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Assobios, o sol e o leão: como foi a estreia do Irão no Mundial

Em Los Angeles, não foi "só futebol". Manifestações, batalha judicial sobre uma bandeira, assobios durante hino e uma conferência de imprensa sem uma pergunta sobre futebol. Tudo acabou num empate.

Manuel Conceição Carvalho
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A chegada do Irão a Los Angeles para o jogo com a Nova Zelândia não passou despercebida. A cidade tem cerca de 600 mil iranianos americanos, concentrados sobretudo em torno da Westwood Boulevard — o chamado Tehrangeles e é a maior comunidade iraniana fora do Irão.

A equipa iraniana aterrou no domingo, 14 de junho — o mesmo dia em que os Estados Unidos e o Irão assinaram um acordo de paz após meses de conflito armado. A ironia do calendário prestava-se a muitas perguntas, mas a FIFA tratou de deixar claro, antes mesmo da conferência de imprensa de véspera, que o assunto era futebol. Os jornalistas foram avisados para se limitarem a perguntas desportivas. O treinador Amir Ghalenoei concordou com o pedido. Não adiantou de nada: a conferência decorreu sem uma única pergunta sobre futebol.

Mehdi Taremi foi direto. “Não temos a mesma experiência bonita de que sempre falamos — a paz, a alegria. Este tipo de tensão mina essa alegria”, disse o jogador, citado pela Al Jazeera. O capitão reiterou que a equipa jogava para todos os iranianos, “sejam os que estão dentro do país ou fora”, e que o futebol podia “sempre unir todas as fações”. No final, quando já não havia mais perguntas, garantiu que a seleção iraniana tinha “um grande respeito pela Nova Zelândia” e que esperava “um bom jogo”. Sobre a ausência de Azmoun, Ghalenoei foi igualmente breve: “Sardar é um excelente jogador, fez muito por nós, não está connosco, gostaríamos que estivesse, mas é futebol”, afirmou.

Na manhã do jogo, os primeiros manifestantes chegaram às imediações do SoFi Stadium por volta das 11 horas. Mais de 200 membros da diáspora iraniana reuniram-se com cartazes, cânticos a pedir mudança de regime e a bandeira pré-revolucionária com o leão e o sol — proibida pela FIFA dentro dos estádios. “Não é a nossa seleção nacional, é a equipa da República Islâmica”, disse o ativista iraniano Arash Razi, segundo a ABC7. Os manifestantes denunciavam a perseguição de atletas e prisioneiros políticos pelo regime de Teerão, e alegavam que os Guardiões da Revolução Islâmica exercem um controlo significativo sobre a federação iraniana.

https://twitter.com/Reuters/status/2066722431683949055

Essa mesma bandeira tinha sido objeto de uma batalha jurídica no próprio dia do jogo. A FIFA classificou-a como símbolo político e proibiu a sua entrada nos estádios. Uma organização californiana, o Institute for Voices of Liberty, apresentou uma ação judicial no Tribunal Superior de Los Angeles, argumentando que a proibição violava as proteções constitucionais à liberdade de expressão. O juiz pronunciou-se horas antes do apito inicial, mantendo a proibição da FIFA. Dentro do estádio, muitos adeptos ignoraram a decisão: a bandeira pré-revolucionária foi exibida em camisolas e bandeiras ao longo de todo o jogo.

https://twitter.com/natsfert/status/2066688960961941558

Quando o hino do Irão soou no SoFi Stadium, o ambiente dividiu-se. Muitos adeptos iranianos assobiaram e viraram as costas ao relvado — mas quase todos apoiaram os jogadores iranianos assim que o jogo começou. Para muitos dos presentes, o hino está associado à República Islâmica e não apenas aos jogadores que representam o país.

https://twitter.com/Tarikh_Eran/status/2066687906681352485

Durante a partida, o Irão e a Nova Zelândia empataram a duas bolas. Os golos foram apontados por Elijah Just (7′ e 55′), da seleção neozelandesa, e pelos iranianos Ramin Rezaeian (32′) e Mohammad Mohebi (64′).