Na altura em que se separou, com duas filhas e sem dinheiro para uma casa maior, a escritora Madalena Sá Fernandes foi ocupar o sótão de uma vivenda do Monte Estoril, zona nobre da Linha de Cascais. A solução era de recurso e o momento de crise. Não esperava que se tornasse a chave para o sempre difícil segundo livro – desafio maior se o primeiro tiver sido um sucesso.
Já com oito edições e perto das 15 mil cópias vendidas, Leme, uma história de violência doméstica na primeira pessoa, recebeu elogios de autores como Gonçalo M. Tavares e Maria Filomena Mónica. Ao mesmo tempo, não escapou à polémica e a críticas pessoais. Passados três anos, Sá Fernandes abre a porta de Sótão, um vaivém entre os medos do presente e os traumas do passado, com uma casa de partida comum. Na separação dos pais, tinha ela cinco anos, foi também num sótão que encontrou refúgio, este numa casa das Avenidas Novas, entre o Arco do Cego e o Campo Pequeno, em Lisboa, arrendada pelo progenitor.
“Um sótão é um sítio onde tudo pode coexistir: uma enciclopédia, um vestido de noiva, uma boneca antiga”, diz. A assertividade contrasta com o olhar de corça, alerta e brilhante. Acaba de chegar à casa-mãe da Companhia das Letras, a Penguin Random House, no centro da capital, vinda do Festival Literário do Marco de Canaveses. Daí o trolley de viagem. Seguirá depois para uma conversa sobre o Rio de Janeiro, no centro cultural jesuíta Brotéria, no Chiado. Nem por isso a maquilhagem está menos impecável ou é menos solícita nas respostas. “Gosto dessa coexistência, dessa aleatoriedade”, prossegue. “O próprio sótão protegeu-me de uma definição muito categórica sobre o que seria o livro.”
De novo num registo de autoficção, termo que prefere a autobiográfico – embora lhe escape um “pegar em mim”, que corrige de imediato para “pegar nos livros” – volta aos temas da violência, da fuga e da solidão. Reivindica o direito a uma voz própria e a usá-la para encontrar respostas. Ou melhor, saídas. E não é tarefa fácil. Nota-se no estilo reflexivo e labiríntico, nos desvios literários, linguísticos, cinematográficos. As referências sucedem-se como investidas. O género é inclassificável. Já sobre a direção que procura, não hesita: “Casa”.
Sentiu a pressão de escrever o segundo livro, depois de uma estreia tão bem-sucedida com Leme?
Senti, e este livro retrata isso. Partindo também do facto de estar a passar por um período mais duro. Nestes momentos, o que é que se pode escrever?
Refere-se à sua vida pessoal?
Sim, um período da minha vida, que está reproduzido no livro. Apesar das tais manchas de luz projetadas na madeira e que eu associo muito aos sótãos, o sótão também é um espaço de penumbra e de cantos escuros, até associado a filmes de terror. Mas o que me interessou mesmo foi o [lugar] sótão, que surge como personagem.
Tanto em Leme como em Sótão, há dois estados emocionais que coexistem, a solidão e a procura de uma saída. São estes os seus temas?
Os autores podem ter os seus temas e eu, sem dúvida, tenho estes, para mim inesgotáveis. A questão da solidão foi muito importante no Sótão. Aliás, invertendo a palavra, fica “tão só”. Na infância, é uma solidão boa, de estar a brincar e a descobrir.
De estar escondido…
O esconderijo. Um fascínio das crianças. É também um espaço muito ligado à imaginação. Pelo menos o meu sótão biográfico era isso. Além de ser, como digo no início, um espaço onde só as crianças conseguem andar de pé, o que lhes dá uma sensação boa. Mas [na idade adulta] a solidão já não é tão boa. A autonomia e a independência também são temas importantes, e depois, obviamente, a violência doméstica. E a casa. A casa, repito, porque foi um tema muito importante. Também está no Leme, mas aqui pensei mais sobre vários tipos de casa, o que significa habitar, a construção do próprio espaço, casas que fui procurando na natureza, como os ninhos, os casulos. Os faróis, casas nas alturas, que também têm uma ligação grande à solidão.
Mas também com uma visão sobre as coisas.
Interessam-me esses lugares cimeiros. Quem foram os escritores e os artistas que passaram por isso. Escrevo para pensar. Fico obcecada com um tema. Aqui, o tema casa foi-se desdobrando. O fim do livro coincide com o fechar do sótão, em todos os sentidos. Ou seja, o sótão literal foi posto à venda e tive de sair dali. O que também implicou fechar o livro. Os dois tornaram-se indissociáveis.
Em Leme fala como filha de pais separados, com duas casas, uma delas muito violenta, onde passa o mínimo de tempo possível. Aqui, é a mãe separada, que tem de encontrar uma casa para si e para as suas filhas, com ecos desse passado. Chegou ao final do livro mais apaziguada com essa ideia de casa?
Completamente. Para já, porque arranjei a minha casa, finalmente.
Que importância teve isso?
Toda.
Em que sentido?
Há um verso de que até falo no livro, que é do [poeta norte-americano] T.S. Eliot, em que ele diz que a casa é o lugar de onde se parte [“Home is where one starts from”, East Coker]. E não é à toa que nos jogos de tabuleiro também há a casa de partida. Agora, sinto que finalmente tenho a minha casa de partida. No Leme, a casa representava outras coisas: perigo, etc. O sótão do meu pai foi o mais próximo que tive de uma casa, um refúgio. Fui encontrá-lo de novo num sótão, mas de forma temporária. E agora, na minha vida – não estou a falar do livro – encontrei uma casa com um certo grau de eternidade. Pelo menos no que estou a sentir.

E o que representa agora uma casa para si?
Representa paz. Eu sei, isto é um bocado cliché, mas é o que representa é paz. Paz, sossego e, sobretudo, ausência de medo.
Leme, não só foi muito falado, como envolveu um grau de exposição seu muito grande. Sente que há uma Madalena Sá Fernandes pré-Leme e outra pós?
Sim, deu-me confiança. Antes do Leme havia muito medo.
Medo de quê?
Ambos os livros falam muito de medo. No primeiro, medo da personagem do padrasto – que é um fantasma que não abandona. O medo que as pessoas têm de falar sobre estas coisas, que é como a humidade, vai aumentando, aumentando, aumentando. Como se a culpa recaísse sobre a pessoa que sofre estas coisas.
Como se a culpa recaísse sobre a vítima.
Exatamente. Esse era um medo muito grande. Pós-Leme desapareceu um pouco, mas ainda existia, tanto que o Sótão é muito sobre isso. O medo que parecia que não me abandonava. Medo de quê? Falo muito da questão do segredo: “não contes”, “não digas”, o baú guardado no sótão, a relação entre medo e segredo. Curiosamente, depois de escrever o Leme, [esse medo] abrandou e agora, depois de escrever o Sótão, também.
A escrita funciona como um processo terapêutico? Diz que, antes de lançar o primeiro livro, o seu psicanalista lhe dizia que tinha de escrever sobre aquilo de que falava na consulta e não sobre outras coisas.
Porque ele via que era ali que eu precisava de ir e achava que eu estava sempre a fugir, que é também outro tema, o fugir de casa. E de facto…
Estava a fugir a esse tema?
Sempre. Literalmente, na minha vida e, depois, na escrita também. Eu escrevia… O primeiro era sobre pescadores na Costa de Caparica. Só que depois esse tema é tão urgente que se sobrepõe a tudo o resto. Então, mesmo na ficção mais distante, lá estava uma figura que eu reconhecia, e que era, no caso do Leme, a figura do padrasto. Percebi que a minha forma de escrita é essa. É ir direta ao assunto.
Sótão é diferente. Tem muita reflexão, muitas declinações do conceito. Desde a origem da palavra à psicanálise, a cultura grega… A primeira coisa que me veio à cabeça é que o sótão é a cabeça. Até existe aquela expressão…
…“macaquinhos no sótão”.
Por baixo destas camadas todas, estará o medo de não saber lidar com o que lhe vai na cabeça? O escrever como forma de enfrentar o medo?
Tenho tendência para um certo caos. Estou [biograficamente] ligada ao sótão, mas a minha cabeça também pode ser muito parecida com um sótão, no sentido da aleatoriedade de pensamentos e assuntos. E a escrita é uma maneira de acolher isso e depois perceber que de facto há uma ligação [entre temas].
Se em Leme fala da sua mãe e o seu pai aparece muito pouco, aqui é ao contrário.
Eu até diria que Leme é o meu padrasto e o Sótão…
Sim, mas tinha um padrasto porque tinha uma mãe. Porquê agora o pai?
Porque, lá está, um dos meus temas é a casa. A uma [das casas] associava esse perigo e essa instabilidade, mas tinha a casa boa.
Onde passava menos tempo.
Sim. E essa casa boa foi fundamental. Representa saúde, imaginação, sonho. Também havia medo. No caso, de um vizinho.
Um vizinho terrível, psiquiatra, que a ameaça e insulta.
Uma figura bastante traumática. Além disso, o sótão representou um espaço de separação, porque foi onde o meu pai começou a dormir depois de se separar e onde eu ia ter com ele. Havia umas escadas que separavam esse sótão do resto da casa. Asseguravam a distância. E depois porque quando me separo acabo por ir também viver para um sótão. E torna-se um espaço de reflexão, de contemplação.
O Leme é um livro muito direto, muito no osso. Ao contrário deste que mantém a escrita limpa mas é muito descritivo.
Cada tipo de livro também tem a escrita que melhor lhe serve e no caso do Leme eu queria mesmo que a escrita desaparecesse num bom sentido, ou seja, que o mais importante fossem os factos. Que fosse mais rápido e brutal. Os assuntos de violência doméstica e de violência extrema estão muito nítidos na minha memória. Há no processo de escrita uma transparência, uma coisa de papel vegetal. Depois é preciso limpar, cortar. Não preciso de pôr tudo cá para fora. Mesmo no Sótão, os episódios que escrevi primeiro foram esses, [os de violência], mas, depois, interessava-me fazer do Sótão um espaço mais lento, que era como eu o sentia. Um espaço onde o dia demorava mais.
E onde há sempre uma ameaça.
Sim. Há um vizinho, há pessoas, relatos e relações violentas. Não escrevo para me vingar de ninguém, mas há coisas das quais não consigo fugir. É a minha maneira de trabalhar esses temas.
Há aquele episódio em que o seu pai compra um móvel para a entrada, de onde sai uma cama…
…secreta.
Para a proteger do mundo exterior. É uma imagem que podia estar num conto para crianças.
O meu pai ainda tem esse móvel em casa dele. Já não usa a cama. Associava-a muito a um soldado. Um guarda.
A proteger a sua princesa.
Sim…
A dada altura, conta a história da sua tia bisavó, Lurdes Sá Teixeira, a primeira mulher aviadora em Portugal. Há uma descrição muito bonita, dela de pé rodeada de homens, dois deles deitados. Uma mulher muito corajosa, não só por enfrentar os preconceitos da época mas também por se lançar nessa aventura. É isso que procura?
Tive o cuidado de não me comparar porque a coragem dela é imensamente maior…
Mas de alguma forma diz isso.
Nas entrevistas que lhe fizeram, gosto daquela frase em que ela diz que procura ser um pássaro e não um bibelô. E isso, infelizmente, acho que todas as mulheres ainda procuram.
Em que sentido?
O pássaro tem uma liberdade brutal; um bibelô é decorativo. Cheguei a pensar fazer um livro sobre a tia Lurdes, mas decidi pô-la no Sótão porque, lá está, o sótão também é um espaço onde convocamos os nossos antepassados. A minha avó paterna falava muito dela. Tinha um grande orgulho. E depois abordo vários outros casos, de uma mulher faroleira, várias escritoras e artistas, há ecos da Virginia Woolf e do Room of One’s Own [Um Quarto Só Seu], que também foi um livro que me inspirou. Toda essa constelação de mulheres pioneiras, a reivindicar o seu espaço e a sua liberdade de voar e de não serem bibelôs, é fundamental para mim.

É uma batalha que ainda não está ganha?
Não está, mas vamos continuar a travá-la.
Acha que se fosse homem, ou uma mulher menos bonita, que passasse despercebida, os seus livros seriam lidos de outra maneira?
Gostava que não, mas…
Sinceramente, o que é que sente?
Já tive uma ou outra situação que me entristeceu nesse sentido, de pensar que pode condicionar, mas gostaria mesmo que não [condicionasse].
Refere-se ao comentário, o ano passado, do crítico literário e autor João Pedro George [JPG]?
Sim. E pouco mais. Mas gostava que não condicionasse. Acho que gostávamos todas.
Chocou-a o comentário?
[a propósito do sucesso de vendas e elogios de outros escritores a Leme, JPG afirmou no podcast Quinteto Literário, “… é violência doméstica, é uma coisa dura (…) Comecei a ver o Instagram dela e depois a imagem não coincidia com o tema (…). Não estava à espera de encontrar uma pessoa seminua, deitada numa banheira, com um livro na mão. (…) Muito florida, com um corpo muito exuberante, com roupas que põem à mostra os atributos (…)”]
Chocou-me. É engraçado porque ao mesmo tempo é aquele chocar e não chocar. Chocou-me pensar como é que ainda há pessoas a dizer estas coisas. Mas também estou nas redes sociais, sei que há pessoas que o fazem. É o “estranho familiar”, que é “como é que isto ainda existe?” É por isso que digo que a batalha ainda não está ganha.
São afirmações que ficam consigo?
Não ficam comigo a ponto de me paralisar, o que muitas pessoas, se calhar, gostariam. Inconscientemente.
Gostariam que não escrevesse?
Inconscientemente, estes são movimentos – não digo esse em particular, mas talvez – de que subjaz uma tentativa de silenciamento. Num ensaio, a [poeta e tradutora] Anne Carson escreve que o [filósofo grego] Aristóteles já falava disso. Dizia que a voz das mulheres era muito estridente e que tinha vontade de pôr uma porta na boca das mulheres. E passados tantos anos ainda há resquícios dessa vontade. Porque não querem desarrumar, acham que pode ser uma voz incómoda.
Incómoda para os homens?
Por exemplo, em relação à Maria de Lurdes, só os homens é que voavam. Então, uma mulher querer voar também, foi incómodo. E tentaram que ela não voasse. Até há muito pouco tempo, só os homens é que votavam, só os homens é que guiavam, só os homens é que escreviam.
Entre os autores de textos autobiográficos e de autoficção existe uma predominância em número de mulheres. Também as referências que cita vão nesse sentido, como o Um Quarto Só Seu da Virginia Woolf. Tem alguma ideia sobre o porquê disto?
E a Virginia Woolf é uma pessoa que falou das coisas mais violentas que lhe aconteceram, como o abuso sexual por parte de um dos irmãos, a depressão, a violência do pai. É uma autora genial que não teve medo do autobiográfico. Há muitos autores homens que adoro e que escrevem autoficção, como o [Emmanuel] Carrère, o Édouard Louis. Mas é curioso, sim, são mais mulheres. Acho que há uma ligação a histórias de violência. A Tatiana Salem Levy fala muito disto, da questão do diário com a chave: “Põe aí as tuas coisas…” E muitas vezes são violências que sofreram, muitas vezes por parte de homens. E, portanto, é conveniente que não se desarrume ali, porque depois vêm as chamadas repercussões e vai desorientar muita gente. Ganhar voz é também poder falar sobre as violências que nos fizeram.
E as mulheres são mais vítimas de violência do que os homens.
Estatisticamente, sim. Mas a questão é a do “estridente” e do “incomodar”. As mulheres incomodam quando contam as violências que sofrem.
Leme incomodou muita gente?
Menos do que eu achei.
Como assim?
Antes de escrever, imaginava consequências trágicas e não foi assim. Incomodou no sentido em que se falou do tema. Eu tinha medo disso, porque era o meu primeiro livro e estudei Literatura e queria muito focar-me na parte literária, mas nunca poderia descurar o outro campo, ou seja, a violência, que é uma batalha que também travo, e da voz das pessoas que passam por essas coisas.
Esse receio era da reação da sociedade em geral ou de pessoas em particular?
Também de pessoas em particular, mais próximas do visado. Aí era um medo brutal, ansiedade total. Porque também sabia as histórias de outros autores de autoficção, como o [Karl Ove] Knausgård, em que a família cortou toda com ele. Mas ele foi mais agressivo e violento. Eu não tinha interesse nenhum em vingança. O meu objetivo é escrever. Estes temas, por me fazerem sentir desconfortável, são aqueles sobre os quais me sinto melhor a escrever. Mais confortável. É um paradoxo.
Esse desconforto é essencial à escrita?
Não quero ser o cliché da autora atormentada, mas, no meu caso, se não me fizer sentir isto, sei que não vai ter vida, não vai ter força.
E o Sótão? Não parece ser um livro que incomode da mesma maneira…
Ah, ainda bem. Ainda estou a receber as primeiras leituras. Há pessoas que dizem que é muito mais duro, outras que dizem que não, portanto, vai do leitor. Mas em termos de escrita foi igual, ou seja, certas coisas relatadas trouxeram-me a mesma angústia.
Como foi a reação do seu pai a Leme?
Foi… foi duro. Mas gostou. Adorou este também. O que me deixou feliz. Teve apenas uma ressalva sobre a ferrugem de um frigorífico [avariado], que a dada altura ele me dá…
… para servir como estante.
Que ele garante que não tinha ferrugem. No lançamento até brinquei com isso e disse que a memória às vezes pode enferrujar. Mas, sim, fiquei feliz de poder honrar esse sótão da infância. Mas imagino que seja sempre duro para as pessoas próximas. Há sempre essa ambivalência de gostarem do livro e depois, “ah, posso ir ter contigo para te dar um abraço?”
Nos livros conta coisas sobre a sua vida que nunca contou a ninguém?
Algumas só a um psicanalista e talvez a um amigo mais próximo; outras, só mesmo ao psicanalista.
Que papel desempenha a figura do psicanalista na sua vida? Em Leme falava de um, que morreu vítima de covid. Em Sótão fala de outro.
Fundamental. Os dois. Tive muita sorte com os psicanalistas que me calharam. É uma área que me interessa como estudiosa. Existe também uma relação entre a psicanálise e a literatura. E o narrar, o contar, o não silenciar, não ficar sem voz, esse é sempre o objetivo.
E agora?
Agora o plano é acabar o mestrado em Estudos Comparatistas. E depois quero fazer mais livros. Talvez o autobiográfico fique… Também disse isto depois do Leme, portanto tenho de ter cuidado, mas, para já, não tenho nada de urgente de autobiográfico para escrever, o que é bom sinal.