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(A) :: Os Faraós transformaram os Diabos Vermelhos em anjinhos (a crónica do Bélgica-Egito)

Os Faraós transformaram os Diabos Vermelhos em anjinhos (a crónica do Bélgica-Egito)

Bélgica voltava a prometer muito, Bélgica voltou a jogar pouco – pelo menos para quem chegava tão confiante. Por demérito próprio, com muito mérito do Egito, que nunca deixou de querer ganhar (1-1).

Bruno Roseiro
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A Alemanha e a Suécia golearam, a Escócia também se safou bem, daí para a frente foram apenas empates ou derrotas das equipas europeias, que tiveram na Espanha, nos Países Baixos, na Suíça e na Turquia as maiores surpresas pelas entradas titubeantes no Mundial. Ainda não se podia propriamente dizer que esta é uma fase final mais virada para continente A ou B, longe disso, mas percebe-se que as equipas europeias irão enfrentar desafios maiores e diferentes do que todas as outras seleções. Agora, a Bélgica era a próxima representante da Europa a entrar em campo frente a um dos conjuntos africanos mais coesos e regulares dos últimos anos. Uma Bélgica que, depois da saída numa fase quase traumática de Roberto Martínez no final do Mundial de 2022, ainda estava à procura de uma afirmação na Last Dance do seu maior artista, Kevin de Bruyne.

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Ali, na cidade de Doha, toda uma geração de ouro capitulou da pior forma. Depois da fantástica campanha até às meias-finais no Mundial de 2018, a Bélgica chegou aos quartos do Europeu de 2020 mas, naquela que seria a despedida de vários pesos pesados da equipa, teve uma campanha errática em 2022, com notícias de vários conflitos internos entre jogadores, resultados que não apareciam e sobretudo a ideia de que todos os nomes com mais experiência pareciam estar à beira de um ataque de nervos em campo (exemplo: Romelu Lukaku no jogo que fechou a fase de grupos com a Croácia, onde falhou várias oportunidades flagrantes na área). Domenico Tedesco teve uma entrada forte mas durou pouco mais do que um ciclo até ao Euro-2024, Rudi Garcia foi o nome que se seguiu para tentar ainda aproveitar o melhor de uma velha geração cruzando-a com uma nova vaga de talentos. E os resultados, até nos particulares, foram aumentando a esperança.

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No entanto, e dentro de um dos grupos mais acessíveis para lutar pela primeira posição, o início surgia como o provável desafio mais complicado nesta fase inicial frente a um Egito que falhou a última fase final mas que mostrava nas campanhas na Taça das Nações Africanas que era a segunda seleção africana com uma maior progressão nos últimos anos a par de Marrocos. Mais: se De Bruyne fazia a sua Last Dance, também Salah estava nesse patamar depois de uma temporada em que jogou menos, marcou menos e foi menos influente no Liverpool (a ponto de ter mesmo anunciado a saída de Anfield), desempenhando um papel um pouco diferente do habitual sem tanto jogo pelas alas e andando mais pelo corredor central, poupando-se no plano defensivo sem bola e mostrando-se mais ao jogo dentro das características que tem agora aos 34 anos.

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Era neste contexto que chegava a abertura do grupo G em Seattle (12h locais), com a Bélgica a tentar cedo o controlo do jogo através da dupla de companheiros no Aston Villa, Tielemans e Onana, com Kevin de Bruyne na frente e Doku e Trossard a alternarem nas alas… sendo claro que ambos preferiam jogar a partir do lado esquerdo. De Bruyne, numa meia distância em posição central, ainda teve o primeiro remate perigoso da partida que passou ao lado da baliza de Mostafa Shoubir (7′) mas cedo se percebeu que os Diabos Vermelhos se estavam a deixar como uns anjinhos na teia montada pelos africanos, que defendiam com muitas unidades e de forma coesa mas olhando sempre para as saídas rápidas em transição. Numa delas, Emam Ashour vestiu o papel de herói, arriscando uma meia distância de fora da área para o golo (19′). Noutra, Mostafa Zico teve uma tentativa do lado direito para grande defesa de Courtois para canto (33′). Assim chegava o intervalo, com o guarda-redes do Real Madrid a evitar nos descontos mais uma tentativa na área de Marmoush.

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A Bélgica tinha de arriscar mais. A Bélgica tinha de correr riscos. A Bélgica tinha de partir o jogo, tendo em conta a nulidade que representou o ataque posicional no primeiro tempo. Kevin de Bruyne, de livre direto, ainda acertou no poste (53′), o Egito respondeu de seguida com Courtois a defender um cabeceamento de Mo Salah antes da recarga ao lado de Ashour (55′), Marmoush teve uma grande arrancada que terminou com um tiro por cima (60′), Tielemans e De Bruyne voltaram a testar a meia distância sem sucesso (63′). Foi aí que Rudi Garcia lançou finalmente Romelu Lukaku em campo. Um minuto depois, na primeira vez que tocou na bola num lance mais atabalhoado, veio o empate, com Mohamed Heny a marcar na própria baliza depois de um cruzamento da direita de Meunier (66′). Estava dado o mote para a reviravolta numa fase em que era a Bélgica que estava por cima mas as mexidas que Hossam Hassan promoveu na equipa acabaram por equilibrar a equipa e deixar o Egito no meio-campo adversário nos minutos finais, depois de uma grande defesa de Shoubir a um desvio de cabeça de Mechelen após bola parada que evitou a reviravolta (84′).

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A estrela

  • Ser a “estrela” do jogo não tem obrigatoriamente de significar ser o “melhor” do jogo. Aliás, quando há um empate, costumam também aparecer múltiplas opções para esse destaque. Aqui não foi exceção: os dois guarda-redes, Courtois e Shoubir, que tiveram intervenções importantes em momentos decisivos, Meunier sobretudo na segunda parte, os dois elementos mais centrais do meio-campo egípcio, até Marmoush e Trossard quando tiveram um pouco mais de espaço. No entanto, os treinadores também podem ter um papel importante e a forma como Hossam Hassan equilibrou a equipa depois da entrada de Lukaku sem perder o foco na baliza contrária, assumindo também a saída de Salah para manter unidades rápidas na frente, mostrou que o Egito tem todas as condições para alcançar a sua primeira vitória de sempre em Mundiais (que agora pode surgir contra Nova Zelândia ou Irão).

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O joker

  • Formado no Ghazl El Mahalla, Emam Ashour teve uma única experiência na Europa ao serviço do Midtjylland, em 2023, mas esse trajeto não foi propriamente famoso, voltando ao Egito para representar o Al Ahly depois de ter estado quatro anos no rival Zamalek. Médio de 28 anos, soma vários títulos no plano nacional mas é sobretudo na seleção que continua a assumir maior protagonismo, com uma inteligência tática que lhe permite fazer várias posições do meio-campo para a frente e que lhe permite tirar partido da colocação de Salah e Marmoush no ataque para aproveitar os espaços e fazer a diferença como aconteceu no golo do empate, em que arriscou a meia distância a 20 metros e fez mesmo o 1-0.

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A sentença

  • Com este empate entre Bélgica e Egito, a luta pelo primeiro lugar do grupo G pode ficar mais em aberto, com Irão e Nova Zelândia a jogarem esta madrugada para fecharem a primeira jornada. Na próxima ronda, os egípcios vão defrontar a Nova Zelândia, ao passo que os belgas jogam com o Irão.

A mentira

  • O Egito surge neste Mundial com apenas seis jogadores a atuar em ligas europeias (sendo que uma delas é a dinamarquesa, do Nordsaelland de Ibrahim Adel) mas tem um lote de jogadores que “engana”, no sentido em que continuam nas principais equipas egípcias mas com futebol para muito mais. Mo Salah, Marmoush e Mohamed Abdelmonem são as exceções, a par do jovem Hamza Abdelkarim que atua na formação B do Barcelona, mas o maior problema de muitos jogadores egípcios passa pela capacidade de adaptação a realidades diferentes e não tanto pela qualidade individual que mostram. Quando isso não for uma questão, quando muitos destes novos nomes que estão a despontar conseguirem vingar em ligas europeias mais competitivas que permitam dar o “salto”, a equipa dos Faraós vai ganhar e muito.

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