Há momentos em que uma cidade deixa de ser apenas uma cidade. Em que um território, pela força das suas decisões e pela coragem das suas apostas, transcende a sua escala local e se torna argumento nacional. Esses momentos não se anunciam com antecedência. Reconhecemo-los quando os vivemos, e só os aproveitamos se estivermos preparados para os receber. Santarém chegou a esse momento.
Quando assumi funções neste mandato, assumi também um compromisso público: transformar Santarém numa das principais capitais de distrito do país. Disse-o com convicção, conscientemente, sabendo que as palavras de um autarca valem aquilo que os seus atos confirmam. O nosso objetivo principal é claro: atrair investimento privado como verdadeiro motor do desenvolvimento territorial, cabendo ao poder local criar as condições — de confiança, de visão, de diálogo — para que ele aconteça. Não basta atrair investimento. É preciso merecer a escolha dos investidores. É preciso mostrar que o território tem projeto, tem liderança, tem futuro e que tem capacidade de em simultâneo executar investimento público gerador de qualidade de vida e que sirva de efeito multiplicador para o surgimento do desajado investimento privado.
Hoje, com o anúncio do VivaMundo – parque temático dedicado ao futebol, único no mundo, apresentado em Santarém no dia passado 11 de junho –, podemos dizer que essa tese se confirmou de forma inequívoca. Quatrocentos e cinquenta milhões de euros de investimento privado, entre 800 e 1000 postos de trabalho diretos, uma projeção de 1,5 milhões de visitantes por ano. Somado ao investimento já em curso no concelho, ultrapassamos a fasquia dos mil milhões de euros. Não se trata de uma estatística, mas sim símbolo da transformação em curso, com datas, com projetos, com parceiros concretos. É a prova de que Santarém deixou de ser um território que espera para ser um território que lidera.
Mas quero ir mais longe do que os números. O VivaMundo não é apenas um projeto de investimento. É um sinal sobre o tipo de país que queremos ser. Portugal tem vivido demasiado tempo refém de uma geografia do desenvolvimento que concentra tudo em Lisboa e no litoral, e deixa o interior a gerir a sua própria escassez. Esse modelo esgotou-se. Não por razões ideológicas, mas por razões práticas: a concentração excessiva cria pressão insuportável sobre os grandes centros e desperdiça o potencial imenso de territórios com identidade, com acessibilidades, com capacidade instalada e com vontade de crescer. Santarém é esse território. E o que estamos a fazer aqui não é apenas um projeto local, mas sim uma demonstração de que existe outra forma de desenvolver o país.
A escolha dos investidores, e refiro-me aos mil milhões de euros em curso, não foi casual. Escolheram Santarém pela centralidade geográfica – um concelho no coração do país, servido pelas principais rodovias e pela linha ferroviária mais importante de Portugal. Escolheram-na pela proximidade ao futuro aeroporto internacional em Benavente, no nosso distrito, que ficará a pouco mais de 30 minutos através de autoestrada e da futura Linha de Alta Velocidade que irá até ao Carregado. Escolheram-na porque quando dissemos “venham ver Santarém”, não mostrámos apenas terrenos: mostrámos um projeto de território com uma visão integrada e uma liderança determinada a concretizá-la.
Esse projeto de território tem vários eixos que se reforçam mutuamente. O programa Centro Vivo vai transformar o nosso Centro Histórico e a Ribeira de Santarém, com cinco projetos âncora: a requalificação da Escola Prática de Cavalaria para uso hoteleiro, a reconversão do Presídio Militar numa unidade de cinco estrelas, a revitalização da zona ribeirinha – património natural há demasiado tempo ignorado –, a requalificação do Teatro Rosa Damasceno e a dinamização do Mercado Municipal. São intervenções que devolvem vida a um centro histórico de beleza singular, que durante demasiado tempo ficou à margem do crescimento da cidade. O novo Intermodal – que combinará ferrovia, rodovia e transporte urbano num único nó de mobilidade – colocará Santarém a cinco minutos do VivaMundo pela circular urbana, e o concelho inteiro mais próximo de Lisboa, do futuro aeroporto e do país. A Universidade Politécnica do Ribatejo, que já é uma âncora essencial da nossa vida académica e científica, ganhará nova escala com o crescimento da cidade e da região – e o quadro legal aprovado recentemente na Assembleia da República abre o caminho para esse salto qualitativo. Um parque tecnológico de inovação e ciência, que pretendemos consolidar no próximo quadro comunitário, poderá tornar-se um polo de referência nacional na interseção da agrotech, da saúde e da qualidade de vida – atraindo empresas, incluindo multinacionais, que procuram territórios com massa crítica e identidade.
Cada uma destas peças faz sentido por si só. Mas é a sua articulação – a forma como se encaixam numa visão coerente de território – que as transforma em algo mais do que a soma das partes. Não estamos a fazer projetos. Estamos a construir uma região diferente.
A história já demonstrou o que este tipo de infraestruturas, agora referindo-me apenas ao VivaMundo, faz a um território quando é bem executado. Em Paris, em Orlando, projetos de escala comparável ao Viva Mundo duplicaram o número de habitantes das regiões envolventes nos primeiros quinze anos de funcionamento. É um número que parece impossível até ao momento em que se torna inevitável. E torna-se inevitável quando um território consegue acumular, num mesmo ciclo, investimento privado de grande dimensão, infraestrutura pública estruturante, conectividade e massa crítica humana. Santarém está a reunir essas condições, uma a uma, com uma consistência que já não admite dúvidas sobre a direção.
Esta transformação não pertence apenas a Santarém. A nova região Oeste e Vale do Tejo – 34 concelhos, mais de um milhão de habitantes, um território que vai da Grande Lisboa ao Médio Tejo e ao Oeste – tem tudo para ser uma das regiões que mais cresce em Portugal na próxima década. O futuro aeroporto, a ferrovia, os quadros comunitários que se aproximam, e agora este impulso de investimento privado sem precedentes: as condições objetivas estão criadas. O que falta, e o que Santarém está a demonstrar que tem, é a capacidade de transformar condições em resultados. De transformar oportunidade em projeto. De transformar projeto em realidade.
Portugal precisa de regiões que liderem. Que não esperem por Lisboa para acontecer. Que construam os seus próprios motores de desenvolvimento e arrastem consigo os territórios vizinhos. Há regiões que seguem o ritmo do país e há regiões que o marcam. Santarém escolheu o segundo caminho – não por arrogância, mas por responsabilidade. Santarém escolheu este caminho porque percebemos que a nossa obrigação para com os 60 mil habitantes deste concelho, para com a nossa região, e para com um país que precisa urgentemente de descentralizar o seu desenvolvimento, é não desperdiçar o momento quando ele chega.
Os territórios que ficam na história são os que tiveram a coragem de agir quando chegou o momento. Este é o nosso momento. Santarém não o vai deixar passar. E Portugal – acredito profundamente nisso – vai agradecer.