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Bullshitologia: a ciência dos disparates

O maior perigo do "bullshit" não é só enganar-nos. É habituar-nos a deixar de fazer perguntas.

Paulo Finuras
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Imagine que alguém lhe diz que a sua consciência quântica está prestes a alinhar as frequências vibracionais do universo para desbloquear um novo nível de prosperidade.

A frase parece sofisticada. Contém palavras científicas. Soa profunda. Talvez até inspire algumas pessoas.

Há apenas um problema. Ninguém sabe exatamente o que significa.

Bem-vindo ao fascinante mundo daquilo que alguns investigadores começaram a estudar sob um nome pouco académico, mas extraordinariamente preciso: bullshit.

Recentemente descobri o trabalho do psicólogo cognitivo Shane Littrell, autor da newsletter Bullshitology, dedicada ao estudo científico de uma questão que talvez seja mais importante para a vida moderna do que muitas das que ocupam os noticiários:

Porque é que as pessoas produzem bullshit?

E porque é que tantas outras estão dispostas a acreditá-lo?

A pergunta pode parecer ligeira. Não é.

Na verdade, pode ajudar-nos a compreender uma parte significativa da comunicação contemporânea, desde as redes sociais à política, passando pela autoajuda, pela pseudociência e até por certas práticas académicas e organizacionais. E, curiosamente, o conceito não nasceu na Psicologia.

Nasceu na Filosofia.

Em 1986, o filósofo Harry Frankfurt publicou um pequeno ensaio intitulado On Bullshit, que viria a tornar-se uma referência inesperada.

A sua distinção fundamental era simples. O mentiroso preocupa-se com a verdade.

Pode parecer estranho, mas é assim. Para mentir eficazmente é preciso conhecer a verdade e escondê-la.

Já o produtor de bullshit tem uma relação diferente com a verdade.

Não procura necessariamente ocultá-la. Simplesmente não lhe atribui grande importância.

O seu objetivo principal não é ser verdadeiro nem falso. É parecer profundo. É parecer inteligente.

É parecer moralmente superior. É parecer competente.

Numa palavra, é parecer.

A diferença é subtil, mas enorme.

Um político que manipula conscientemente estatísticas está a mentir.

Um guru que fala durante uma hora sobre energias transformacionais sem nunca dizer algo verificável pode estar simplesmente a produzir bullshit.

E talvez o segundo seja mais difícil de identificar do que o primeiro.

Mentiras podem ser verificadas.

Bullshit é frequentemente vago, ambíguo e escorregadio.

Quando tentamos agarrá-lo, dissolve-se.

É precisamente essa característica que o torna tão eficaz.

Os investigadores distinguem várias formas de bullshit.

Uma delas é o chamado bullshit semântico.

Consiste em afirmações que parecem profundas, mas cujo significado é inexistente ou extremamente difuso.

Frases como: “Precisamos de transcender os paradigmas lineares através de uma consciência integrada de possibilidades emergentes.”

Soa importante. Mas o que significa exatamente?

Poucos conseguem explicar.

Outra forma é o bullshit epistemológico.

Neste caso, a afirmação até pode ter algum sentido, mas é apresentada com um grau de certeza ou precisão que não é sustentado pela evidência.

Pensemos num exemplo muito popular.

A ideia de que a inteligência emocional explica 90% do sucesso profissional.

A inteligência emocional pode ser relevante?

Sem dúvida. Mas de onde surge exatamente esse número?

Como foi calculado? Em que populações? Comparado com quê?

Na maioria das vezes, ninguém sabe.

O número continua a circular porque parece científico. E porque números transmitem uma sensação de rigor que as palavras, por si só, não conseguem produzir.

Talvez uma das conclusões mais curiosas da investigação de Littrell seja a de que as pessoas que produzem mais bullshit tendem também a ser mais vulneráveis ao bullshit produzido pelos outros.

À primeira vista parece paradoxal. Seria razoável esperar o contrário.

Quem sabe enganar deveria reconhecer melhor quando está a ser enganado.

Mas os dados sugerem outra coisa.

Uma possível explicação é que essas pessoas desenvolvem uma maior tolerância a afirmações vagas, exageradas ou insuficientemente fundamentadas.

Como utilizam frequentemente esse tipo de linguagem, tornam-se menos sensíveis aos sinais que a denunciam.

É um pouco como viver permanentemente num ambiente ruidoso.

Ao fim de algum tempo deixamos de distinguir claramente o sinal do ruído.

O mais interessante é que este fenómeno não está limitado a grupos específicos.

Não é uma característica exclusiva de políticos, influenciadores digitais ou vendedores de banha da cobra.

Todos somos vulneráveis. Eu e o leitor também.

A razão pode estar na própria história evolutiva da nossa espécie.

Gostamos de imaginar que o cérebro humano evoluiu para procurar a verdade.

A realidade é mais complexa. A seleção natural não favorece necessariamente quem vê o mundo de forma mais objetiva.

Favorece sobretudo quem sobrevive e se reproduz com maior sucesso.

Em muitos contextos ancestrais, ser socialmente persuasivo podia ser mais vantajoso do que ser rigorosamente exato.

Ganhar aliados. Construir reputação. Transmitir confiança. Mobilizar seguidores.

Tudo isto podia ter benefícios adaptativos.

Por vezes, a verdade ajudava. Mas a aparência de verdade também.

Talvez seja por isso que o bullshit continua tão presente nas sociedades modernas.

Mudaram as tecnologias.

Mudaram os meios de comunicação.

Mudaram as instituições.

Mas a arquitetura fundamental da mente humana continua a ser, em larga medida, a mesma.

E talvez aqui resida uma das grandes ironias do século XXI.

Vivemos na época com mais informação disponível em toda a história da humanidade.

E, simultaneamente, numa época em que nunca foi tão fácil produzir conteúdos que parecem significativos sem o serem.

A inteligência artificial irá provavelmente amplificar este problema.

Produzir texto convincente tornou-se trivial.

Produzir conhecimento verdadeiro continua a ser difícil.

É por isso que talvez precisemos de uma nova disciplina cívica.

Não apenas literacia digital. Não apenas pensamento crítico.

Mas aquilo a que poderíamos chamar uma verdadeira alfabetização contra o bullshit.

A capacidade de perguntar “o que significa exatamente esta afirmação?”

“Como sabemos que isto é verdade?”

“Qual é a evidência?”

“Que dados sustentam esta conclusão?”

Porque, no fim de contas, o maior perigo do bullshit não é só enganar-nos.

É habituar-nos a deixar de fazer perguntas.

E uma sociedade que deixa de fazer perguntas começa lentamente a perder a capacidade de pensar.

I rest my case.