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(A) :: "Eles são os campeões da Europa, mas nós somos os campeões da cachupa." A estreia de Cabo Verde, o país que grita por Vozinha para ter voz

"Eles são os campeões da Europa, mas nós somos os campeões da cachupa." A estreia de Cabo Verde, o país que grita por Vozinha para ter voz

A 10 horas de avião e seis mil quilómetros de Atlanta, a Cova da Moura assistiu à estreia de Cabo Verde em Mundiais na rua, de camisola vestida, com música e um único herói nacional: Vozinha.

Mariana Fernandes
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Diogo Ventura
photography

6.700 quilómetros separam Atlanta, nos EUA, e a Cova da Moura, em Portugal. São 10 horas de avião, um percurso que cruza todo o Oceano Atlântico, cinco horas de diferença no que toca ao fuso horário. Esta segunda-feira, porém, Atlanta e a Cova da Moura estavam unidas por uma bandeira, um arquipélago, um país — e nunca foi tão fácil fazer 6.700 quilómetros no espaço de segundos. 

A meio do mês de junho, ainda dentro da primeira semana do Mundial 2026, Cabo Verde estreou-se de forma absoluta em Campeonatos do Mundo. Depois do inédito apuramento, a seleção africana orientada por Bubista cumpria o sonho de realizar minutos na maior e melhor competição de seleções do mundo, ombreando com as principais equipas e alimentando a quimera de, tal como todos os outros, poder chegar aos 16 avos de final.

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Esta segunda-feira, no primeiro dos três jogos do Grupo H, Cabo Verde defrontava Espanha — a campeã europeia Espanha, uma das favoritas a conquistar o Mundial 2026 e uma autêntica constelação de estrelas, entre Lamine Yamal, Gavi ou Pedri. Em Atlanta, dias depois da animada chegada aos EUA que até contou com uma receção dos funcionários cabo-verdianos do Aeroporto Internacional de Boston, os africanos entravam em campo com a clara noção de que o único objetivo era sobreviver ao máximo, procurar não sofrer golos e correr atrás do impossível sempre que possível. No bairro da Cova da Moura, na Amadora, ninguém pensava em objetivos. Só mesmo em alegria.

Quis o destino que o primeiro jogo da história de Cabo Verde num Campeonato do Mundo acontecesse no mesmo dia em que, no Tribunal de Sintra, terminasse o julgamento sobre a morte de Odair Moniz — cidadão cabo-verdiano que em outubro de 2024 morreu ali mesmo, na Cova da Moura, baleado por um agente da Polícia de Segurança Pública (PSP). Menos de uma hora depois de esse mesmo agente ser condenado a três anos e seis meses de pena suspensa, o apito inicial soou em Atlanta e ecoou por todo o bairro da Amadora. Esta segunda-feira, por estranho que pareça, ninguém ali falou em Odair. Só mesmo em Vozinha, Pico, Jovane ou Livramento, algumas das figuras da seleção cabo-verdiana.

O clima era de festa e existia a ideia de que, independentemente do resultado, o dia era de alegria. Afinal, a grande vitória de Cabo Verde já tinha sido alcançada: o histórico apuramento para um Campeonato do Mundo, carimbado em outubro do ano passado na cidade da Praia, contra Essuatíni. Numa das ruas principais da Cova da Moura, um grupo de residentes trouxe uma televisão e uma box para a rua, um móvel reutilizado para servir de suporte, uma enorme coluna para que todos pudessem ouvir os comentários e cadeiras. Cadeiras de esplanada, de café, de praia e de campismo que a dada altura se tornaram escassas para a multidão, que foi evitando a hora e meia em pé ao ir buscar cadeiras às próprias casas.

Numa das maiores comunidades cabo-verdianas de Portugal, quase todos tinham uma camisola da seleção — entre a principal e mais comum, em tons de azul, e a alternativa e mais rara, toda branca. Pelo meio, surgiam bandeiras, lenços, chapéus, bonés, casacos e todo o tipo de acessórios com as cores do arquipélago onde vivem cerca de 500 mil pessoas. O hino foi cantado com emoção, mas a cappella, já que o som só chegou por volta dos 11 minutos e as dificuldades técnicas iam sendo encaradas com calma. Afinal, não era preciso ouvir nada. Bastava olhar para a televisão e perceber que nos EUA, a mais de seis mil quilómetros, 11 cabo-verdianos estavam mesmo a jogar num Campeonato do Mundo pela primeira vez.

Ali mesmo ao lado, numa garagem que servia de bar improvisado, vendia-se cerveja, vinho, refrigerantes, água e o típico grogue, uma bebida alcoólica cabo-verdiana que deriva do líquido da cana de açúcar. As brasas aqueceram assim que o jogo começou e depressa surgiu o cheiro a milho e frango assado, que praticamente todos foram comendo ao longo dos 90 minutos. A multidão que facilmente chegava à centena de pessoas tornou-se cada vez maior à medida que a partida decorria, com famílias inteiras e muitas crianças a ocuparem o largo mesmo junto à escola primária e onde a televisão já era demasiado pequena para todas as cabeças que se acumulavam.

Depois de uma primeira parte mais tímida e nervosa, o intervalo sem golos deu lugar a um segundo tempo de entusiasmo. Cada minuto que passava era mais um minuto em que Cabo Verde não estava a perder com Espanha — e cada defesa de Vozinha, o veterano guarda-redes cabo-verdiano de 40 anos, era celebrada como um golo. “Vozinha, Vozinha, Vozinha”, ouviu-se repetidamente, ao ritmo de um tambor que deixava bem claro que o guardião do Desp. Chaves é um autêntico herói nacional.

Os derradeiros minutos do jogo foram de autêntico êxtase, entre a ideia de que Espanha não iria mesmo marcar e as oportunidades que Cabo Verde chegou a ter. A dada altura, apito final: e uma explosão de alegria. Os comentários televisivos foram substituídos por música, com verdadeiro destaque para o autoexplicativo “Nha Terra” da cabo-verdiana Soraia Ramos, os gritos por Vozinha repetiram-se e o empate contra os espanhóis foi celebrado com uma autêntica vitória.

“Claro que é uma vitória. Quando vimos que o sorteio era contra Espanha achámos logo que íamos perder. Mas tubarão é mau. Eles são os campeões da Europa, mas nós somos os campeões da cachupa”, conta-nos Edson, que nasceu em Santo Antão, cresceu em São Vicente, vive em Portugal há mais de 20 anos, mas só se mudou para a Cova da Moura há escassos meses, recordando que os cabo-verdianos são normalmente denominados de Tubarões Azuis.

É Edson que nos leva pelas ruas do bairro da Amadora, entre o conhecido restaurante “O Coqueiro” que tem fotografias de Marcelo Rebelo de Sousa, Pedro Nuno Santos, João Baião ou Jorge Andrade nas paredes, a esquina onde se vendem camisolas da seleção e os becos onde se festeja o ponto acabado de conquistar nos EUA e quase todas as casas têm uma bandeira cabo-verdiana na janela.

A mais de seis mil quilómetros, Vozinha terminou o jogo em lágrimas, foi eleito o melhor jogador em campo, recebeu os parabéns de Unai Simón e passou de 50 mil para 2,5 milhões de seguidores no Instagram. “Chorei depois do jogo porque cresci com os meus avós e eles não puderam estar aqui, morreram há uns anos. A minha mãe também não estava cá, não conseguiu ter o visto a tempo. Sonhei a minha vida toda com este momento, trabalhei a vida toda para estar nestes palcos. Hoje consegui estar aqui e contribuir com a minha experiência. Estamos muito felizes. Saímos daqui com o empate, estamos satisfeitos com isso e agora é continuar a trabalhar”, disse o guarda-redes na zona de entrevistas rápidas, antecipando desde logo a segunda jornada, contra o Uruguai, no próximo domingo.

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