Nesta terça-feira, arrancou a primeira fase dos exames nacionais do ensino secundário, em que mais de 81 mil alunos realizam a prova de português. São 166.339 mil estudantes inscritos, sendo que 93.596 destes concorrem a uma oportunidade no ensino superior. Mas o uso de equipamentos eletrónicos e a correção digital das provas estão a preocupar os profissionais do setor, que denunciam a possibilidade de fraudes e de descida das notas nas correções.
Dispositivos eletrónicos discretos podem ajudar a manipular os resultados por permitirem que os estudantes tenham acesso às respostas. “Há relógios inteligentes, óculos onde se pode visualizar as respostas, uma espécie de brinco em que ouvem as respostas, uma série de novas tecnologias que as escolas não estão preparadas para detetar”, lamentou o presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (Andaep), Filinto Lima, ao Correio da Manhã.
O docente afirmou serem “arcaicos” os métodos utilizados para a vigilância do exame. “Isto pode dar origem a fraudes. Se forem detetadas, o aluno é penalizado e o teste anulado, se não forem há uma vantagem ilegítima dos alunos que usaram esse recurso”, admitiu. Não há, por exemplo, detetores de metais ou bloqueadores de sinais nos locais de aplicação das provas que assinalem ou impeçam o uso de tecnologias.
O facto de os corretores poderem corrigir apenas parte da prova também preocupa os professores. “O fundamento pode ser positivo, mas quando tínhamos uma visão global da prova fazíamos sempre uma reapreciação quando a nota era de 12,4 ou 14,3, para perceber se a primeira leitura estava correta e se não se justificava a subida de algumas décimas. Com este método, isso vai desaparecer, só temos acesso a um pedaço e as classificações podem descer”, revelou ao mesmo jornal a secretária da Associação de Professores de Português, Maria do Carmo Oliveira.
Se por um lado as ferramentas digitais podem fazer com que os alunos copiem ou obtenham respostas fraudulentamente durante o exame, por outro, a iniciativa recente de digitalizar as provas tem o intuito de facilitar o trabalho dos corretores. Mas a quantidade de documentos digitalizados preocupa Filinto Lima, mesmo que em 2025 tenha “corrido bem” o ensaio com a prova de Filosofia: “Mas na altura eram só 20 mil provas e agora são 300 mil. É uma empreitada enorme, milhões de páginas que têm de ser digitalizadas”.
A logística de transporte das provas depois de realizadas também mudou. Antes, eram entregues nos agrupamentos de exame pelo país, mas agora seguem diretamente para a Imprensa Nacional Casa da Moeda, em Lisboa, onde devem ser digitalizadas, explica o diretor. “Há uma grande coragem política do Ministério ao implementar este modelo, mas também corre muitos riscos com esta mudança de paradigma”, diz Lima, frisando que a posse das provas é da responsabilidade do Ministério da Educação a partir do momento em que estas são entregues pelas escolas à polícia.