As televisões estão sintonizadas, as rádios ligadas, os ecrãs espalhados pelas cidades grandes até às vilas pequenas, não há lugarejo onde o autarca de serviço não tenha tratado em manter os munícipes entretidos. No café do Julinho o jogo também começa às seis. Que raio de hora para se ver futebol e que horário fantástico para se ficar logo ali na esplanada central – os americanos sabem andar nisto. No carro e nos transportes públicos, a nossa tv portátil está munida de dados móveis até ao Natal, graças a uma promoção inigualável da operadora que não quer que nos falte nada, especialmente alegria ao intervalo, onde os anúncios se acotovelam como sexagenárias na front line de um concerto do Carreira.
Há meses que nos cozinham em lume brando, temperatura gerida de forma meticulosa, mais sal ou menos sal, para chegarmos a junho em ponto de rebuçado. Foi uma cozedura cuidada, como um pão de ló de Ovar, em que um minuto a mais basta para converter uma delícia dos deuses num autêntico tijolo, que nem na torreira volta à vida.
O país está a precisar de um cocktail sinérgico de emoções. Uma injeção de esquecimento dá sempre tanto jeito. Não é uma estratégia nacional, pensem grande ou ‘Think Big”, porque isto do “vamos dar ao povo, o que o povo quer” não é de hoje, nem de ontem, nem penso que acaba tão cedo. As crianças que nasceram nas ambulâncias já estão criadas, sobre as tempestades que assolaram Leiria e a reconstrução por fazer, o Presidente da República prometeu seguir atentamente por isso está tratado, os aumentos dos preços da energia e dos combustíveis é um assunto do capitão Trump, cujas as convocatórias têm-se revelado um desastre. Acham que vale a pena lembrar as guerras programadas em função das oscilações bolsistas ou da contabilidade das mortes que já nem nos chocam? Calma, que hoje joga a seleção. Estamos bem organizados para este intervalo, com o kit montado a preceito, camisola e cachecol, cerveja fresca que estala e o puto com a caderneta preenchida, à custa do subsídio de férias. Vamos rezar que não haja incêndios pelo menos até ao final deste Campeonato, que era uma maçada os canais noticiosos terem que dividir as atenções entre o remate do Ronaldo e mais uma viatura de bombeiros tombada na Serra do Alvão. Convenhamos que há situações que não combinam e que a Tânia Laranjo não pode dar conta de tudo.
Voltemos ao café do Julinho, onde o hino já se canta, alto e a bom som, não fosse aquela parte dos egrégios ou “igreijos”, estaríamos mais afinados, ainda mais agora que se podem fazer piadas que envolvem anjos e outras figuras mitológicas. Os rapazes são os nossos heróis, normalmente viram bestas lá para os quartos de final, mas enquanto este intervalo dura, vamos aproveitar porque a vida são dois dias e o mundial vai para lá de muitos.