Há jogos que começam antes do apito inicial. Este era um deles. Quando o Irão e a Nova Zelândia entraram em campo no SoFi Stadium, em Inglewood, já muito se tinha passado fora do recinto — manifestações nas imediações do estádio, restrições que obrigaram a comitiva iraniana a permanecer no México entre jogos, e um ambiente de tensão que acompanhou a seleção persa desde a chegada aos Estados Unidos, onde tem de sair no próprio dia em que entra para disputar as partidas da prova.
Amir Ghalenoei e Mehdi Taremi anteciparam o confronto com uma promessa: o Irão jogaria para trazer alegria e união a todos os iranianos, independentemente das divisões políticas. O selecionador sublinhava que o grupo estava habituado a transformar dificuldades em oportunidades. Sem Sardar Azmoun, a esperança era que o apoio da vasta diáspora iraniana na Califórnia — uma das maiores comunidades fora do Irão — se sobrepusesse a tudo o resto.
Do lado da Nova Zelândia, Darren Bazeley e Chris Wood escolheram outro caminho: ignorar completamente o contexto e tratar o jogo como qualquer outro. Para os “All Whites”, este embate marcava o regresso ao maior palco do futebol mundial após 16 anos de ausência. Wood era claro: “Uma vez cruzadas as linhas do relvado”, nada mais importava.
No placar oficial, o jogo estava listado como Irão-Nova Zelândia. Parece algo distópico, mas no papel o Irão jogava em casa. Na prática, a história era outra. O nervosismo à volta da partida parecia ficar patente no relvado, onde os iranianos até começaram com mais objetividade, mas os neozelandeses foram mais eficazes. Apenas sete minutos foram necessários para inaugurarem o marcador, com Elijah Just a combinar com o capitão Chris Wood e a atirar dentro da área para o primeiro golo.
O tento servia de quebra-gelo de uma partida que era mais do que futebol, cruzava a barreira do desporto e encontrava outras temáticas. Mas aquele momento trouxe a modalidade de volta a si própria. Apesar de tudo o que se passava fora das quatro linhas, ambas as equipas chegavam ao relvado do SoFi Stadium para falar na língua universal do futebol. Foi nesse idioma que a Nova Zelândia ganhou o embalo emocional do primeiro golo para tentar um segundo, por Chris Wood, que viu Alireza Beiranvand fazer duas intervenções.
Depois de um susto junto da baliza do Irão, chegava um sério aviso ao poste direito da baliza neozelandesa. Mehdi Taremi, depois de uma arrancada desde o círculo central, decidiu na meia-lua encontrar as redes defendidas por Crocombe, mas encontrou o ferro, que lhe negou um grande golo. As redes neozelandesas, no entanto, não esperariam pela demora: aos 32 minutos, uma jogada começou à direita e passou pelo meio, já dentro da área, nos pés de Shahriyar Moghanloo. A bola acabou por se enrolar nos pés do avançado, mas foi o suficiente para chegar a Ramin Rezaeian, que vinha na dobra para terminar o lance e empatar a partida.
Para que haja espaço no ataque, é necessário que surjam erros na defesa — provocados ou não. Erros não faltaram e oportunidades junto das duas balizas também não. Ao intervalo, o jogo despedia-se com um empate a uma bola que espelhou um jogo inquieto.
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Nem o intervalo tirou à segunda parte o ritmo que se tinha visto na primeira. O Irão voltava a entrar mais forte e, qual espelho do primeiro tempo, foi novamente a Nova Zelândia a ser mais feliz. Em vez de sete, foram 10 os minutos que os oceânicos necessitaram para quebrar a boa entrada do conjunto asiático na partida. O finalizador foi, uma vez mais, Elijah Just e quem assistiu foi, outra vez, Chris Wood, após uma grande jogada coletiva dos neozelandeses aos 55′.
O segundo tempo ameaçava ser um autêntico espelho do primeiro, com o sem-número de oportunidades a repetir-se. A teoria ganhou força quando, aos 64′, Mohammad Mohebi, ex-Santa Clara, conseguiu corresponder a um cruzamento antecipado do marcador do primeiro golo do Irão, Rezaeian. O que Chris Wood tinha antecipado parecia um palpite certo. A promessa de Taremi foi cumprida. O que se passava fora do campo importava, mas durante 90 minutos, as equipas foram responsáveis por fazer esquecer, com sucesso, a tensão em volta da presença do Irão neste Mundial. O jogo terminou empatado a dois e sem um vencedor. Ganhou o futebol, por ter voltado a ser futebol.
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A estrela
- Elijah Just vestiu a pele de guia dos neozelandeses, apoiado pelo capitão Chris Wood. Foi nele que caíram as duas bolas que acabariam por entrar na baliza do Irão. A primeira numa execução mais apertada. A segunda, após um bom exemplo de movimento coletivo. O denominador comum foi o avançado do Motherwell, que aproveitou o facto de Wood ser a grande referência a anular por parte da defensiva iraniana.
O joker
- Ramin Rezaeian alinhou na zona mais recuada da seleção iraniana, mas não se coibiu de participar ativamente nos dois golos. O primeiro foi marcado pelo próprio, que aproveitou uma execução incompleta de Shahriyar Moghanloo para empatar a partida. Depois, no segundo tempo, assistiu Mohammad Mohebi, novamente para uma igualdade. Ao mesmo tempo, conseguiu travar, na sua zona de ação, as investidas da Nova Zelândia, que teve de recorrer ao corredor esquerdo iraniano para conseguir marcar.
A sentença
- Depois do empate da Bélgica diante do Egito, o Irão perdeu a oportunidade de ganhar, desde logo, terreno no grupo G. A Nova Zelândia é, teoricamente, a equipa com menos argumentos do grupo. Por isso, apesar de as seleções terem todas os mesmos pontos, sobram ao Irão dois jogos de maior dificuldade, enquanto Egito e Bélgica ainda têm no seu calendário o jogo com o menor grau teórico de exigência.
A mentira
- O que se anunciava como o jogo menos apetecível da jornada — condenado a ficar na sombra da geopolítica e do simbolismo — acabou por ser, simplesmente, 90 agradáveis minutos de futebol. As duas equipas trataram de o tornar assim, com a qualidade e a entrega que o momento exigia. Dentro das quatro linhas, o espetáculo foi das duas seleções.