Quem aproveitou as últimas semanas com feriados para tirar férias ou fazer pontes e passou pela Ria Formosa pode ter tido um encontro raro e inesperado. Uma foca-comum, cinzenta, espécie típica dos mares frios do Atlântico Norte, tem sido observada a descansar nos bancos de areia e margens da ria e até em cima de uma boia de sinalização.
Estas focas-comuns (as Phoca vitulina) são uma espécie abundante no Mar do Norte, Reino Unido, Irlanda, Islândia e Escandinávia. Não é bicho que os portugueses estejam habituados a encontrar na costa, muito menos na morna Ria Formosa algarvia, daí que o animal tivesse chamado inevitavelmente a atenção.
Ainda assim, os especialistas sublinham que estes avistamentos não são impossíveis, nem completamente inéditos. O que não impediu que a Oza se tenha tornado na nova estrela do Algarve, atraindo curiosos, fotógrafos e levando a muitas perguntas.
Estaria ferida? Ter-se-ia perdido? Como veio parar ao Algarve? E porque é que as autoridades não a recolhem? A foca agora não apareceu de repente na Ria Formosa, nem foi lá deixada, nem viajou em nenhum barco. Veio mesmo em passeio. Nos últimos meses foi sendo vista em vários pontos da costa portuguesa, como as Berlengas, a Ericeira, a costa da Grande Lisboa, a Arrábida, o sudoeste alentejano, Sagres, antes de chegar à zona mais quente do sul do país.
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Uma longa viagem que não é, contudo, fora do comum. Os especialistas explicam que as focas podem percorrer centenas ou mesmo milhares de quilómetros durante a vida. Sobretudo as mais jovens são conhecidas pelo comportamento exploratório e pela capacidade de se afastarem muito das zonas habituais da espécie. O facto de aparecerem longe da sua área principal de “residência” não significa necessariamente que estejam perdidas ou em dificuldades. A curiosidade natural da espécie leva algumas focas a investigar novas áreas costeiras, o que ajuda a explicar avistamentos ocasionais em locais muito afastados das colónias principais.
A Oza está ferida, mas não ao ponto de não conseguir sobreviver. As imagens mostram algumas lesões visíveis no corpo do animal, mas que não a colocam em perigo. Segundo as informações divulgadas pelas autoridades, a foca não apresenta sinais evidentes de infeção e continua a deslocar-se normalmente.
Tem sido observada a descansar na areia (ou onde pode), a entrar e sair da água, a alimentar-se e a comportar-se de forma compatível com um animal funcional. E é por isso que o Instituto de Conservação da Natureza não a recolhe: recolher um animal selvagem é normalmente a última opção.
As equipas do ICNF acompanham a situação, mas explicam que a intervenção só costuma ocorrer quando existem sinais claros de incapacidade ou risco para a sobrevivência do animal. Entre os motivos que podem justificar um resgate estão apenas ferimentos graves, incapacidade de alimentação, debilidade extrema, aprisionamento ou risco iminente de morte. “Sem sinais de infeção, o resgate é visto, para já, como desnecessário.”
Os avistamentos de focas em Portugal têm aumentado nos últimos anos. Em abril, um casal observou uma foca-cinzenta na mesma região algarvia. Mas, calma, isso não significa que as focas estejam a instalar-se permanentemente no Algarve, mostra é que as águas portuguesas continuam a ser utilizadas ocasionalmente por diferentes espécies de mamíferos marinhos, porque são muito ricas em alimentos e estão a ficar ainda mais, devido ao aquecimento.
E, atenção, se se cruzar com a Oza a apanhar sol na areia, deixe-a bronzear-se. Porque é exatamente isso que as focas fazem. Estes animais passam muitas horas fora de água porque precisam de descansar, recuperar energia e regular a temperatura corporal. E ver uma foca imóvel durante longos períodos não significa necessariamente que esteja doente: está apenas a fazer aquilo que qualquer foca saudável faria.
As recomendações do ICNF são simples: observar à distância; não tocar; não alimentar; não tentar aproximar-se para fotografias; e não forçar a entrada do animal na água. A melhor forma de ajudar é permitir que a Oza descanse sem perturbações.
Até porque é impossível saber quanto tempo ficará por cá. Pode permanecer alguns dias na Ria Formosa. Pode continuar a viagem ao longo da costa ibérica. Ou pode desaparecer tão discretamente como apareceu. Sabe-se que veio dos mares frios do Norte da Europa. Sabe-se que passou por vários pontos da costa portuguesa até chegar ao Algarve. Mas ninguém pode dizer para onde vai a Oza.