Portugal tem em curso o maior programa de financiamento europeu em décadas, com mais de 40 mil milhões de euros mobilizados, e ainda assim algumas das empresas mais inovadoras do país continuam a ficar fora. Não por falta de ambição, mas porque os programas disponíveis raramente foram desenhados para contemplar o modelo de empresa que mais inova hoje, e os critérios de avaliação continuam a projetar uma lógica tradicional sobre um ecossistema que é muito mais dinâmico.
Ao longo do último ano, trabalhei com centenas de startups e PME em processos de candidatura. O padrão dita que as empresas com mais tração, mais risco tecnológico e mais impacto potencial são precisamente as que mais frequentemente se deparam com critérios que não reconhecem o que fazem.
Tenho dois exemplos que ilustram o problema com clareza. Uma startup com rondas de investimento fechadas, faturação significativa e fundadores com historial comprovado de criação de empresas foi reprovada numa candidatura com o argumento de que a equipa não tinha capacidade para executar um projeto que valia 30 mil euros.
Noutra situação, uma empresa com software reconhecido internacionalmente por grandes players do setor foi rejeitada por uma entidade avaliadora com o argumento de que a inovação proposta não era substancial. Depois de enviada uma demonstração do produto, a posição manteve-se.
Estes são exemplos de um problema estrutural em que as entidades avaliadoras tendem a julgar startups com os critérios de uma PME tradicional. E uma startup, por definição, é o oposto de uma PME tradicional. Cresce de forma não linear, aposta em inovação que ainda não tem mercado estabelecido, opera com lógicas de risco que não cabem nos formulários.
O problema agrava-se ainda mais quando se percebe quem avalia. Em vários processos de que tivemos conhecimento direto, os avaliadores eram investigadores com forte preparação técnica, mas sem experiência de mercado. Ou seja, percebem de tecnologia em contexto laboratorial, mas não percebem o que é desenvolver uma solução para vender. São duas realidades distintas, com critérios de sucesso completamente diferentes e, neste sentido, emitem pareceres sobre a viabilidade comercial de produtos de mercado sem nunca terem desenvolvido um.
O relatório Draghi, publicado em setembro de 2024, identificou algo semelhante à escala europeia, alertando que a Europa tem dificuldade em transformar investigação em produtos de mercado, bloqueando o processo para as empresas inovadoras que querem escalar.
Em Portugal, este problema tem uma dimensão adicional, uma vez que o país tem uma dependência significativa dos fundos europeus. Quando estes instrumentos não chegam às empresas certas, o potencial de crescimento desperdiça-se internamente: os projetos não avançam, as contratações não acontecem e as decisões que definem a trajetória de uma empresa ficam por tomar. Naturalmente, estas decisões têm repercussões diretas na forma como Portugal se posiciona competitivamente em relação a outras economias europeias.
A questão aqui não é se os fundos existem. Existem, e em volume sem precedente, mas muitos foram estruturados com critérios de elegibilidade que excluem à partida as empresas em fase inicial: pedem histórico financeiro, faturação mínima ou garantias que uma startup por definição ainda não tem.
É por isto mesmo que devemos questionar se estes fundos chegam a quem devia recebê-los, e se o critério de sucesso de uma candidatura continuará a ser a capacidade de ultrapassar a burocracia em vez da qualidade do projeto.
A resposta passa por duas mudanças concretas: rever os perfis dos avaliadores, incluindo pessoas com experiência na criação e gestão de empresas, e reformular os critérios de elegibilidade e avaliação para que estes reconheçam as especificidades das empresas em fase inicial, que inovam sem o historial financeiro ou a estrutura tradicional que os formulários continuam a exigir. Só dessa forma os fundos europeus cumprem o papel para que foram criados, chegar às empresas certas.