Fui ver o novo filme do Steven Spielberg. A escolha não foi minha, mas nada como ouvir quem sabe, porque vi um dos filmes de que mais gostei nos últimos tempos e talvez um dos melhores do realizador. Sem estragar as surpresas, o filme foi anunciado como um regresso de Spielberg à ficção científica, e a divulgação leva-nos a pensar que é algo do tipo “Eles sempre estiveram entre nós”. Só que o realizador deixou-se há muito de fazer apenas entretenimento, e uma anunciada ficção especulativa é, afinal, uma bomba refletora que se veste de fantasia para nos confrontar connosco. O Dia da Revelação não é sobre extraterrestres, é sobre pessoas, e o que elas fazem umas às outras por medo de ameaças exteriores, e o que fazem às ameaças exteriores por acreditarem que elas, pessoas, é que são boas e pacíficas. Ou, usando as palavras tão sábias de D. José Miguel Pereira, o Bispo da Guarda, porque “só nós, seres humanos, temos coração, no sentido usado por Nossa Senhora: esse lugar onde o espírito encontra a luz de sentido dos acontecimentos e da vida”.
Falo de D. José Miguel Pereira porque, justamente na manhã antes de ir ver o ótimo filme de que falei, e que recomendo, li uma notícia que não recomendava a ninguém, em que o bispo da Guarda critica a nossa sociedade, que “tende a humanizar os animais, especialmente os de estimação com os quais estabelecemos relações de afeto”.
Estamos mal. 2026 está a ser o ano em que acontece quase tudo e, por obra e graça de Murphy e da sua lei, não é quase tudo de bom. Mas, enfim, o ano vai a meio e pode ser que isto ainda dê a volta. O certo é que os nossos animais de companhia estão a ter, em 2026, o seu “ano que ninguém quer”.
Primeiro foi o Orelha, um cão comunitário que morreu em agonia depois de ser torturado por um grupo de adolescentes. Alegadamente, disse a lei brasileira, antes de pedir o arquivamento do caso. Não é certo se esses assassinos (dotados de coração no sentido que o bispo da Guarda enaltece) torturaram o cão por ele ter trincado o drone de um deles (o malvado!), mas o que se sabe é que a tortura foi transmitida em direto na plataforma Discord, para gáudio de outros também com o coração que Nossa Senhora recomenda (estou a pôr em prática o que aprendi com o bispo da Guarda).
Depois, houve uma mulher que, também no Brasil, despejou óleo a ferver num cãozinho de rua que cometeu o crime de estar a dormir do lado de fora do seu portão. Quando a comunidade local lhe pediu contas, ela mostrou a filha na cadeira de rodas, apelando talvez à empatia humana que tão recordada nos tem sido nos últimos tempos. Não sei quem empatizou nem como; pela minha parte, empatizei com aquela miúda, por ser filha de semelhante monstro, que pode ter o tal coração “não sei quê”, mas não dá mostras de ter aquele que interessa.
Dei dois exemplos passados no Brasil, mas calma, Portugal não fica atrás, infelizmente: em 2022, em Barcelos, uma criança pôs (inadvertidamente, segundo as notícias) uma gatinha de quatro meses no forno, que estava ligado, provocando-lhe queimaduras de segundo e terceiro graus na cara, orelhas, dorso, patas e cauda. E a mãe, de 51 anos e operária têxtil, vai de fechar a gata na garagem durante uma semana, suponho que a ver se ela morria, mas a chata da gatinha teimava em querer viver (a desfaçatez!), e então a senhora contactou um centro veterinário, a ver se a abatiam de uma vez, que isto há animais “sem coração de Nossa Senhora” que só empatam. Foi aí que interveio a SOS Bigodes e o caso acabou em tribunal. A juíza criticou a arguida por “não demonstrar arrependimento, censura ou autocrítica” após tal ato “especialmente cruel”. O que vale é que a condenou a uma duríssima multa de 720 euros, além de que não poderá ter animais de companhia por um período de dois anos e meio. Isto foi em janeiro deste ano. Passaram seis meses, portanto dentro de dois singelos aninhos a arguida já poderá fazer a felicidade de mais animais que adote. Ah, bendita lei portuguesa! Benditos humanos com coração! Bendita empatia, porque é óbvio que todos estes humanos são perfeitos ogres com os bichos, mas serão uns anjinhos de candura com o seu semelhante. Não andei à procura destas notícias: apareceram-me à frente dos olhos. E são, de certeza, apenas a ponta do icebergue.
São Francisco de Assis, que o bispo da Guarda conhecerá talvez de nome, foi canonizado em 1228 pela Igreja Católica, que lhe concedeu o título de padroeiro dos animais e do meio ambiente. Que eu tenha notícia, não foi ressalvado que o meio ambiente se limitava a alfaces, pepinos e outros comestíveis, tal como os animais em questão tão-pouco eram apenas os passíveis de ir para a grelha, não por descuido inocente, mas mesmo para o Homem poder encher a pança de carne vermelha, com todos os benefícios para a saúde que estão mais do que atestados pela ciência, entre eles doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e certos tipos de cancro.
Voltando a São Francisco, o seu dia é celebrado a 4 de outubro, e em muitas paróquias há a tradicional bênção dos animais, mas imagino que na Guarda não haja abébias, porque isto está mais do que visto: os culpados de todos os problemas do mundo em 2026 são os animais de companhia, e os humanos que insistem em humanizá-los e com eles estabelecem relações de afeto. Mas que teimosia! Será que as pessoas não veem que o afeto é como o gás numa botija, ou a bainha das calças? Quando se acaba o gás, ou o tecido, não há mais! Portanto, parem lá de dar afeto aos animais, gaita, e guardem-no todo para os humanos, que só eles é que têm coração! E ajudem apenas humanos quando houver catástrofes! Esqueçam lá os cães-guias que, no 11 de Setembro, salvaram os donos cegos (e todos os humanos que se lhes atrelaram, por assim dizer) ao levá-los em segurança pelas escadas enquanto o World Trade Center ruía. Um desses casos foi o da labrador Roselle, que desceu com o dono e mais trinta penduras do 78.º andar da Torre Norte. Foram 1463 degraus até à rua, e depois, no meio de uma fumarada dos infernos que não deixava ver nada, ainda levou toda essa gente para a segurança de uma estação de metro. A Roselle e outra labrador heroica, a Salty, receberam uma medalha conjunta “por permanecerem lealmente ao lado dos seus donos cegos e, seguindo corajosamente na dianteira, com eles descerem mais de 70 andares e levarem-nos para segurança”.
Entretanto, deste lado dos corações, os humanos açambarcam pilhas quando há um apagão, açambarcam álcool e papel higiénico quando há covid, açambarcam açúcar (carrinhos de supermercado cheios!) quando é soprado que está a faltar a matéria-prima no mercado internacional e, em Portugal, quase se mataram à pancada quando o Pingo Doce fez a histórica promoção de 50% de desconto. É o que temos. E mais o exclusivo do coração.
Isto está de tal maneira com a história dos animais, e de gostarmos deles e alegadamente querermos humanizá-los, que qualquer dia ainda oGarfield, o Calvin & Hobbes e o Rei Leão vão parar ao índex de livros e filmes proibidos para salvaguarda da ética e de “alimentar a vida espiritual e aprofundar a vida interior” (bispo da Guarda dixit). Porque a culpa é dos animais, está visto.
Entretanto, o primeiro trilionário da história da humanidade explode foguetões sobre o oceano Índico, causando danos irreparáveis à flora e fauna marinhas. Haja dinheiro. E ignorância, porque alguém duvida que a espécie humana também pagará a fatura?
Ontem, depois do filme, falava com um amigo sobre a possibilidade de haver mesmo vida extraterrestre, e ele disse que, se houver, é seguramente pacífica, porque nos vê sem que a vejamos, portanto também poderia destruir-nos se assim quisesse. E eu penso: olhando a tudo de bom que nós, os únicos com coração, andamos a fazer por cá, alguém poderia censurar os marcianos se eles espetassem com a humanidade inteira no forno?