uma manga era um pouco mais curta que a outra, isso fazia parte da peça”, destaca a designer, que curiosamente tinha muitos clientes no Japão. “A coleção de Outono-Inverno era mais forte, porque eu vivia em lugares frios no México ou no Vale Sagrado. A marca era muito focada em malhas feitas à mão. Nas etiquetas, indicávamos quem as tinha feito e quantos dias demorou a produção”, diz.

O encontro com a alpaqueira e o casamento nas montanhas

No Peru, cruzou-se com artesãs como Eulalia, numa história apresentada no documentário “Heart Dessed”, que segue o trabalho realizado pela Fashion for Fragile Ecosystems, divisão da FAO à qual Carolina Kleinman juntou-se em 2025. “Ela é uma alpaqueira. Não fala espanhol e eu não falo quichua, mas ligámo-nos. Dei-lhe um alfinete de chacana (um símbolo também conhecido por Cruz Andina) e agora estamos a começar um projeto juntas. Ela não tinha uma cooperativa, mas agora já tem uma com cinco mulheres, graças à ajuda das netas que traduziram a língua”, conta a designer, que carrega consigo as histórias das pessoas que conheceu ao longo do percurso.

Nas aventuras pelos países andinos, acordava às cinco da manhã para ir aos mercados locais, onde conheceu Hilaria. “Tinha comprado uns têxteis que ela demorou três meses a fazer, uns ponchos. E ela disse-me que ela e o marido queriam nos convidar para irmos a sua casa. Subimos a montanha e eles cozinharam batatas na terra para nós. Depois, ela vestiu-me o seu vestido de noiva e ao meu marido o fato de noivo dele. Fizemos uma pequena cerimónia. Começou a chover, o que é um bom presságio. De certa forma, casámo-nos na cooperativa da Hilaria.”

Outra história envolve um grupo de artesãos em San Juan del Rio, perto de Oaxaca, no México. “Encontrei o Oscar numa celebração chamada Guelaguetza. A banca dele era toda de crochet. Pedi-lhe para criar um grupo de mulheres e fomos até à aldeia dele. Unimos as mulheres, criámos uma organização e trabalho com elas há 15 anos — fazem crochet para a marca todo o ano”, conta Carolina Kleinman, que diz que “o objetivo é ajudá-los a criar sistemas na comunidade para crescerem nos seus mercados locais. Fazemos coleções em conjunto e eu dou-lhes a propriedade intelectual dos designs“, o que significa que os artesãos podem vender esses mesmos modelos nas suas aldeias. “Faço uma mistura: uso os materiais locais deles, mas trago algo da marca, como um detalhe em metal, uma pega ou um tecido diferente. Assim, a minha peça ‘Carolina K.’ é única, mas eles podem replicar e vender a versão deles. É bom para abrirem o seu espetro de design e diferenciarem-se da comunidade vizinha”.

Das malhas do Peru e do México, às cerâmicas pintadas à mão da Colombia, a marca Carolina K. pula para a Índia, onde produz boa parte das peças de roupa em viscose, linho e algodão. “Passei um mês num ashram (retiro espiritual) na Índia em 2005. Fiz yoga, meditação e retiros de silêncio. Liguei-me muito à espiritualidade, à música e aos cânticos indianos. Eu própria canto e toco harmónio. A Índia é para mim uma viagem espiritual. E lá tenho uma fábrica, à qual visito com frequência. Gosto de encontrar oficinas familiares ou fábricas pequenas e apoiar esses negócios”, diz a designer, que também colabora com artistas internacionais na criação de padrões, como foi o caso de Henriette Arcelin. “Na América Latina, tal como na Índia, no Nepal ou no Butão, existe uma ligação; por vezes vemos têxteis com as mesmas técnicas. A diferença é que cada um vem de uma linhagem que conta a história da sua ancestralidade, dos seus deuses, das suas paisagens e da sua cultura”, considera.

Crescimento sustentável

Em 2014 a Carolina K. chegou a Nova Iorque. Com uma loja e um escritório na big apple, a designer passou a incluir artigos de lifestyle na sua marca. “Tinha móveis, ursos bordados e os meus pufes [ottomans] de um metro e meio, feitos em tear e cozidos à mão no México, que agora são icónicos”, conta a designer, que em 2016, mudou-se para Miami, quando assumiu a estratégia de retalho do Faena Hotel em Miami Beach, onde fez a curadoria da boutique de luxo, com 50 marcas de todo o mundo, por cinco anos. Atualmente Carolina Kleinman continua a trabalhar em projetos especiais para hoteis. “Desenhei a loja do Grupo Auberge no México e fiz os uniformes do spa no Claridge’s, em Londres. Estou a fazer as mantas para o Faena na Arábia Saudita”.

A sede da marca é hoje o bairro de Little River, nos arredores do Design District. É lá que a Carolina K. tem um estúdio com 280 metros quadrados e pé direito alto. “Lancei os fatos de banho, os quimonos, e a marca tornou-se muito conhecida pela primavera, pelas cores e pelos estampados. Temos pronto-a-vestir, malhas, fatos de banho, artigos de casa, papéis de parede, chapéus e malas”, assinala a designer, que reverte 5% de cada compra para instituições de caridade — incluindo um abrigo para mulheres em situação de vulnerabilidade em Miami, uma ONG ambiental ou uma entidade associada à Cruz Vermelha. Carolina Kleinman também prioriza o uso de tecidos ecológicos, como algodão orgânico ou linho, em produções pequenas de até 50 peças. “Muitos designers mais jovens disseram-me o quanto se sentiram inspirados. Porque, honestamente, fui uma pioneira ao fazer todo este trabalho. Antes das redes sociais e antes de se tornar uma tendência ser sustentável, fi-lo porque queria fazer algo de bom no mundo. E até hoje continuo a ser uma marca independente. Nunca tive um investidor, não tenho nenhuns sócios, desempenho muitas funções na empresa e ainda somos uma pequena equipa de dez pessoas.”

Questionada sobre se considera que o público atual está mais atento às práticas sustentáveis na indústria da moda, Carolina Kleinman considera que há “duas faces da moeda”. “Existem as pessoas que realmente se importam e querem comprar com significado, sabendo que a peça vai durar e que estamos a fazer o bem. Por outro lado, há quem procure apenas satisfação imediata e compre coisas baratas que, por vezes, nem chegam a usar. Não têm consciência de que há uma pessoa por trás da peça e ignoram as condições em que foi feita.”

Do luxo na Comporta às portuguese girlies

É na Quinta da Comporta que Carolina Kleinman espera “construir uma comunidade e uma experiência”, durante as duas semanas em que a pop up estiver assente. “Não se trata apenas do produto, mas de quem o fez e de como te sentes empoderado ao usá-lo”, destaca a designer, que diz “adorar” o clima da região. “Já comprei alguns tecidos e tenho os artigos de casa que produzo aqui. Depois da Quinta da Comporta, vou fazer uma viagem de carro para explorar. Quero ver os “pueblitos” e conhecer os estilos de bordado locais, como os de Castelo Branco. Gostava de ir a Estremoz e ver o trabalho com barro. A próxima coleção vai ter muitas referências do que vi em Portugal”, confidencia.

Em Portugal, os padrões e o aspeto artesanal já conquistaram nomes como Rebecca de Ravenel e Filipa de Abreu. Questionada sobre se acha que a sua marca se encaixa nos looks das portuguese girlies, Carolina Kleinman mostra-se confusa: “Existe esta tendência?”. Depois de saber mais sobre as influencers “embaixadoras” do estilo, a designer responde. “Acho que as minhas peças se encaixam bem porque parecem adorar padrões. Adoro o facto de a marca ter opções infinitas. Não produzimos num só lugar, não somos apenas uma marca de resort; somos uma marca de estilo de vida.”