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(A) :: A procissão do Corpo de Deus e os woke da Direita

A procissão do Corpo de Deus e os woke da Direita

Se parte da direita quer imitar a esquerda moralista, problema deles. Mas seria melhor que não o fizessem utilizando a fé de milhões como adereço político.

José Maria Seabra Duque
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Como pode uma procissão secular, retomada há mais de cinquenta anos, tornar-se tema de escândalo nacional? Basta ofender os woke da direita.

Há em Lisboa, para além de centenas de procissões das mais variadas paróquias e irmandades, quatro grandes procissões, com história de séculos.

Ainda esta semana tivemos a procissão de Santo António, que sai da Igreja de Santo António, construída no local do seu nascimento, percorre as ruas de Alfama, até regressar à mesma igreja.

Há pouco mais de um mês tivemos a procissão da Senhora da Saúde. Com raízes no século XVI, depois de algumas interrupções, retomou há quarenta anos. A procissão sai da Capela de Nossa Senhora da Saúde, no Martim Moniz, percorre a Mouraria e volta ao mesmo lugar.

Na Quaresma temos a procissão mais antiga da cidade, que há séculos, de forma ininterrupta, percorre Lisboa: a procissão do Senhor dos Passos da Graça. Com saída da Igreja de São Roque, percorre o Chiado, a Baixa, passa pelo Martim Moniz e pela Mouraria, até à Igreja da Graça.

Por fim, temos a procissão que tanta celeuma levantou entre os novos cruzados da direita: a do Corpo de Deus. Uma procissão que remonta ao século XII, desapareceu com a República e só viria a ser retomada nos anos 70.

Pela sua natureza, ou seja, por na procissão se levar Jesus Sacramentado, esta procissão é a mais importante das grandes procissões. Todos os anos, milhares de pessoas acompanham Jesus pelas ruas da cidade.

Desde o seu recomeço, a procissão do Corpo de Deus deu-se em várias paróquias da cidade. Só em 2003 a procissão voltou a ter no seu centro a Sé. Mesmo nestas últimas duas décadas, o percurso tem variado, desde acabar com missa na Praça do Município até começar e acabar na Sé, como hoje acontece.

Este ano, a procissão voltou a ser um sucesso, com milhares de pessoas a participar e a acompanhar a procissão. Para além de muito povo, participam na procissão do Corpo de Deus irmandades de todo o Patriarcado, ordens religiosas, as ordens militares, as Escravas do Santíssimo Sacramento, centenas de acólitos e de sacerdotes, para além do Presidente da Câmara. Tudo decorreu normalmente, sem qualquer incidente.

Mas houve um jornal que decidiu, uma semana após a procissão, arranjar um escândalo! A procissão não tinha passado no Martim Moniz! Logo, os woke da direita, que têm um qualquer fetiche com esta praça de Lisboa, saíram corajosamente em defesa da pureza da procissão, que tinha de passar no Martim Moniz.

Claro que o facto de estas pessoas só se terem apercebido de um novo trajecto da procissão com a notícia do jornal prova duas coisas: que nenhum destes grandes defensores da civilização cristã participou na maior procissão da cidade; e que, até o jornal os informar, não sonhavam qual era o caminho da procissão do Corpo de Deus (se é que sequer sabiam da existência da procissão).

A notícia é absurda, e o escândalo só demonstra falta de conhecimento. A procissão do Corpo de Deus mal passava no Martim Moniz, limitando-se a fazer a curva junto ao Hotel Mundial para entrar na Praça da Figueira. A voltinha não tinha nada de histórico, nem sequer de interessante.

Aqueles que vêem na troca de um cantinho do Martim Moniz pela passagem pelo Terreiro do Paço uma qualquer cedência só provam que desconhecem que ainda em Maio a Senhora da Saúde começou e acabou no Martim Moniz sem qualquer problema, e que em Fevereiro por lá passou o Senhor dos Passos, como há séculos, sem que tenha causado qualquer consternação.

Tudo isto seria ridículo, se não houvesse partidos políticos e comentadores que, mesmo sendo absolutamente ignorantes sobre as tradições da Igreja de Lisboa, não resistem a atacar o Patriarcado para a sua guerra cultural. Aí, de facto, é preciso chamar os bois pelos nomes: o problema dessas pessoas não é estarem a defender a tradição cristã; é serem totalmente desconhecedoras dessa tradição. É estarem tão envoltas na sua luta ideológica que resumem tudo, até o Sagrado, à bitola da sua agenda política. Ou seja, no fundo, são os woke da direita.

Se parte da direita quer imitar a esquerda moralista, problema deles. Mas seria melhor que não o fizessem utilizando a fé de milhões como adereço político. As milhares de pessoas que todos os anos participam na procissão do Corpo de Deus não estão a participar numa batalha cultural, mas a testemunhar o seu amor a Cristo Sacramentado. Quem se quiser juntar é bem-vindo; quem só está interessado em marcar pontos políticos, por favor, procure outro brinquedo.