Quando desviou pela linha de fundo um cabeceamento de Aymeric Laporte na sequência de um canto já em período de descontos da primeira parte, Vozinha fez aquele esgar de desgaste de quem parece que começa a dar as últimas. Puro engano. A sensação até podia ser essa. De quando se joga com amigos, sai-se da baliza para dar uns sprints e o olhar parece que já não é o mesmo quando se volta para trás. No entanto, aquilo que ficou foi alguém que parecia ao mesmo tempo de plástico, de ferro e de aço – apesar das queixas no gémeo que comentou com os fisioterapeutas. No final de um encontro histórico onde tudo funcionou como uma conjugação cósmica, a emoção era tanta que não havia sequer vestígio de cansaço. E se dúvidas existissem, a forma como Stopira apontava para o guarda-redes após olhar para cima dizia tudo: era ele o MVP do jogo.
https://observador.pt/2026/06/15/a-esperanca-do-tamanho-do-mar-que-fez-historia-para-contar-aos-netos-e-as-vozinhas-a-cronica-do-espanha-cabo-verde/
A imprensa estrangeira foi-se dividindo na análise ao jogo. Em Espanha, entre lamentos pela dececionante exibição da Roja, houve memórias da partida que eliminou a equipa de Luis Enrique no Qatar com Marrocos (catalogando Cabo Verde como “a equipa mais limitada do Mundial”…). Em Inglaterra, sobraram elogios à capacidade de resiliência dos africanos, “que vieram do lugar que deve ser nesta altura o mais feliz de todo o mundo”. Em Itália ou em França, um misto entre o demérito espanhol e o mérito cabo-verdiano, ainda sem alarme especial para uma das equipas candidatas a vencer a prova. Onde se falou mais da surpresa e sobretudo de Cabo Verde? No Brasil, foi a loucura. Por Cabo Verde, pelo resultado, por Vozinha.
– Sabe quantos seguidores tem no Instagram?
– Tenho cerca de 40 e tal mil, penso eu…
– E tem ideia de quantos poderá ter agora?
– Falaram ali que tinha quase meio milhão mas não sei…
– Nãooooo…
– Ainda não fui ao meu Instagram, tenho medo que fique bloqueado…
https://twitter.com/B24PT/status/2066596912325599508
Quando a jornalista da CazeTV na zona mista mostrou o número a Vozinha, simplesmente não estava mesmo a querer acreditar no que se passava. “Isto é uma coisa de loucos, de loucos”, dizia o guardião. “Estivemos a torcer por você, que partida, cara… Parabéns, muitos parabéns também pela sua história. O Brasil está com você, o Brasil parou”, ouviu, ainda com aquela cara de quem não está a querer acreditar em tudo. Naquela altura já tinha superado um milhão de seguidores, umas horas depois ia nos dois milhões, perto das 23h em Portugal, quatro horas depois da partida, estava na fasquia dos três milhões. Josimar Dias apresentou-se ao mundo como Vozinha, o mundo que viu Vozinha queria agora conhecer mais de Josimar Dias.
https://twitter.com/sporttvportugal/status/2066565277039378881
Nascido na ilha de São Vicente, criado pelas avós pela necessidade de trabalhar dos pais (o pai cumpria o seu serviço militar, a mãe tinha vários trabalhos para trazer dinheiro para casa), o guarda-redes começou a jogar no Batuque, passando depois para o Mindelense. Transferiu-se depois para os angolanos do Progresso de Sambizanga, onde passou de Josimar a Vozinha por duas razões: não confundir com outro jogador que tinha esse nome e… assumir a alcunha que tinha ganho quando era mais novo nos jogos a brincar na rua.
https://twitter.com/SportsCenterBR/status/2066643791159710107
“Na minha zona, os rapazes eram muito mais velhos. E eu jogava sempre na rua, levava sempre muita pancada. Mas também jogava muito bem com os pés, era competitivo e rebelde, não gostava de perder. Levava muita porrada e, sempre que não conseguia dar o troco, ia para casa com raiva, de cara fechada. Eles ficavam a gozar, a dizer que eu ia queixar-me aos meus avós. Era o Vozinha e ficou”, contou numa entrevista que concedeu à FIFA. Mas existe uma outra curiosidade em torno do nome original e não da alcunha, que foi também recuperado pela imprensa brasileira: perante a impossibilidade de se chamar Valdano, como o antigo jogador e treinador argentino que se tornou numa espécie de senador do futebol, o pai batizou-o de Josimar em homenagem ao antigo lateral direito canarinho que estava no Mundial de 1986.
https://twitter.com/playmaker_PT/status/2066601459492311074
Até por toda essa influência, a carreira teria de passar pelo futebol. Pelo futebol e por várias realidades, que tiveram passagens por Cabo Verde, Angola, Moldávia (Zimbru), Chipre (AEL Limassol), Eslováquia (Trencin) e Portugal, onde esteve no Gil Vicente em 2016/17 e voltou sete anos depois para representar nas duas últimas temporadas o Desp. Chaves, na Segunda Liga. Nesta altura, Vozinha é um jogador livre, depois de ter terminado a ligação aos transmontanos. Outro dado curioso que não passou ao lado de ninguém: o guarda-redes cabo-verdiano de 40 anos tem um valor de mercado pelo Transfermarkt de apenas 50 mil euros…
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Toda essa história “casou” com as várias intervenções que foi fazendo ao longo da partida com a Espanha (num total de sete) e fez com que Casimiro Miguel, criador da CazéTV que tem transmitido jogos em parceria com a LiveMode TV, começasse quase a pedir para que todos os brasileiros apoiassem Vozinha, um pouco como tinha acontecido antes do Mundial com o neozelandês Tim Payne, jogador que foi descrito como “o menos conhecido de toda a prova” pelo criador de conteúdos argentino Valen Scarsini e que passou de apenas 5.000 seguidores para o impensável número de 5,7 milhões. Vozinha, nesta altura, conseguiu passar de menos de 5.000 para mais de 3,5 milhões de seguidores – mas é uma questão de tempo até lá chegar…
https://twitter.com/DAZN_ES/status/2066601305930363265
A grande exibição de Vozinha trouxe consigo também um lugar na história a vários níveis. Nono jogador mais velho de sempre a jogar num Mundial aos 40 anos e 12 dias, o cabo-verdiano tornou-se o titular mais velho de sempre a não sofrer golos e logo no encontro de estreia numa fase final do Campeonato do Mundo, tendo em conta que o colombiano Faryd Mondragón, de 43 anos, jogou apenas seis minutos em 2014. Mais: com a entrada de Lamine Yamal em campo no decorrer da segunda parte, Vozinha e a estrela do Barcelona tornaram-se a dupla com maior diferença de idades em campo num Mundial com uma separação de 21 anos e 45 dias, superando o recorde entre o inglês David James e o argelino Ryad Boudebouz.
https://twitter.com/_Goalpoint/status/2066586858503430534
Também Cabo Verde conseguiu um registo histórico no nulo frente à Espanha como não se via desde o Mundial de 1966, realizado em Inglaterra e onde Portugal conseguiu a sua melhor prestação de sempre com um terceiro lugar: a formação africana cometeu apenas uma falta durante todo o jogo (de Sidny Lopes Cabral na primeira parte, que o deixou logo com amarelo), algo que não acontecia há 60 anos.
https://twitter.com/geglobo/status/2066575665403433458
A noite de sonho do guardião de 40 anos só não foi perfeita a 100% por uma ausência que não conseguiu impedir que acontecesse: a da mãe. “Esta é uma mensagem de obrigado a todos em Cabo Verde. Estamos muito felizes com aquilo que conseguimos, este grupo de jogadores trabalhou muito para poder viver este momento. É um dia para estarmos satisfeitos e orgulhosos. Porque chorei no fim? Porque fui criado quando era pequeno pelos meus avós e eles não podem estar cá, morreram há alguns anos. A minha mãe também não conseguiu vir porque teve um problema com o visto e com o dinheiro que era preciso pagar. Não conseguimos resolver isso a tempo”, confidenciou depois do encontro na zona mista ao The Athletic, que fez depois a questão ao Departamento de Estado dos EUA sobre o sucedido (não tendo ainda uma resposta).
https://twitter.com/eurofootcom/status/2066606039789912264
“Sonhei toda a minha vida com este momento, em estar nestes palcos. Consegui contribuir com a minha experiência. Esperámos por este momento e estamos muito felizes. Sabíamos que não seria fácil, pois a Espanha é uma das melhores seleções do mundo, mas estamos satisfeitos e agora é continuar a trabalhar. Tenho também de agradecer a todos os cabo-verdianos, os que estiveram no estádio e os que estiveram espalhados pelo mundo. Para mim é uma honra representar o país que amo. Somos de um sítio pequeno, a nossa qualificação foi também um caminho muito complicado. Hoje cumprimos o nosso sonho e estou muito orgulhoso com todas as pessoas envolvidas no processo”, tinha destacado antes na zona mista.
https://twitter.com/AtaqueFutbolero/status/2066591488536961202
“Houve muita emoção por parte do Vozinha. É um jogador bastante experiente, que lutou durante todos estes anos para conseguir estar aqui, no palco do Mundial. Também é um choro de resiliência. Este empate significa tudo para o nosso país. Queríamos que o mundo visse a nossa equipa. Demonstrámos organização e coragem, e isso mostra o que é o nosso país: resiliência para superar as dificuldades. Para controlar o jogo, não é preciso ter apenas a posse. Controlámos o jogo de outra forma, com a nossa organização. Um empate é sempre um empate. Obviamente que nos dá algo mais para os outros dois jogos mas continuamos com os pés assentes na terra. Sabemos que será difícil até ao último jogo”, salientou também o selecionador Bubista.