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Mbappé vs. Bardella. Como se prolonga o braço de ferro entre a seleção francesa e a União Nacional

Tensão entre a seleção francesa e a União Nacional mantém-se no Mundial, com Mbappé a liderar as críticas contra o partido. Em público, RN deixa cair questões étnicas e ataca "privilégios" do capitão.

José Carlos Duarte
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É a estrela da seleção francesa. Aos 27 anos, Kylian Mbappé é uma das peças mais importantes dos Les Bleus. Neste Campeonato do Mundo, será uma das referências no ataque da equipa, que se estreia esta terça-feira frente ao Senegal. Contudo, o jogador do Real Madrid não cria impacto apenas nas quatro linhas. Politicamente, o capitão é bastante ativo — e já deixou bem claras as suas opiniões. Com milhões de seguidores e bastante popular entre os mais jovens, o avançado critica publicamente a União Nacional (RN na sigla original), liderada por Jordan Bardella e Marine Le Pen, desejando que o partido nunca chegue à presidência de França.

A menos de um ano das eleições presidenciais em França e num momento em que a RN lidera as sondagens, Mbappé faz questão de enfatizar a sua preocupação se Jordan Bardella se tornar o próximo Presidente francês. Numa entrevista à Vanity Fair publicada em maio de 2026, o avançado explicou que, mesmo sendo jogador de futebol, é um “cidadão” francês e não está “desconectado do mundo”. “Às vezes, as pessoas pensam que, por termos dinheiro, por sermos famosos, esses tipos de problemas não nos afetam. Mas afetam; eu sei o que significa e quais as consequências que isso pode ter para o meu país quando pessoas como eles chegam ao poder”, afirmou.

Com vários atletas com raízes africanas na seleção — o próprio Mbappé é filho de pai natural dos Camarões e tem ascendência argelina da parte da mãe —, a mensagem da União Nacional não é propriamente popular no seio dos Les Bleus, que são frequentemente criticados pela direita radical, precisamente por causa das suas origens. Desde Jean-Marie Le Pen que existe uma tensão entre a equipa nacional e a RN. Nos últimos tempos, o jogador de 27 anos transformou-se no novo rosto da oposição ao partido, nunca escondendo, ao mesmo tempo, a sua proximidade a Emmanuel Macron e ao partido centrista do Presidente francês.

A União Nacional não deixa de responder ao avançado e enfrenta-o diretamente nas redes sociais. Quando Mbappé criticou o partido na entrevista à Vanity Fair em maio, Jordan Bardella reagiu no X com uma provocação futebolística. “Eu sei o que acontece quando Kylian Mbappé deixa o PSG: o clube ganha a Liga dos Campeões”, escreveu o líder partidário, aludindo à saída do jogador da equipa francesa para o Real Madrid.

Mbappé: o historial do jogador que confronta a RN

O historial de tensão entre Mbappé e a União Nacional já é longo. O avançado é muito próximo de Emmanuel Macron — com quem celebrou a vitória no Mundial de 2018 ainda no início da sua carreira. A cumplicidade com o inquilino do Palácio do Eliseu já criava um certo desconforto na RN, que tem muitos eleitores jovens e procura convencê-los a votar no partido, tendo uma máquina montada nas redes sociais para esse efeito. Aliás, Jordan Bardella tem apenas 30 anos, o que faz do avançado uma espécie de rival político praticamente da mesma geração.

Em 2024, França jogava o Europeu em solo alemão. Em simultâneo, estava a ter lugar eleições legislativas para escolher os deputados na Assembleia Nacional. Na primeira volta, a 30 de junho, a União Nacional venceu confortavelmente. Havia a apreensão de que, uma semana depois, Jordan Bardella pudesse ser eleito o próximo primeiro-ministro de França. Na Alemanha, o tema entrou invariavelmente na conversa dos jogadores da seleção, num período bastante tenso da política francesa.

Antes do jogo contra Portugal no Europeu (que França acabou por vencer nos penáltis), Mbappé fez um apelo. “Agora, mais do que nunca, precisamos de votar. É realmente urgente. Não podemos colocar o país nas mãos dessas pessoas; é absolutamente crucial. Os resultados foram catastróficos”, disse, pedindo que todos os eleitores comparecessem nas urnas e votassem do “lado certo”. Ao mesmo tempo, o capitão dos Les Bleus negou ser da “extrema-esquerda” — e descartou o apoio à coligação Nova Frente Popular, que reunia a França Insubmissa, os comunistas, os ecologistas e os socialistas.

No Europeu de 2024, o avançado não foi o único a pedir que os franceses não votassem na União Nacional. Também o fez o jogador Marcus Thuram, de forma ainda mais categórica do que Mbappé: “A situação é muito grave. Ficámos todos um pouco chocados no balneário. Esta é a triste realidade da nossa sociedade. Há mensagens transmitidas todos os dias na televisão para ajudar [a União Nacional]. Devemos dizer a todos para irem votar. Como cidadãos, sejam vocês ou eu, devemos lutar diariamente para que isto não volte a acontecer e para que a RN não passe.”

Ousmane Dembélé, Jules Koundé e Aurélien Tchouaméni — outros nomes seguiram-se nos apelos contra a RN. Para a seleção francesa, o Europeu 2024 converteu-se num palco para transmitir uma mensagem aos eleitores: a de que não deviam votar na União Nacional. A Federação Francesa de Futebol emitiu um comunicado a pedir que os atletas mantivessem uma certa “neutralidade” política, mas a sugestão não foi acatada pelos Les Bleus.

"Agora, mais do que nunca, precisamos de votar. É realmente urgente. Não podemos colocar o país nas mãos dessas pessoas; é absolutamente crucial. Os resultados foram catastróficos."
Mbappé sobre primeira volta das eleições legislativas francesas que a União Nacional venceu

Neste contexto, o selecionador Didier Deschamps alinhou inicialmente com a posição da Federação Francesa: a de que as mensagens políticas contra a União Nacional deveriam ser evitadas. Mas cedo veio alterar a posição: “Eles são jogadores de futebol, mas são, acima de tudo, cidadãos franceses. Não estão imunes ou indiferentes à situação do país. Se sentem necessidade de falar, expressam-no com as suas próprias palavras e com a sua sensibilidade. É o direito deles e eu tenho de o respeitar”.

Perante esta onda que se formou na seleção francesa no meio da campanha para as legislativas — em que a RN desejava ter um bom resultado e eleger um primeiro-ministro pela primeira vez —, Marine Le Pen veio criticar diretamente as palavras de Mbappé e dos seus colegas de equipa. Os argumentos? A ideia de que os jogadores de futebol “tinham a sorte de viverem muito confortavelmente” e de estarem “protegidos da insegurança, da pobreza e do desemprego” que afetam a maioria dos franceses.

“Os franceses estão cansados de receber lições de moral e instruções sobre como votar”, atirou Marine Le Pen, que apelou à “moderação” dos “multimilionários”. O ataque era preciso: o de retratar os atletas como indivíduos que vivem numa redoma, longe dos problemas que a classe média e a classe baixa sofrem todos os dias. Essa imagem, aliás, é aquela que a União Nacional tenta colar aos apoiantes do campo macronista em França — de que Mbappé sempre esteve próximo.

Uma elite privilegiada que não entendia a dimensão dos problemas enfrentados pelos franceses — a mensagem da União Nacional para aplacar os ataques da seleção francesa sempre foi esta. “Quando se tem a sorte de ter um salário muito, muito grande, quando se é multimilionário… Fico um pouco envergonhado por ver estes atletas darem lições a pessoas que já não conseguem fazer face às despesas, que já não se sentem seguras, que não têm a possibilidade de viver em bairros superprotegidos por agentes de segurança”, argumentou Jordan Bardella. Ainda assim, juntamente com outros dirigentes da RN, o líder partidário sempre fez questão de enfatizar o “respeito” que sentia pelos futebolistas, definindo-os como “ícones do futebol e da juventude”.

A situação era complicada para a RN. Campeã do mundo em 2018, vice-campeã em 2022 e com bastante sucesso nas últimas décadas, a seleção francesa é respeitada transversalmente. Mesmo que a origem dos jogadores seja criticada pelas vozes mais à direita, existe orgulho em França pelos feitos dos Les Bleus. Isto significa que a União Nacional tinha de ripostar contra as palavras dos jogadores durante a campanha, mas não os podia hostilizar totalmente — principalmente durante o Europeu de 2024, competição que a seleção almejava vencer.

Mbappé. A celebridade “arrogante” e que não se quis manter neutral

Em 2026, a situação praticamente não mudou. Permanece a tensão entre a União Nacional e a seleção francesa. Na entrevista à Vanity Fair, Mbappé recordou que os jogadores ficaram “chocados” com a vitória da RN na primeira volta das legislativas francesas e nas europeias semanas antes. “Somos cidadãos e não podíamos simplesmente ficar de braços cruzados. Não nos podíamos convencer de que ia ficar tudo bem e íamos apenas jogar. Temos de combater essa ideia de que um jogador de futebol deve apenas jogar e ficar calado”, defendeu o avançado.

"Somos cidadãos e não podíamos simplesmente ficar de braços cruzados. Não nos podíamos convencer de que ia ficar tudo bem e que íamos apenas jogar. Temos de combater essa ideia de que um jogador de futebol deve apenas jogar e ficar calado."
Mbappé sobre postura dos jogadores em relação à política

Com estatuto de celebridade internacional, Mbappé tem-se esforçado para combater a reputação de que os jogadores de futebol devem apenas debitar banalidades e evitar expor o seu posicionamento político. Apesar de todos os contratos multimilionários que também mantém com marcas conceituadas, o avançado quebra muitas vezes a barreira do que se esperaria de um futebolista — e não tem pudores em assumi-lo.

No início da sua carreira, o avançado era elogiado pela eloquência e maturidade, mantendo-se longe de escândalos e do estilo mais exuberante de vários jogadores. Não era o típico atleta focado apenas no futebol e que vivia uma vida confortável com alguma ostentação; converteu-se numa celebridade com uma postura calculada ao milímetro e uma comunicação muito controlada — códigos que partilha mais com atores de Hollywood do que com os seus parceiros de seleção. A política acabou por ser uma exceção na persona pública de Mbappé.

No entanto, essa aura de inacessibilidade que se foi intensificando nos últimos anos, juntamente com as suas opiniões políticas — expressas, muitas vezes, sem medir as palavras —, teve um preço. Ao Le Monde, Frédéric Dabi, diretor-geral do Instituto Francês de Opinião Pública, explicou que “Kylian Mbappé é a antítese da imagem do atleta que os franceses apreciam”. “Ao contrário de Zinédine Zidane, que personifica valores como a humildade e a autenticidade, passa uma imagem de arrogância. Não transmite acessibilidade e, portanto, cria um certo distanciamento na opinião pública”, sustentou.

O apoio implícito que deu a Emmanuel Macron — detestado por muitos tanto à direita como à esquerda — também contribuiu para essa fama de arrogante e de alguém que vive numa bolha à margem da população francesa. “Ele desobedeceu a uma regra importante em França para se manter entre as figuras mais populares e preservar uma imagem relativamente imune a controvérsias: a de que não se deve tomar uma posição política ou parecer inclinado para um dos lados em detrimento de outro”, resumiu Frédéric Dabi.

As polémicas em que Mbappé agora se vê envolvido estão associadas precisamente a um certo ar de superioridade e snobismo que tentam colar à sua imagem. A transferência multimilionária do PSG para o Real Madrid, que já foi usada por Jordan Bardella para o atacar, acentuou a fama de alguém que se move mais por dinheiro do que por amor ao desporto. Para a União Nacional, estas são munições importantes — que podem ser usadas sempre que o capitão da seleção nacional se pronunciar sobre política.

Por causa do seu estilo, o avançado reconhece que já não é uma figura consensual na sociedade francesa. Numa entrevista divulgada pelo Le Parisien esta segunda-feira, Mbappé assumiu que já é “odiado o suficiente” em França. Mesmo opondo-se à União Nacional, o jogador descartou ainda candidatar-se à presidência no futuro: “Muita gente me diz isso, mas não está nos meus planos”.

As controvérsias que sempre houve entre a RN e os Les Bleus

“Acho artificial convocar jogadores de outros países e batizar isso de seleção francesa.” As palavras são de Jean-Marie Le Pen, ditas durante o Europeu de 1996, que teve lugar em Inglaterra. As declarações do então líder da extrema-direita em França foram alvo de muita controvérsia. O pai de Marine Le Pen criticou o facto de muitos jogadores serem originários de antigas colónias francesas e de vários se recusarem a cantar A Marselhesa.

Acusado pelos críticos de declarações racistas e antissemitas, Jean-Marie Le Pen questionou várias vezes a composição da seleção francesa enquanto líder da Frente Nacional. Em 2006, antes do Mundial na Alemanha, o político declarou que talvez se tivesse “exagerado na proporção de jogadores de cor e se devesse ter mais cuidado”: “A França não se reconhece nesta equipa”.

Estas declarações causaram sempre frenesim e um certo ressentimento entre os jogadores, que muitas vezes protestavam contra as palavras de Jean-Marie Le Pen, um líder abertamente antissistema e que não se importava de criar polémicas. No Mundial de 2006, Lilian Thuram (pai de Marcus Thuram), respondeu diretamente ao líder da Frente Nacional: “Quando as pessoas celebram as nossas vitórias, celebram-nos como franceses, não como negros ou como brancos.”

Ainda antes disso, em resposta aos comentários durante o Europeu de 1996, a seleção francesa emitiu um comunicado em que repudiava “as tentativas de divisão” da extrema-direita. E a batalha ideológica ganhou contornos ainda mais duros durante as eleições presidenciais de 2002, quando o líder da extrema-direita chegou pela primeira vez à segunda volta. Na altura, o capitão Marcel Desailly atacou diretamente a Frente Nacional, um partido que descreveu como “fascista”, lembrando que “a força da equipa francesa está na sua natureza multirracial”.

No mesmo sentido, Zinédine Zidane, considerado um dos maiores heróis futebolístico da história da seleção do país, veio a público pedir algo inédito: que os franceses votassem contra a Frente Nacional. Na antecâmara das eleições vencidas por Jacques Chirac, o agora treinador pediu que pensassem nas “consequências de votar num partido a que não correspondem todos os valores de França”.

Nessas mesmas presidenciais, a seleção chegou a emitir um manifesto coletivo que condenava o “ressurgimento da exclusão e do racismo”, considerando “intoleráveis e indefensáveis as atitudes perigosas para a democracia”, em particular contra uma França “multiétnica e multicultural que era rica nas suas diversidades”.  Nesta altura, grande parte da opinião pública defendia os Les Bleus, sendo que Jean-Marie Le Pen era tido como alguém radical, mas que dificilmente chegaria a um cargo de destaque.

Atualmente, a situação é diferente daquela que se vivia nos tempos de Jean-Marie Le Pen. Ao longo dos últimos anos, a União Nacional limpou a sua imagem e encetou um processo de dédiabolisation. À medida que as probabilidades de chegar ao Palácio do Eliseu aumentavam, as críticas à seleção nacional diminuíam de tom. Ainda assim, em 2010, Marine Le Pen também chegou a questionar o motivo pelo qual “muitos jogadores pertenciam a outra nação e tinham outra nacionalidade no coração” ao representarem a França.

As vozes mais radicais da União Nacional continuam, nas redes sociais e em privado, a atacar a composição da seleção francesa. Em público, os sinais de insatisfação são mitigados — e a estratégia de ataque foca-se, agora, na bolha privilegiada em que a RN acusa os jogadores de viverem. Além disso, o panorama político em França ganhou outras vozes mais radicais à direita, como a de Éric Zemmour, líder do Reconquista, que, durante o Mundial de 2022, questionou abertamente por que motivo “havia oito ou nove jogadores de origem africana” na equipa.

Sendo a figura mais mediática da seleção francesa, Kylian Mbappé assumiu-se como a voz mais crítica da União Nacional dentro do balneário dos Les Bleus. A um ano das presidenciais, o capitão não dá sinais de abrandar a retórica contra o partido, ao passo que os líderes da RN não têm receio de entrar numa troca de galhardetes com o jogador. São também ajudados pela perceção crescente entre os franceses de que o futebolista é arrogante e uma celebridade pouco acessível.

O partido aprendeu também uma lição: as críticas de cariz étnico ficam agora de parte, mesmo que estas continuem a existir em privado. O novo alvo passou a ser a bolha social e o estatuto de multimilionários dos atletas, sendo Kylian Mbappé um dos principais rostos dessa classe privilegiada. Ao trocar a questão étnica pela narrativa da desigualdade salarial que existe entre os jogadores e a classe média, a União Nacional encontrou uma mensagem que ecoa em toda a sociedade francesa. Esta fórmula, além de mais eficaz, revelou-se muito mais difícil de combater para os jogadores da seleção.