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A Europa que os filhos vão pagar

O problema não está no facto de uma geração ter vivido melhor, mas no facto de essa prosperidade ter sido parcialmente construída com encargos transferidos para o futuro. E o futuro chegou.

Álvaro Rocha
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Durante décadas, a Europa habituou-se a olhar para si própria como um continente de equilíbrio, proteção social e progresso partilhado. A promessa era simples: cada geração viveria melhor do que a anterior. Os pais trabalhariam, construiriam património, financiariam o Estado Social e deixariam aos filhos uma sociedade mais rica, mais justa e mais segura. Essa promessa, porém, começa a ruir. E a fratura que hoje atravessa a Europa já não é apenas entre Norte e Sul, Leste e Oeste, ricos e pobres. É, cada vez mais, entre velhos e jovens.

A geração dos baby boomers europeus cresceu num contexto histórico excecional. Beneficiou do crescimento económico do pós-guerra, da expansão do ensino, do acesso relativamente facilitado à habitação, de carreiras mais estáveis, de sistemas de pensões generosos e de uma valorização patrimonial sem precedentes. Muitos compraram casa quando ainda era possível comprá-la com salários normais. Muitos reformaram-se, ou reformar-se-ão, com condições que os seus filhos dificilmente terão. Muitos acumularam riqueza imobiliária graças a mercados que agora excluem os mais novos.

O problema não está no facto de uma geração ter vivido melhor. Isso deveria ser motivo de satisfação. O problema está no facto de essa prosperidade ter sido parcialmente construída com encargos transferidos para o futuro. E o futuro chegou.

Hoje, os jovens europeus enfrentam uma combinação particularmente dura: salários que não acompanham o custo de vida, rendas elevadas, casas inacessíveis, carreiras instáveis, impostos pesados, natalidade em queda e a obrigação de financiar sistemas sociais desenhados para uma pirâmide demográfica que já não existe. Há cada vez mais reformados e cada vez menos trabalhadores para os sustentar. O contrato social implícito, segundo o qual os ativos pagam os reformados, esperando que os futuros ativos façam o mesmo, começa a parecer uma promessa aritmética e politicamente impossível.

A questão é ainda mais grave porque os idosos não são apenas mais numerosos. São também mais disciplinados eleitoralmente. Votam mais, organizam-se melhor e têm maior capacidade de condicionar governos. Nenhum partido quer enfrentar frontalmente os pensionistas. Nenhum governo quer dizer que certos direitos adquiridos são financeiramente insustentáveis. Nenhum primeiro-ministro gosta de explicar que proteger tudo como está significa cortar, silenciosamente, no futuro dos mais novos.

Assim, a política europeia tornou-se, em muitos países, uma arte de adiar. Adia-se a reforma das pensões. Adia-se a discussão sobre a idade da reforma. Adia-se a revisão dos benefícios fiscais associados ao património. Adia-se a construção de habitação em escala suficiente. Adia-se o investimento em produtividade, inovação, educação, defesa, energia e tecnologia. Protege-se o passado com uma convicção que raramente se aplica ao futuro.

Portugal conhece bem esta realidade. Somos um país envelhecido, com baixa natalidade, baixos salários, forte pressão sobre a habitação e uma juventude altamente qualificada que muitas vezes encontra no estrangeiro aquilo que o país não lhe consegue oferecer: rendimento, estabilidade e perspetiva. Durante anos, discutimos a emigração jovem como se fosse apenas uma escolha individual. Não é. É também um sintoma de falência coletiva. Quando um país forma os seus jovens, mas não lhes oferece condições para ficarem, está a exportar futuro.

Há aqui uma injustiça profunda. Os mais novos são frequentemente acusados de impaciência, fragilidade ou falta de ambição. Mas que ambição pode florescer quando comprar casa se tornou um privilégio, ter filhos uma decisão economicamente arriscada e planear o futuro um exercício de incerteza permanente? Não é razoável pedir maturidade a uma geração a quem se retiraram as bases materiais da vida adulta.

Isto não significa transformar os mais velhos em inimigos. Seria injusto e perigoso. Muitos idosos vivem com pensões baixas, enfrentam solidão, dependência e dificuldades reais. A crítica não deve ser dirigida às pessoas, mas ao modelo. O conflito não é moral, é estrutural. O problema não é haver idosos protegidos. O problema é haver jovens desprotegidos. O problema não é pagar pensões dignas. O problema é fingir que isso pode ser feito indefinidamente sem crescimento, sem produtividade, sem imigração, sem natalidade e sem reformas.

A Europa precisa de um novo pacto entre gerações. Um pacto que preserve a dignidade dos mais velhos, mas que deixe de sacrificar sistematicamente os mais novos. Isso implica coragem política: ajustar sistemas de pensões à realidade demográfica, incentivar vidas profissionais mais longas quando possível, tributar de forma mais inteligente o património improdutivo, libertar solo e licenciamento para habitação, apoiar famílias jovens, atrair imigração qualificada e investir seriamente em produtividade.

Acima de tudo, implica mudar a pergunta central da política. Durante demasiado tempo, os governos perguntaram: como podemos evitar desagradar aos eleitores mais velhos? A pergunta certa deveria ser: que país estamos a deixar aos que ainda vão cá estar daqui a 40 anos?

A Europa gosta de se apresentar como guardiã da solidariedade. Mas a solidariedade não pode ser apenas horizontal, entre ricos e pobres, empregados e desempregados, saudáveis e doentes. Tem também de ser vertical, entre gerações. Quando uma geração consome recursos, bloqueia reformas e acumula benefícios que outra terá de pagar, deixa de haver contrato social. Passa a haver transferência de encargos.

Os baby boomers não destruíram a Europa. Mas beneficiaram de uma Europa que talvez já não exista, e resistem, muitas vezes, às mudanças necessárias para que outra possa nascer. O risco é evidente: uma Europa confortável para quem já viveu a sua ascensão e sufocante para quem ainda procura começar.

Se nada mudar, os jovens continuarão a pagar a estabilidade dos mais velhos com a sua própria instabilidade. E um continente que trata o futuro como uma despesa acabará, inevitavelmente, por ficar sem futuro.