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O octógono na Casa Branca

Uma masculinidade definida como domínio tem a vantagem de não pedir acordo sobre Israel, Inteligência Artificial ou protecionismo económico.

Manuel Castello Branco
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Quando Donald Trump decidiu celebrar os seus 80 anos mandando erguer um octógono de UFC no relvado da Casa Branca, para que sete pares de homens lutassem diante de si e do país, ofereceu ao mundo um espetáculo. Mas o espetáculo foi talvez o menos importante do que ali se viu, porque o que este evento exibiu foi uma definição: uma definição de masculinidade. A ligação de Trump aos desportos de combate é já antiga, tendo recebido lutas no seu casino de Atlantic City em 2001, quando figuras maiores do Partido Republicano, como John McCain, ainda faziam campanha pela ilegalização daquilo a que chamava human cockfighting. Seria, por isso, fácil ler o episódio como mais um capítulo do gosto do presidente pela luta, pelo excesso, pelo espetáculo e pelo desrespeito institucional a que já nos habituou neste segundo mandato. Mas essa leitura não parece captar o aspeto mais relevante desta demonstração. Num momento em que Trump perde apoio entre os homens mais jovens, descontentes com a falta de vontade ou incapacidade do Presidente em melhorar as suas condições económicas, aquilo que lhes faz chegar da Casa Branca é, em vez de uma solução político-económica para as suas ansiedades, uma imagem cuidada daquilo que, para esta direita, um homem deve ser. Todo este evento é o reflexo de uma tese sobre a masculinidade, e é como tal que merece ser lido.

A conceção de masculinidade que percorre o trumpismo na sua segunda encarnação tem uma forma reconhecível e o seu centro é a ideia de domínio. Ser homem, nesta gramática, mede-se pela posição de superioridade que se ocupa sobre os outros, e como a superiorização pressupõe sempre alguém colocado por baixo, esta masculinidade exige estruturalmente um subordinado: uma mulher que obedeça, um adversário que se vença, um inimigo que se aniquile, encontrando apenas no rebaixamento do outro a confirmação de si mesma.

A esta ideia de domínio sobrepõe-se a de reconquista, uma vez que a virilidade é aqui apresentada como resposta a uma usurpação, como devolução de um estatuto que teria sido roubado aos homens, o que a mantém permanentemente irritada e voltada para um passado idealizado (nunca concretizado) em que esse domínio estaria garantido. E uma vez que o domínio, na verdade, nunca está garantido, acrescenta-se-lhe a exigência da performance, a obrigação de exibir a virilidade sem descanso, de a provar e reprovar a cada momento sob pena de a ver, ou, pior ainda, que os outros a vejam, dissolver-se. Domínio, reconquista e performance compõem uma só conceção de masculinidade observada de três ângulos e foi dela que esta direita fez bandeira.

A matéria de que esta visão se alimenta tem, na sua origem, um fundamento real e seria um erro tratá-la como invenção pura. Muitos dos homens para quem Trump fala enfrentam a impossibilidade de cumprir o modelo de que se julgam herdeiros, o de sustentar uma casa e uma família com um só ordenado, porque a economia contemporânea há muito deixou de o comportar. A perda de estatuto que daí decorre é autêntica. O que esta direita faz com essa perda é o ponto decisivo, porque em vez de a tratar pelo que ela é, um problema de natureza económica e de habitação, traduz a privação económica em privação de virilidade, persuadindo o homem de que o que lhe foi tirado foi autoridade e de que a culpada dessa subtração não é a economia mas a emancipação das mulheres. A operação é tão eficaz quanto desonesta, porque substitui uma resposta material, que custaria dinheiro, implicaria reformas económicas e políticas reais, por uma resposta identitária, que nada lhe custa, oferecendo um culpado onde faria falta uma política.

Para se entender melhor este fenómeno, há que olhar para as suas principais figuras. Doug Wilson, líder religioso baseado em Moscovo (não há coincidências), no Idaho, que ao longo de cinco décadas edificou um pequeno império teológico cuja influência cresceu ao ponto de ter sido convidado a conduzir uma oração no Pentágono em fevereiro, defende que ao marido, enquanto cabeça da família, compete o domínio sobre o aparência, os gastos e os hábitos da mulher. Da mesma forma, defende que as mulheres não devem exercer cargos públicos e apela à revogação da 19ª Emenda que permitiu o sufrágio feminino. Pete Hegseth, atual secretário da Defesa (ou como ele agora prefere ser chamado Secretário da Guerra) e membro da mesma congregação reconstrucionista fundada por Wilson, exige às forças armadas violência avassaladora e nenhuma misericórdia para com o inimigo, e enuncia-a como mando sobre o adversário externo. Nick Fuentes, comentador de extrema-direita que lidera entre os mais jovens a rede difusa online de trolls conhecida como Groypers e que se notabilizou pela sua misoginia e racismo explícitos, descreveu já as mulheres como o principal inimigo político e, traçando a analogia com o modo como Hitler aprisionou os seus rivais, defendeu que se fizesse o mesmo às mulheres, enviando-as para “gulags de reprodução”. O que os aproxima não é o grau, que vai do conservadorismo religioso de Wilson e Hegseth ao extremismo de Fuentes que nenhum dos outros subscreveria abertamente, mas são três registos que, de forma distinta, expõem a ideia segundo a qual ser homem consiste em dominar e se superiorizar ao outro.

Esta união de fundo explica o facto de a masculinidade, ou melhor o masculinismo, se ter tornado o principal elemento unificador de uma coligação dividida em quase tudo o mais. A direita MAGA está fraturada quanto ao protecionismo económico e às tarifas, quanto ao apoio a Israel, quanto à Inteligência Artificial, quanto ao intervencionismo militar, e essas clivagens deram já em discórdias públicas e feias (basta relembrar o que foi dito aquando da saída de Marjorie Taylor Greene ou Thomas Massie da esfera de Trump).

Uma masculinidade definida como domínio tem a vantagem de não pedir acordo sobre nenhuma dessas matérias, porque funciona como hierarquia e a hierarquia subscreve-se sem que seja preciso concordar no resto. Tanto um nacionalista cristão como Doug Wilson, como um tecnólogo libertário como Elon Musk podem não concordar com muitas das posições políticas um dos outro e reconhecer-se ainda assim na mesma imagem do homem, homem branco em particular, que é vítima da sociedade liberal, de uma suposta opressão feminista ou woke. E é por isso que esta direita encontra aqui a sua cola e não numa doutrina política per se.

E são posições que são cada vez menos “de franja”. Um inquérito de 2025 do King’s College e da Ipsos, revelou algo que contraria a expectativa de que cada geração será mais igualitária do que a anterior: os homens da Geração Z, nascidos entre 1997 e 2012, mostram-se em várias destas matérias mais conservadores do que os próprios baby boomers, nascidos entre 1946 e 1964. Entre os homens da Geração Z, 28% consideram que um pai que fica em casa com os filhos é menos homem, contra apenas 12% entre os boomers, e 31% concordam que uma mulher deve sempre obedecer ao marido, contra 13% na geração mais velha. A conceção de virilidade aqui em causa é, portanto, uma reversão histórica que ganha precisamente entre os mais novos.

O que estes homens parecem então querer é um regresso (ou retrocesso), a recuperação de uma masculinidade tradicional e autêntica que o feminismo e a modernidade teriam corrompido. Mas o modelo fixo a que dizem  querer voltar nunca existiu. Não há um momento original da masculinidade a recuperar, não há um padrão estanque do que é ser homem que atravesse incólume os séculos e para o comprovar basta recorrer à história. Luís XIV, o monarca mais poderoso da Europa do seu tempo, governava de saltos altos encarnados, meias de seda e perucas encaracoladas sem que ninguém lhe pusesse em causa a virilidade. Reagan, Eisenhower e George W. Bush foram cheerleaders na juventude, num tempo em que isso passava por exercício tão viril quanto qualquer outro. A masculinidade a que estes jovens julgam regressar é, por isso, uma invenção retro-projetada, uma essência fabricada no presente e atribuída a um passado que nunca a teve. É também segundo esse critério inventado que James Talarico, o candidato democrata ao Senado pelo Texas, pode hoje ser desqualificado como homem por não comer carne e insinuado como sendo homossexual pela boca de Stephen Miller — um dos mais influentes conselheiros de Trump.

O sinal mais surpreendente encontra-se, porém, no entusiasmo com que muitas mulheres abraçam esta forma de pensar. Neste ponto, a cimeira de liderança feminina que a Turning Point USA realizou em San Antonio no início deste mês oferece um retrato curioso dessa adesão. Apresentada como um encontro para promover a liderança das mulheres, a conferência consistiu sobretudo numa sucessão de oradoras a ensinar as participantes a servir em vez de liderar, presidida por Erika Kirk, viúva de Charlie Kirk e atual diretora da organização. Entre as oradoras principais estava Savanna Faith Stone, uma influencer de 21 anos com mais de 800.000 seguidores nas redes sociais, que defende a supressão do voto feminino e a sua substituição por um voto único atribuído a cada agregado familiar e exercido em exclusivo pelo marido. A submissão ao marido é, na sua visão, apresentada quase como gesto de rebeldia numa cultura dominada pelo feminismo. A mensagem do encontro foi, no seu conjunto, dissonante, oscilando entre quem ainda reivindicava para as mulheres uma carreira e uma voz e quem as encorajava a abdicar de ambas. O que salta à vista é talvez a contradição mais crua de todas: mulheres a usar o seu direito à participação política para defenderem a revogação desse mesmo direito.

Talvez a ironia mais profunda esteja no facto de que muitas das figuras que hoje reivindicam a defesa de uma sociedade cristã raramente encontram em Jesus a sua principal referência quando falam de masculinidade. A imagem que emerge desta nova direita aproxima-se mais do imaginário romano do poder, da conquista e do domínio, do gladiador na arena, do que da figura central do próprio Evangelho. Jesus não trata a autoridade como licença para se elevar acima dos outros: lava os pés aos discípulos, aproxima-se dos marginalizados, e quando Pedro levanta a espada perante os soldados manda-o guardá-la. A distinção importa.