O conflito entre os Estados Unidos, Israel e Irão, iniciado a 28 de fevereiro com ataques massivos que eliminaram o Líder Supremo iraniano Ali Khamenei e o estratega Ali Larijani, deixou o país num estado de profunda instabilidade política. Mais de 100 dias depois e com um acordo praticamente fechado, Teerão arrisca-se a começar uma perigosa batalha interna, uma vez que o documento que poderá abrir caminho à paz está longe de ser um consenso dentro do próprio regime.
Enquanto o Governo apresenta o memorando de entendimento como uma “vitória tática” e necessária para a sobrevivência do seu regime, a ala militar e os ultraconservadores denunciam-no como uma “capitulação catastrófica”. Acima deste embate político, está, contudo, o poder da Guarda Revolucionária Islâmica e a liderança do Líder Supremo, Mojtaba Khamenei, que encara o pacto como uma pausa necessária para a preservação do sistema.
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O pragmatismo do Governo de Pezeshkian para preservar a estabilidade do país
Para o Governo de Masoud Pezeshkian e para o seu círculo diplomático, liderado pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, o memorando de entendimento (que já foi assinado digitalmente pelo Presidente norte-americano, Donald Trump, e pelo presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf) não é uma escolha, mas sim um imperativo de sobrevivência. O Presidente iraniano tem defendido a via diplomática contra todos os que pedem a guerra total. “Quanto àqueles que gritam que não devemos negociar — se não negociarmos, o que devemos fazer? Lutar até ao fim? Nós negociamos com dignidade”, disse há cerca de um mês, citado pela imprensa do país.
O foco na via diplomática decorre diretamente do impacto da guerra. Pezeshkian reconheceu a pressão económica, a escassez de combustível e os danos causados pela guerra que o país enfrenta. “Não se pode dizer que o inimigo está a ser destruído e que nós estamos a florescer”, afirmou, num raro exercício de realismo político perante as câmaras da televisão estatal. Os ataques dos Estados Unidos e de Israel destruíram grande parte da capacidade de gás natural (cerca de 230 milhões de metros cúbicos) e atingiram infraestruturas importantes da indústria, como a siderurgia Mobarakeh Steel e várias refinarias petroquímicas, levando a uma grave crise no abastecimento.

A posição do Executivo surge, também, num contexto de forte pressão interna. Apesar das críticas dos setores mais conservadores do regime, Pezeshkian tem defendido que negociar não equivale a capitular e, para corroborar esta visão, o ministro dos Negócios Estrangeiros apresenta o memorando como uma vitória diplomática.
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O memorando de entendimento garante o fim das operações militares e permite a reabertura do Estreito de Ormuz sob mecanismos que preservam a influência iraniana na região. No entanto, o principal objetivo de Teerão é financeiro. Contrariando os radicais que se opõem a um diálogo com Washington, o Governo iraniano vê na libertação dos 24 mil milhões de dólares (cerca de 21,6 mil milhões de euros) em ativos congelados o oxigénio necessário para estabilizar uma economia marcada pela desvalorização acentuada da moeda e pela escassez de recursos.
Pezeshkian procura, ainda, apresentar o acordo como um fator de unidade nacional. O Presidente iraniano tem alertado que a maior ameaça ao regime não é apenas militar, mas também social, defendendo que a divisão interna pode ser mais perigosa do que os ataques externos. Neste enquadramento, o Governo considera que o pragmatismo diplomático é a única forma de preservar a estabilidade da República Islâmica.
“Capitulação catastrófica”: a rebelião da ala radical do regime e a contestação nas ruas
Enquanto o palácio presidencial proclama uma vitória negociada, o Parlamento (também conhecido como Majlis) tornou-se a trincheira de uma oposição que acusa Pezeshkian de “traição”. A ala ultraconservadora do regime, que gira em torno da influente Frente Paydari (também conhecida como Frente de Estabilidade da Revolução Islâmica), reagiu ao memorando com uma agressividade que não se via desde a assinatura do acordo nuclear de 2015, cujo fantasma regressou agora para assombrar os negociadores.
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A CNN nota que no centro desta rebelião está Mahmoud Nabavian, vice-presidente da Comissão de Segurança Nacional do Majlis, que no sábado protagonizou um momento de tensão ao ler, em direto na Daneshjoo News Agency, passagens de um rascunho do memorando que classificou como uma “fraude absoluta” e uma “capitulação catastrófica”.
https://twitter.com/IranIntl_En/status/2065822447509614806
Nabavian alega que, ao contrário do que afirma o Governo, o documento retira ao Irão qualquer controlo sobre o Estreito de Ormuz, obriga o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC, na sigla inglesa) a retirar-se desta artéria marítima e ignora as “linhas vermelhas” traçadas pelo próprio Mojtaba Khamenei. Se o Irão assinar o acordo final, “tornar-nos-emos efetivamente uma colónia dos Estados Unidos”, acrescentou Nabavian, citado pelo IranWire.
Esta indignação não é única. Kamran Ghazanfari, outro deputado da linha dura do regime, foi perentório ao afirmar que “o facto de dizerem que o Irão venceu e que a América recuou é uma mentira descarada“, enquanto o porta-voz da Comissão de Segurança Nacional, Ebrahim Rezaei, lamentou que a “generosidade excessiva” demonstrada na mesa de negociações tenha alterado os cálculos do inimigo, fazendo a República Islâmica parecer vulnerável num momento de crise existencial.
Para estes deputados, segundo o The Guardian, a estratégia do ministro Abbas Araghchi é vista como uma repetição dos erros do passado, apelidando a equipa negocial de “arquitetos do vergonhoso JCPOA” (o acordo internacional do programa nuclear iraniano assinado em 2015) e acusando-os de estarem “viciados na negociação” em detrimento da soberania nacional.
https://observador.pt/2015/07/14/alcancado-acordo-nuclear-irao/
A pressão sobre o presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, tem sido igualmente forte. Mohsen Mansouri, antigo vice-presidente do Irão, exortou publicamente Ghalibaf a travar esta “linha de rendição e compromisso”, argumentando que a fação “pró-ocidental” está a usar figuras de confiança do regime para impor um pacto humilhante.
Meysam Nili, uma figura influente nos círculos da linha dura do regime, descreveu o memorando como uma “capitulação catastrófica” e instou os iranianos a não ficarem em silêncio perante o que considera ser o desmantelamento dos pilares da Revolução Islâmica.
A contestação sobre a posição do regime rapidamente saltou das bancadas do parlamento para as ruas. Sob o lema “We Will Not Accept” (“Não Aceitaremos”, em português), vários grupos de manifestantes concentraram-se em frente à sede do Ministério dos Negócios Estrangeiros nas cidades de Teerão e de Mashhad, onde o ministro Araghchi foi alvo de cânticos hostis que o apelidavam de “infiltrado desonroso” e “traidor“.
https://twitter.com/rybar_mena/status/2066086493429338189
A ala radical do regime, apoiada por jornais como o Kayhan, argumenta que o sacrifício da morte de Ali Khamenei, de cientistas nucleares e de comandantes militares não justifica a reabertura de Ormuz em troca de meras “taxas de navegação”. De acordo com o The Guardian, Hossein Shariatmadari, diretor do Kayhan, questionou abertamente que justificação lógica existe para abdicar da “alavanca crucial” que o bloqueio do Estreito representava, acusando os negociadores de libertarem o inimigo do “sufoco económico e comercial” no preciso momento em que este estava mais próximo da “asfixia”.
O “veto militar” e a estratégia de Mojtaba Khamenei que podem ditar o futuro do Irão
Acima da guerra entre o palácio presidencial e as bancadas parlamentares está, porém, o verdadeiro poder de decisão em Teerão: o núcleo de segurança, dominado por Ahmad Vahidi, comandante da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), e pela figura de Mojtaba Khamenei, o líder supremo do país.
A ascensão de Mojtaba ao cargo de Líder Supremo, ratificada em março sob a ameaça direta de ataques, representou não apenas uma mudança histórica na liderança do Irão, mas também o fim de um dos princípios centrais da Revolução Islâmica, uma vez que esta sucessão transformou o regime num sistema semelhante a uma monarquia hereditária, embora mantenha a sua estrutura religiosa. Contudo, a legitimidade desta liderança é precária e depende do aparelho militar.
Fontes governamentais indicaram ao Institute for the Study of War que Vahidi assumiu um papel de interlocutor central e “chefe de gabinete”, exercendo uma influência sem precedentes sobre o Governo. É neste cenário que o IRGC impõe o seu “veto militar” ao memorando, encarando qualquer concessão como uma “capitulação” perante os Estados Unidos e Israel, responsáveis pela morte de Ali Khamenei.

A estratégia de Khamenei tem sido marcada pela discrição e firmeza. Para reduzir o risco de ser alvo de ataques, o novo Líder Supremo comunica sobretudo através de mensagens escritas. Ao mesmo tempo, mantém uma postura dura nas negociações com os Estados Unidos, apoiado pela liderança do IRGC.
Os responsáveis militares têm procurado clarificar que a equipa diplomática liderada por Abbas Araghchi não representa necessariamente a posição das forças de segurança. Uma das principais linhas vermelhas do núcleo duro do poder é a recusa em transferir para o estrangeiro as reservas de urânio enriquecido. Para Mojtaba Khamenei e para o IRGC, abdicar deste material reduziria a capacidade de dissuasão do Irão e deixaria o país mais vulnerável a futuros ataques. Esta visão insere-se numa nova doutrina de defesa, anunciada pelo presidente do Conselho de Conveniência do Irão, Sadegh Larijani, que considera qualquer ataque contra aliados regionais do Irão (como o Hezbollah no Líbano ou as milícias pró-iranianas no Iraque) como uma agressão direta ao próprio Estado iraniano. A lógica é simples: a segurança do Irão já não se limita às suas fronteiras. Estende-se à rede de parceiros na região.
O Estreito de Ormuz continua, ainda, a ser uma das principais ferramentas de pressão de Teerão. Mesmo durante as negociações, o IRGC manteve-se na zona, procurando reforçar a ideia de que Teerão continuará a desempenhar um papel central na gestão desta rota marítima estratégica. Na visão dos militares, a reabertura do Estreito não representa uma cedência, mas sim o reconhecimento da influência iraniana sobre uma das mais importantes vias de comércio mundial.
Para a liderança do regime, o acordo alcançado este fim-de-semana não deve ser visto como um passo definitivo para a paz. Pelo contrário, é encarado como uma pausa estratégica que permitirá ao país recuperar capacidades económicas e militares enfraquecidas pela guerra — e o acesso aos 24 mil milhões de dólares em ativos congelados é considerado essencial para este objetivo. Assim, para Mojtaba Khamenei e para o IRGC, o entendimento com Washington é sobretudo uma forma de ganhar tempo e recursos, sem abdicar dos instrumentos de poder que consideram fundamentais para a sobrevivência da República Islâmica.