“Olha, atacaste a casa de alguém muito importante na Grã-Bretanha. Envio-te o dinheiro, precisas de sair da cidade.” Esta foi a mensagem recebida pelo ucraniano Roman Lavrynovych, de 23 anos, pouco antes de ser preso por atear fogo a uma casa em Londres. O que o jovem não sabia era que o seu alvo tinha sido uma das casas do primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer.
Roman Lavrynovych foi considerado culpado esta segunda-feira de conspiração para atear fogo com o objetivo de colocar vidas em risco, tal como o seu cúmplice, Stanislav Carpiuc, de 27 anos, nascido na Ucrânia mas com nacionalidade romena e moldava. Esta dupla foi a responsável por vários ataques que visavam a casa e um carro de Keir Starmer. Mas não agiu apenas por ideologia. A motivação foi monetária. E está relacionada com EL Money — ou melhor dizendo, Evgeny Lyukshin, de 23 anos, filho de um alto dirigente que trabalha no Ministério dos Negócios Estrangeiros russo.
Evgeny Lyukshin estudou no afamado Instituto Estatal de Relações Internacionais de Moscovo, organismo herdado da União Soviética e que treina diplomatas e espiões russos. É filho de um diplomata sénior da Rússia, que trabalhou na embaixada russa na Dinamarca. Tendo em conta este historial, não admira que uma grande investigação da BBC tenha desvendado que foi este jovem de 23 anos foi um dos cérebros dos ataques perpetrados em 2024 contra Keir Starmer.
Nas mensagens em canais de Telegram e outras redes sociais, EL (abreviatura que usava nas redes sociais) criticava duramente a Ucrânia, glorificava Vladimir Putin e descrevia o Presidente russo como o líder da “raça branca”. Era nestes grupos que Evgeny Lyukshin procurava quem realizasse o trabalho sujo no Reino Unido. O jovem de 23 anos apelava a que a “raça branca eslava” se juntasse numa espécie de “Terceira Roma” para a “glória da nação” e para “confrontar inimigos” dentro do Reino Unido.
O que oferecia Evgeny Lyukshin para quem confrontasse “os inimigos da Rússia”? Mil dólares (cerca de 863 euros) e um passaporte. Foi assim — num grupo nas redes sociais em que ucranianos procuravam trabalho em Londres — que o filho do diplomata russo contratou Roman Lavrynovych. Inicialmente, as tarefas eram aparentemente inofensivas: colar pósteres e fazer grafítis. Contudo, foram evoluindo ao longo do tempo, culminando na ordem para atear fogo a propriedades diretamente ligadas a Keir Starmer.
À BBC, o investigador Vitaly Sova explicou que os ucranianos pró-russos são o alvo ideal para as redes de sabotagem de Moscovo. “É mais fácil para os russos desta forma, porque denigre a imagem da Ucrânia perante os seus parceiros e os países europeus”, assinalou. A idade é outro fator de peso: os mais jovens procuram “dinheiro fácil” e são mais ingénuos. Inicialmente, aceitam realizar tarefas simples, mas acabam mais tarde por ser chantageados para cometer atos de sabotagem muito mais graves e elaborados.
A investigação da BBC mostrou também que os objetivos do filho do diplomata russo eram muito mais sofisticados do que pareciam à primeira vista. Evgeny Lyukshin era um dos mentores do grupo online Direct Action UK, uma organização ligada à extrema-direita cujo propósito era gerar o caos e dividir a sociedade britânica. Através deste grupo, eram difundidas mensagens anti-islâmicas e oferecidas recompensas financeiras a quem atacasse mesquitas e agentes da autoridade.
No entanto, Evgeny Lyukshin jogava em vários tabuleiros ao mesmo tempo. Em paralelo com o apoio ao Direct Action UK, o jovem de 23 anos ajudou a criar uma suposta organização islâmica chamada Takbir Foundation, que recrutava muçulmanos para fazer grafítis em locais sagrados no Reino Unido. Na verdade, este segundo grupo era apenas uma fachada controlada por Moscovo para inflamar os ânimos da extrema-direita e provocar protestos violentos nas ruas.
As ligações ao Kremlin são profundas. Além de o pai trabalhar no Ministério dos Negócios Estrangeiros, Evgeny Lyukshin gabou-se em várias mensagens de que o progenitor tinha acesso a documentos confidenciais da CIA e da NATO. O jovem de 23 anos mantinha também ligações diretas a Mikhail Zvinchuk — um homem sancionado pelo governo britânico devido à sua proximidade a Vladimir Putin e aos grupos criados pelo Presidente russo para difundir propaganda pró-russa.
Apesar de todas as ligações descobertas pela investigação da BBC, o tribunal acabou por desvalorizar o papel de Evgeny Lyukshin esta segunda-feira. O julgamento focou-se estritamente nos motivos financeiros dos dois jovens, deixando de fora, como explica a estação britânica, a verdadeira motivação ideológica por trás destes ataques.