Há vários anos fiz um curso breve de media training na CENJOR. Um dos formadores era jornalista de televisão. Com um misto de ingenuidade e curiosidade, não resisti a colocar a seguinte questão: “Por que razão convidavam para a televisão alguns psiquiatras para falar sobre assuntos em que não eram os melhores especialistas ao nível nacional?” A resposta foi simples e esclarecedora: “Se ele é psiquiatra e fala bem perante as câmaras, para mim é suficiente. O resto não me interessa muito, pois o que eu quero é que ele preencha o conteúdo informativo.”
Nunca mais me esqueci desta resposta. Talvez porque ela traduzisse, de forma quase brutal, uma verdade que muitos intuíam, mas poucos diziam: em televisão, nem sempre se procura quem sabe mais; muitas vezes procura-se quem está disponível, fala bem, não hesita e ocupa antena.
Com o avanço da internet, especialmente com a migração da publicidade para plataformas digitais, muitos órgãos de comunicação tradicionais (jornais, televisões e rádios) perderam receitas e foram obrigados a fechar ou a reduzir drasticamente as suas equipas. Milhares de jornalistas experientes em todo o mundo perderam o emprego. O novo jornalismo trouxe instabilidade, salários mais baixos, menos espaço para o jornalismo de investigação e uma cultura de produção acelerada de conteúdos televisivos e online.
O resultado é conhecido: menos tempo para investigar, menos recursos para verificar, menos jornalistas especializados, menos supervisão dos jornalistas mais velhos aos mais novos e mais necessidade de alimentar, a todas as horas, sites, redes sociais, podcasts, canais informativos e emissões televisivas em direto. É neste novo ecossistema mediático que floresce uma nova figura: “o preenchedor de conteúdo”.
A função principal do comentador chamado a preencher conteúdo não é investigar, esclarecer ou contextualizar. É ocupar espaço. É garantir que há alguém em estúdio quando acontece um incêndio, uma guerra, uma crise política, um processo judicial, uma polémica na saúde, uma transferência futebolística ou uma nova sondagem.
O mesmo comentador fala sobre variadíssimos temas com fluência, segurança e uma espantosa ausência de dúvida. Raramente se ouve: “Não tenho os dados necessários para formar uma opinião.” Quase nunca se diz: “Não tenho informação suficiente para comentar.” A hesitação, que tantas vezes é sinal de prudência e honestidade intelectual, parece ter sido expulsa do espetáculo televisivo.
Julgo que existe aqui um problema de fundo. O conhecimento sério tem limites. Um verdadeiro especialista sabe que não sabe tudo. Distingue factos de hipóteses, dados de impressões, experiência própria de evidência geral. Sabe que há perguntas para as quais a resposta honesta é provisória, incompleta ou simplesmente inexistente.
Mas a televisão, sobretudo a televisão noticiosa permanente, vive mal com o silêncio. Precisa de ritmo, vive da urgência, da frase curta, do rosto reconhecível e da opinião pronta. Prefere muitas vezes a segurança performativa à prudência informada. E assim se cria uma aparência de esclarecimento que pode ser apenas entretenimento com vocabulário mais elaborado. Não se trata, naturalmente, de negar o valor do comentário. Mas uma coisa é o comentário informado; outra é a opinião automática, produzida em série, sem distância crítica e sem verdadeira responsabilidade. O problema agrava-se quando estes preenchedores de conteúdo têm agendas próprias. Alguns comentadores são militantes políticos não assumidos. Outros têm relações profissionais, económicas, institucionais ou pessoais com os temas que comentam. Outros ainda usam o espaço mediático para construir notoriedade, influência ou capital político. Nada disto seria necessariamente ilegítimo se fosse claro para o público. O problema está na opacidade da omissão dos conflitos de interesse.
A confusão entre informação e comentário é hoje uma das grandes fragilidades do espaço mediático. Talvez a pergunta mais incómoda seja esta: será que os cidadãos já se habituaram a este formato? Será que muitos telespectadores ainda distinguem informação de entretenimento?
A crise do jornalismo não se resolve substituindo jornalistas por comentadores. Muito menos se resolve substituindo investigação por painéis, reportagem por opinião e especialização por disponibilidade. Um país democrático informado precisa de bons jornalistas, bons editores, boas redações e bons especialistas. Precisa também de comentadores, sim, mas de comentadores que saibam reconhecer os limites do que sabem. É precisamente aqui que se revela uma diferença ética importante entre os comentadores genuínos e os preenchedores de conteúdo. Talvez fosse útil recuperar uma frase simples, hoje quase subversiva no espaço mediático: “Não sei responder a essa pergunta.”