(c) 2023 am|dev

(A) :: Mundial 2026. Irão diz ser a seleção "mais oprimida do Mundial" e acusa EUA de expulsão após estreia

Mundial 2026. Irão diz ser a seleção "mais oprimida do Mundial" e acusa EUA de expulsão após estreia

O capitão Mehdi Taremi já está cansado da tensão política e o treinador Ghalenoei acusa a organização de discriminação. Após o jogo, o presidente da FIFA teve de intervir no balneário.

Mariana Carrilho
text

Logo após o empate (2-2) frente à Nova Zelândia, em Los Angeles, a comitiva iraniana foi forçada pelas autoridades dos EUA a abandonar imediatamente o país rumo à sua base de treino no México, quebrando o plano inicial que previa uma noite de descanso em solo americano. A seleção iraniana reagiu com revolta, dizendo ser “a [seleção] mais oprimida de todo o Mundial”.

Mehdi Taremi considera tudo isto um desastre. “Estamos simplesmente cansados desta situação“, desabafou, citado pelo The Telegraph. O avançado revelou que a seleção deveria dormir em Los Angeles, treinar na manhã seguinte e só depois ir para o México, em vez de abandonar logo o país. “Isto não é bom para o futebol, prejudica a nossa recuperação física e destrói o planeamento para os jogos seguintes”, criticou. “Nós só queremos a paz, que é o ponto central da FIFA. Acho que a FIFA tem de nos ajudar mais, e depois logo veremos o que vai acontecer no futuro”.

Mohebi, que marcou o segundo golo no jogo desta terça-feira, também considera a situação injusta: “Devíamos ter vindo para aqui dois dias antes do jogo. Ontem viemos, começámos a viagem de manhã e chegámos à tarde. Depois fomos logo treinar e ficámos cansados”.

A gravidade da situação levou o presidente da FIFA, Gianni Infantino, a deslocar-se pessoalmente ao balneário do Irão após o apito final. Confrontado pelos jogadores sobre as razões de estarem a ser expulsos do país a meio da noite, Infantino tentou assumir um papel de mediador, como explicou o The Guardian.

Imagens que circularam nas redes sociais mostram o líder do futebol mundial a tentar motivar o grupo: “Eu sei pelo que estão a passar e compreendo-vos, mas vocês são mais fortes do que tudo isto. Hoje enviaram uma mensagem forte ao mundo inteiro e uniram este estádio”. Infantino até aliviou o ambiente com uma piada, oferecendo-se para jogar ao ataque caso o treinador precisasse de reforços.

https://twitter.com/HatamDaddy/status/2066750901939798144

No entanto, as palavras de conforto do líder da FIFA não eliminaram a indignação do selecionador Amir Ghalenoei. O técnico iraniano sublinhou que nenhuma das outras 47 seleções presentes no Mundial está a ser submetida a este nível de restrições. “A nossa federação está ausente, os nossos media não estão aqui, a nossa equipa de gestão foi barrada. Antes tínhamos uma parte da equipa técnica para ajudar com as substituições, mas agora não tivemos isso”, lamentou Ghalenoei.

No dia do jogo, estiveram presentes 70.108 espectadores no estádio. Fora do estádio, realizaram-se protestos organizados contra o regime de Teerão e, no interior, os adeptos desafiaram a proibição expressa da FIFA ao mostrarem a bandeira pré-revolucionária do “Leão e Sol”. Como se observa em diversas publicações no X, o hino nacional iraniano foi ainda vaiado.

https://twitter.com/DenizHeydarpour/status/2066709776696774767

O número 168 também foi exibido, como afirmou o El Español. Os adeptos levantaram uma faixa em homenagem às 168 raparigas que morreram num ataque a uma escola em Minab, a 28 de fevereiro, com mísseis norte-americanos — a seleção iraniana já tinha usado um pin com este número quando aterrou em Tijuana, no início do Mundial.

https://twitter.com/on4hd/status/2066800771040006518

Apesar da tensão sentida, sempre que a bola estava em jogo, a contestação política dava lugar ao apoio desportivo, com o público a celebrar efusivamente os golos de Ramin Rezaeian e Mohammad Mohebi. O festejo de Mohebi, porém, está a causar alguma revolta nas redes sociais, já que o acusam de “disparar” em direção à bancada dos EUA.

https://twitter.com/500xspor/status/2066808273802494352

Já no Aeroporto de Los Angeles, depois de ser forçada a sair dos EUA, a equipa enfrentou mais problemas logísticos, como referiu a Marca. Enquanto a maioria da seleção se encontrava a bordo do avião, Taremi e o dirigente Saeed Al-Hawie ficaram retidos a concluir os procedimentos de saída. Esta situação acabou por atrasar o voo com destino a Tijuana.

A estreia do Irão no Mundial coincidiu com o anúncio de um acordo de paz entre os EUA e Teerão, com o objetivo de terminar o conflito que deflagrou no final de fevereiro. O ambiente hostil que a comitiva iraniana enfrenta agora contrasta com o espírito de respeito mútuo vivido no Mundial de 2022. Após os norte-americanos eliminarem o Irão no Qatar (1-0), avançando para os oitavos de final, o abraço de consolo de Antonee Robinson a Ramin Rezaeian tornou-se um grande símbolo da competição, relatou o The Independent. Na altura, o analista Karim Sadjadpour sublinhou numa publicação no X que, apesar dos esforços de “lavagem cerebral do regime iraniano” contra os EUA, a maioria dos americanos que visita o Irão considera-o um dos lugares mais acolhedores do mundo.

https://twitter.com/ksadjadpour/status/1597922491426799619