(c) 2023 am|dev

(A) :: O Silêncio de Nicósia

O Silêncio de Nicósia

Quando uma invasão deixa de merecer indignação.

Nuno Nabais Freire
text

Existe uma capital europeia onde se pode tomar café numa esplanada, caminhar algumas dezenas de metros e encontrar soldados, arame farpado e postos de controlo das Nações Unidas.

Existe uma capital europeia dividida por uma linha militar há mais de cinquenta anos.

Essa cidade não fica no Médio Oriente.

Não fica no Cáucaso.

Nem sequer nos Balcãs.

Fica na União Europeia.

Chama-se Nicósia.

A última capital dividida da Europa permanece cortada ao meio por uma zona tampão patrulhada pelos Capacetes Azuis da ONU. De um lado, a República do Chipre. Do outro, a autoproclamada República Turca de Chipre do Norte, reconhecida apenas pela Turquia.

Apesar de tudo isto, raramente se fala dela.

A Europa gosta de se apresentar como guardiã do direito internacional. Os seus líderes falam frequentemente da inviolabilidade das fronteiras, da soberania dos Estados e da necessidade de condenar qualquer alteração territorial obtida pela força.

São princípios nobres.

São princípios corretos.

Mas também são princípios que parecem sofrer de uma estranha amnésia seletiva.

Há cinquenta anos que um Estado-membro da União Europeia vive com parte do seu território ocupado por tropas estrangeiras. Há cinquenta anos que dezenas de milhares de pessoas vivem com propriedades perdidas, memórias interrompidas e uma reunificação eternamente adiada.

Falamos da invasão turca de Chipre.

Falamos de uma realidade que, apesar da sua gravidade histórica e geopolítica, raramente ocupa espaço no debate público europeu.

Talvez porque o conflito seja antigo.

Talvez porque seja complexo.

Talvez porque as circunstâncias que conduziram à invasão não permitam uma narrativa simples de bons e maus.

Mas o silêncio continua a ser estranho.

Em julho de 1974, um golpe de Estado apoiado pela ditadura militar grega procurou anexar Chipre à Grécia. A Turquia respondeu invocando o seu estatuto de potência garante do Tratado de Garantia de 1960 e lançou uma operação militar que rapidamente ultrapassou qualquer conceito limitado de intervenção.

O resultado foi a ocupação de cerca de 37% da ilha.

Centenas de milhares de pessoas foram deslocadas.

Famílias foram separadas.

Comunidades inteiras desapareceram dos locais onde tinham vivido durante gerações.

A ilha foi partida ao meio.

Passaram cinco décadas.

A ocupação continua.

Milhares de soldados turcos permanecem estacionados no norte da ilha.

A Linha Verde continua a dividir cidades, bairros e memórias.

E Nicósia continua dividida.

Talvez nenhum local simbolize melhor esta realidade do que Varosha.

Outrora considerada uma das joias turísticas do Mediterrâneo, frequentada por celebridades internacionais e símbolo da prosperidade cipriota, foi abandonada durante a invasão de 1974.

Durante décadas permaneceu cercada por arame farpado e patrulhas militares.

Hotéis vazios.

Ruas desertas.

Montras abandonadas.

Uma cidade fantasma congelada no tempo.

Um lembrete silencioso de que alguns conflitos não terminam. Apenas envelhecem.

A pergunta não é se existiam razões de segurança para a intervenção inicial.

A pergunta é outra.

Se aceitarmos que uma intervenção militar destinada a restaurar a ordem pode transformar-se numa ocupação permanente, que valor têm então os princípios que afirmamos defender?

A questão torna-se ainda mais incómoda quando observamos a forma desigual como a comunidade internacional reage a diferentes conflitos.

Há ocupações que mobilizam conferências internacionais.

Há ocupações que dominam manchetes.

Há ocupações que geram sanções, campanhas diplomáticas e indignação permanente.

E há ocupações que parecem ter sido arquivadas numa gaveta da História.

Chipre pertence claramente à segunda categoria.

Talvez porque a Turquia seja um membro estratégico da NATO.

Talvez porque controla uma das posições geográficas mais importantes do planeta.

Talvez porque o Mediterrâneo Oriental seja demasiado sensível para permitir confrontos políticos sérios.

Talvez porque a Guerra Fria ensinou o Ocidente a tolerar determinadas ambiguidades quando interesses maiores estavam em jogo.

A verdade desconfortável é que os princípios internacionais raramente sobrevivem intactos ao encontro com a geopolítica.

Os Estados falam a linguagem dos valores.

Mas agem frequentemente segundo a lógica dos interesses.

Chipre tornou-se uma das provas mais evidentes dessa realidade.

A própria paisagem urbana de Nicósia parece uma metáfora dessa contradição.

Uma cidade europeia.

Uma capital de um Estado-membro da União Europeia.

E, simultaneamente, uma cidade atravessada por barreiras militares, postos de controlo, arame farpado e edifícios abandonados.

Quem percorre a Rua Ledra pode tomar um café, fazer compras e atravessar uma fronteira militar em poucos minutos.

Poucos locais no mundo ilustram de forma tão clara a distância entre os discursos sobre integração europeia e a persistência dos conflitos não resolvidos.

Há algo de profundamente surreal em observar uma Europa que fala diariamente de paz, unidade e integração enquanto aceita como normal a existência da sua própria Berlim inacabada.

Mais impressionante ainda é a forma como a divisão se tornou invisível aos olhos do mundo.

O que dura demasiado tempo deixa de chocar.

O extraordinário transforma-se em rotina.

A injustiça transforma-se em paisagem.

Talvez seja esse o destino de todos os conflitos congelados.

Não são resolvidos.

São esquecidos.

Mas esquecer não é resolver.

As casas abandonadas de Varosha continuam lá.

As propriedades disputadas continuam lá.

As tropas continuam lá.

A Linha Verde continua lá.

E Nicósia continua dividida.

O debate sobre Chipre não exige que ignoremos os erros da Grécia, os receios da comunidade turco-cipriota ou as complexidades da História.

Exige apenas coerência.

Se acreditamos que as fronteiras não devem ser alteradas pela força, devemos acreditar nisso sempre.

Se defendemos a soberania dos Estados, devemos defendê-la independentemente do país envolvido.

Se condenamos ocupações militares, devemos condená-las mesmo quando os ocupantes são aliados estratégicos.

Caso contrário, deixamos de defender princípios.

Passamos apenas a defender preferências.

E uma ordem internacional baseada em preferências é apenas uma forma mais elegante de descrever a lei do mais forte.

Cinquenta anos depois, a verdadeira questão já não é apenas o que aconteceu em julho de 1974.

A verdadeira questão é porque razão deixámos de falar disso.

Porque uma ocupação militar não se torna legítima por envelhecer.

Uma injustiça não desaparece porque nos habituámos a ela.

E uma capital dividida no coração da Europa continua a ser uma acusação silenciosa contra todos aqueles que afirmam defender o direito internacional apenas quando este coincide com os seus interesses.

Os muros de Berlim caíram porque o mundo nunca aceitou a sua normalidade.

O muro invisível de Nicósia continua de pé porque o mundo aprendeu a viver com ele.

E talvez esse seja o verdadeiro escândalo.