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Sobre o aborto e preconceitos…

A revolta contra os que se opõem a que o aborto seja uma prática aceitável dirige-se ao mensageiro quando, na verdade, o incómodo vem da mensagem em si.

Luís Manuel Pereira da Silva
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E se olhássemos para o umbigo?

Dizemos, inúmeras vezes, dos narcisistas que só olham para o umbigo. Mas antes olhassem, pois o umbigo é a parte do corpo que mais claramente nos diz, (aliás, de forma inequívoca), que é uma ilusão acharmos que não precisamos dos outros ‘para nada’.

Bem pelo contrário.

O umbigo é o sinal que resta de uma ligação na qual dependemos, de forma total, de um outro; neste caso, de uma outra pessoa: a nossa mãe.

Olhar para o umbigo será, afinal, uma oportunidade para nos vermos, humildemente, na condição de indigentes, dependentes dos outros.

Quem dera, afinal, que os ‘narcisistas’ perguntassem ao umbigo o que ele tem, verdadeiramente, a dizer-lhes! Talvez eles, então, se ‘desumbigassem’ do primeiro sentido e despertassem para o segundo. Talvez deixassem de se refletir ao espelho das águas – como Narciso – e elevassem o olhar para os outros a quem tanto devem.

Vem esta reflexão a propósito de uma notícia um tanto ‘engenhosa’ que vi, recentemente, numa rádio de referência nacional, que dava conta de que, alegadamente, o bispo das Canárias afirmara que «há quem defensa o respeito pela vida quando se trata do aborto, mas queira que se corte a cabeça aos imigrantes».

Este título dava um tratado sobre jornalismo.

Não apenas pelo que significa de instrumentalização da ‘surpresa’ do leitor no sentido de aumentar audiências (algo semelhante a uma publicidade enganosa), mas também pelo que denuncia de preconceito vincado que recai sobre os que se dizem defensores da vida humana intrauterina.

Classicamente, poderíamos dizer que o tratado poderia incidir sobre elementos de ordem formal e de ordem material.

Mas deixemos para outras discussões a oportunidade que tal peça jornalística nos proporciona.

Incidamos a atenção no que, efetivamente, o título permite analisar em si mesmo.

Vem de longe o meu envolvimento na defesa da vida humana nas suas fases mais frágeis (no início e no final). Envolvi-me na preparação do referendo de 1998, ainda com 25 anos, integrei o grupo que fundou a ADAV-Aveiro, participei, novamente, na campanha do referendo de 2007, e tenho feito desta uma das minhas mais significativas causas. Não apenas refletindo e partilhando a reflexão, mas envolvendo-me na procura de formas de acolhimento que permitam sonhar com uma sociedade em que a todos seja permitido nascer.

Encontrei muitíssimas motivações nos que me acompanharam, ao longo destes cerca de trinta anos. Encontrei crentes e não crentes, encontrei pessoas que tinham abortado e tinham ‘despertado’ (o autêntico ‘woke’) para o que tinham feito, encontrei pais e mães, outros que o tinham desejado ser e que se sentiam ofendidos por alguns entenderem ser legítimo abortar quando, para eles, um filho era uma miragem; encontrei razões e sensibilidades. Mas confesso que não encontrei hipócritas, apesar das inúmeras vezes em que ouvi essa acusação. Jamais encontrei, entre os nossos, quem quisesse ‘cortar a cabeça a um imigrante’. Parece-me quase ofensivo vê-lo dito assim.

Ouvi, vezes sem conta, acusações sobre a pretensa atitude de julgamento de quem se opõe ao aborto – talvez alguns julguem (fazer juízos é próprio de quem utiliza as capacidades intelectuais) – mas senti, pelo contrário, que, muitas vezes, a revolta contra os que se opõem a que o aborto seja uma prática aceitável dirige-se ao mensageiro quando, na verdade, o incómodo vem da mensagem em si. Os alvos exteriores (os que são contra a legitimação do aborto) tornam expresso o incómodo da consciência que se quer obnubilar e abafar.

É por isso que convém o discurso que menoriza quem alerta para o que está em causa. Diminuir o mensageiro diminui a força da sua mensagem.

Mas a verdade emerge como brasa que se quer apagar com um pano humedecido.

Entre as inúmeras situações que o confirmam ouvi a história de mulheres cujo filho abortado (que, porém, nunca viram) preenche os seus frequentes pesadelos.

Para mais, encontrei, entre os que têm feito este caminho comigo, gente genuína, que não só não julga como acolhe, recebe, de mãos e braços abertos, aquelas mulheres que desejam ou desejaram ter os seus filhos, mas que os envolventes abandonaram na sua solidão e na dolorosa condição de decidirem desfazer-se de um filho que não conceberam sozinhas. Nessa hora, foi entre os que sabem que um filho é um filho (ponto!) e merece ver-lhe garantido o direito a nascer que encontraram o acolhimento que mais ninguém ofereceu.

Mesmo, como no caso da Vinha de Raquel, para aquelas mães que abortaram os seus filhos e andam em busca de fazer um luto que outros querem negar que seja justificado.

Encontrei, também, bem certo, gente que ‘ferve’ perante a insensibilidade coletiva que passou a olhar para o aborto como uma ‘contraceção pós-conceção’, de que só se desperta quando o filho cai na bacia, estropiado e desfeito. ‘Ferve’, mas sabe que a vida é dom, intocável e sagrada, associando, por isso, um pronunciado sentido de coerência em proteger a vida humana e dela sempre cuidar.

Encontrei gente que, como Norberto Bobbio, laico e socialista, – que o afirmara, na Itália da década de oitenta, em plena discussão sobre esta matéria -, que não se pode deixar aos crentes o monopólio da defesa da vida humana.

Muitas razões encontrei… Muitas sensibilidades…

Mas, principalmente, honestidade e autenticidade. E, acima de tudo, perplexidade. ‘Como é possível que se tenha aceitado uma manipulação tal que o que, há poucas décadas, era inadmissível, se tornasse, não só legítimo, mas, inclusive, um ‘putativo direito’?’

É disto que se faz a defesa da vida humana. Da assunção pessoal das dores e da voz dos que não têm outra voz.

Se os que se opõem ao reconhecimento de que seja legítimo impedir um filho de nascer viessem a ser calados e totalmente derrotados, e se todas as mulheres do mundo decidissem que esse hipotético direito (a abortar) era para ser exercido, sempre (porque se tem de admitir a possibilidade de que um direito seja exercido, sempre), o que sobraria senão o silêncio e o apagar do amanhã?

Ao silêncio dos opositores ao aborto suceder-se-ia o silêncio de todos, afinal.

Voltemos, por isso, a olhar para o umbigo e deixemo-lo falar do tempo em que todos nós, portadores de umbigo, um dia dependemos de uma mãe que sabia que existíamos antes de que ela própria soubesse; uma mãe de quem dependemos, totalmente, e que dessa dependência total fez a sua grandeza – a de não desistir de nós!