As imagens pareciam ou saídas do filme Avatar ou tiradas numa viagem mais exótica à Baía Bioluminescente de Porto Rico, Jamaica, Maldivas, Austrália, Califórnia ou Japão. Mostravam, durante a noite, ondas iluminadas com um tom azul elétrico, em que cada movimento da água deixava um rasto luminoso e a praia transformava-se num cenário meio mágico. Só que quem captou as fotos estava na costa portuguesa, em plena Figueira da Foz.
As fotografias e vídeos rapidamente se espalharam pelas redes sociais: o fenómeno natural da bioluminescência é conhecido, mas muito mais natural de outras paragens do que em Portugal, onde não é tão comum o mar brilhar. Mas também não é inédito.
A bioluminescência é simplesmente a capacidade que alguns organismos vivos possuem para produzir luz através de reações químicas. No oceano, o fenómeno é mesmo relativamente comum. Peixes, medusas, lulas, crustáceos e vários organismos microscópicos conseguem emitir luz.
No caso observado na Figueira da Foz, o fenómeno está quase certamente associado à presença de micro-organismos marinhos pertencentes ao grupo do fitoplâncton, particularmente os dinoflagelados bioluminescentes.
Quando a água é agitada por ondas, correntes ou pelo movimento de pessoas e animais, estes organismos emitem pequenos flashes de luz azulada. Milhões de organismos a emitir luz em simultâneo criam o espetáculo fluorescente observado nas praias.
Para que a presença destes organismos exista é preciso que se reúnam vários fatores, como a temperatura da água, o estado do mar, as correntes marítimas, as condições atmosféricas e, claro, a disponibilidade de nutrientes. A costa portuguesa possui características muito favoráveis para que os organismos sobrevivam.
Uma delas é o chamado afloramento costeiro, ou upwelling. Durante grande parte do verão, os ventos empurram as águas superficiais para longe da costa. E as águas mais frias e ricas em nutrientes sobem das camadas mais profundas do oceano. Esse processo alimenta enormes quantidades de fitoplâncton. É uma das razões pelas quais a costa portuguesa é uma das zonas mais produtivas do Atlântico europeu.
Quando existem organismos bioluminescentes entre esse fitoplâncton, as condições podem tornar-se favoráveis à observação do fenómeno. No entanto, não é algo frequente, embora não seja inédito.
Ao longo das últimas décadas foram registados episódios de bioluminescência em vários pontos da costa portuguesa. Além da Figueira da Foz, também na Nazaré, Peniche, Costa Vicentina e Algarve. Na maioria dos casos, os episódios duram apenas alguns dias.
A bioluminescência é observada em oceanos de todo o mundo muito antes do atual período de aquecimento global. Isso não significa que as alterações climáticas não possam influenciar ecossistemas marinhos. Mas não existe qualquer evidência que permita afirmar que o brilho fluorescente observado na Figueira da Foz tenha sido provocado pelo aquecimento global.
Apesar de parecer extraordinário, o brilho azul observado na Figueira da Foz não é um mistério nem um fenómeno sobrenatural. É o resultado de processos biológicos e oceanográficos que decorrem diariamente nos oceanos. Na maioria das noites passam despercebidos. Mas quando as condições certas se alinham, milhões de organismos microscópicos conseguem transformar uma praia portuguesa num dos espetáculos naturais mais impressionantes.