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(A) :: Uma defesa que ataca as minorias

Uma defesa que ataca as minorias

A defesa das minorias é hoje, na realidade, um ataque às minorias e um caminho aberto a quem queira usar a sua diferença para ganhar vantagens.

Helena Garrido
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Um incidente num ensaio geral no Centro Cultural de Vila Flor em Guimarães transformou-se num caso de racismo com cancelamento do espetáculo, com a atriz e a criadora Isabél Zuaa, assim como a sua equipa, a considerarem que tinham sido vítimas de um acto com contornos racistas.

E que caso foi esse? De acordo com a descrição da própria actriz, depois de um incidente com o microfone envolvendo uma técnica, que abandonou a sala, o diretor técnico entra “de uma forma abrupta, pergunta quem é a Isabél, entra no palco, aponta-me o dedo à cara e diz ‘Ou vais pedir desculpa agora à minha técnica ou não vai haver espetáculo, nem vai haver técnico nenhum aqui’”. E daqui conclui, em declarações ao Público, que “mesmo não tendo dito palavras racistas, é racista na sua conduta.” E acrescenta: “Se eu fosse uma pessoa branca, não iam interromper o ensaio geral e fazer ameaças com o dedo apontado na minha cara”.

Claro que desta descrição ficamos sem perceber o que aconteceu para a técnica que manipulava o microfone ter saído da sala. Isabél e a sua equipa resolveram usar o palco para anunciarem o cancelamento do espetáculo com acusações de racismo. E A Oficina, cooperativa responsável pela gestão e programação do Centro Cultural Vila Flor, acabou por divulgar um comunicado anunciando um processo de averiguações e uma participação ao Ministério Público.

Com estes dados, fornecidos fundamentalmente pela actriz e não havendo declarações das outras partes envolvidas, é muito difícil perceber onde está o racismo. O que vemos são momentos de tensão num ensaio geral com pessoas a descontrolarem-se. Mas a actriz e a sua equipa encontraram aqui um motivo para acusarem os outros de racismo. E, com isto, acabam implicitamente a pedirem que sejam tratados de forma diferente. Com eles ninguém pode perder a cabeça num momento de tensão, com eles ninguém pode cometer o erro de deixar cair o microfone, com eles ninguém pode apontar o dedo ordenando que se peça desculpa porque, se isso acontecer, não é descontrolo ou um momento de falta de educação, é pura e simplesmente racismo.

Este é um caso, ainda que importante, que se limitou ao cancelamento de um espectáculo e, mais grave, a denegrir a imagem de uma pessoa, o director técnico. Mas apesar de menos grave, é impossível não nos recordarmos de casos mais graves, como o da morte, algemado, do jovem de Southampton que foi esfaqueado por um homem que disse à polícia ter sido vítima de racismo.

O que impressiona na actual abordagem ao racismo é a incapacidade de se ver que se está a pedir para que se seja, afinal, racista. E o mesmo se aplica a todas as consideradas minorias, sejam de género ou outras, incluindo as pessoas com deficiência. Qualquer pessoa é hoje, com muita facilidade, considerada racista ou homofóbica se não estiver atenta à sua linguagem. E é difícil perceber em que é que isto contribui para a aceitação da diferença. Ou em que medida hoje aceitamos mais a diferença do que aceitávamos quando não tínhamos este policiamento.

Quando temos de tratar de maneira diferente quem não é da nossa cor ou tem preferências de género que não são as nossas estamos a exacerbar a diferença e não a aceitá-la. Estamos a colocar as pessoas em caixinhas e, na prática, a menorizá-las, a considerar que não são capazes de viver com a sua diferença. É muito difícil perceber como é que quem pertence a minorias – e, na prática, todos nós somos minoria em alguma coisa – não consegue perceber que a forma como hoje se aborda esta questão apenas agrava o fosso entre todos.

Mais grave ainda é tudo isto estar institucionalizado e publicamente aceite. A Oficina viu-se armadilhada, sem margem para rejeitar categoricamente a acusação de racismo, e obrigada a anunciar investigações e participações ao Ministério Público de um incidente de ensaio de um espectáculo.

Repare-se que é difícil imaginar uma outra equipa de artistas a fazer o mesmo que Isabél Zuaa fez. Imagine-se por momentos uma equipa em que todos eram brancos e em que tudo tinha acontecido da mesma maneira. Se calhar o espectáculo não era cancelado nem essa equipa tinha qualquer hipótese de extravasar a sua irritação com o sucedido. Que acusação iria fazer? De má educação? De descontrolo? Não seria notícia.

Temos de começar a perceber que não é por este caminho que combatemos a discriminação. Estamos, isso sim, a aprofundar as diferenças pela irritação que os exageros provocam nas pessoas em geral. Estamos, enfim, a atacar as minorias e a abrir caminho para os que usam a diferença para ganharem vantagens.