Primeiro, ninguém gostou daquela silhueta incomum. Martin Margiela imaginou-a em 1988, cortando a direito com tudo o que existia. “Pensei em pés descalços com saltos altos enormes. Lembrei-me repentinamente dos trabalhadores de rua que eu tinha visto no Japão, com as suas roupas intrigantes e as suas botas flexíveis Tabi. Fiquei empolgado com a ideia de fazê-los de couro, montados em saltos cilíndricos altos e pesados.”, recorda. O arrojo não chegava para convencer os pés mais clássicos mas o criador belga insistiu em apresentá-los temporada atrás de temporada. Aos poucos, conquistaram o seu terreno e quase 40 anos depois são um renovado sucesso, copiado à exaustão. Os sapatos “esquisitos”, não só continuam a ser fabricados como inspiram hoje múltiplas colaborações. Mas estes que aqui nos trazem arrastam consigo uma quilometragem extra em termos de história. “Este par em particular é o resultado da minha primeira exposição em grupo no Museu Galliera em Paris. Gostei da ideia de que os visitantes podiam deixar mensagens nas paredes e no chão pintados de branco, mas também escreveram inesperadamente nas botas de Tabi pintadas de branco. Adoro este resultado espontâneo.” continua o criador, citado pelo site da Maurice Auctions.

A nota descritiva acompanha um dos quase 200 lotes que no próximo dia 9 de julho, em Paris, em plena semana da alta-costura, irá parar a outras mãos, e outros pés — basta calçar à volta de 40 ou reservar-lhes um belo recanto expositivo. Este exemplar, de 1991, é o único existente em mãos privadas. Os outros dois existentes pertencem às coleções do Palais Galliera em Paris e do MoMu em Antuérpia. Será a primeira vez que um criador vivo colabora diretamente com uma casa de leilões, pondo à disposição o seu arquivo pessoal, que aqui abrange um período que vai desde 1984, a partir de seus projetos para a Canette d’Or em Anvers, até 2008, quando o belga decidiu deixar a Maison Martin Margiela para seguir projetos pessoais, sem esquecer o consulado enquanto diretor criativo da Hermès (entre a fornada com assinatura Hermès contam-se 60 peças que pertenceram à sua falecida mãe, Léa Bouchet).
A venda é organizada pela Maurice, criada em 2022 por duas parceiras profissionais e amigas, com mais de 30 anos de experiência combinada no mercado de arte, Salomé Pirson e Marie-Laurence Tixier, e o processo decorre em colaboração com a leiloeira Kerry Taylor. A expectativa é no mínimo elevada, já que as mesmas Maurice e Kerry Taylor uniram esforços já em 2025 para levar à avante o leilão “Martin Margiela, The Early Years”, com um catálogo das primeiras criações do criador, provenientes das coleções pessoais de Gabriela Picozzi, que desenvolvia padrões para o designer. A venda gerou quase dois milhões de euros, o montante mais elevado obtido num leilão de peças de moda em França.
Entre roupas, esboços, revistas, acessórios e miniaturas (o seu dono sempre foi fascinando pelas questão da escala) abunda agora a memorabilia para todos os gostos e fãs do criador, um dos nomes que abriu caminho para o que viria a seguir, incluindo o movimento Antwerp Six, cujo papel fundador na moda belga é este ano evocado em exposição. Martin adorava vestir Barbies, e quando em 1989 as famosas bonecas ganharam por fim um guarda-roupa Margiela, no âmbito da coleção “El Globo”, foi sonho consumado. O designer fez três looks para a coleção de inverno daquele ano mas infelizmente perdeu-lhes o rasto. Quando chegou a pandemia, aproveitou o marasmo imposto pelo confinamento para recriar os conjuntos, que são agora também licitáveis. “Após muitos anos de transferência de material de arquivo de lugar para lugar e empréstimos subsequentes para exposições, senti que estava na hora de deixar uma parte das minhas recordações de moda.”, adianta Margiela. Há mais pormenores interessantes para apreciadores tanto de minimalismo como de insólito, seja uma franja em tamanho XL, rolhas de espumante, ou a famosa máscara “véu”.

Conhecido pelos seus designs desconstrutivos e vanguardistas com materiais não convencionais, figura esquiva e enigmática no seio da moda, Martin formou-se na Royal Academy of Arts em 1979, e foi assistente de Jean Paul Gaultier entre 1984 e 1987, para depois se lançar em pista própria, com a amiga e sócia Jenny Meirens. Margiela renunciou ao cargo de designer em 2009, deixando o atelier provisioramente sem uma liderança criativa definida. O compatriota Matthieu Blazy chegou a assumir as rédeas, John Galliano foi nomeado para o cargo de diretor criativo em 2014, e desde janeiro de 2025 os destinos estão entregues a Glenn Martens.
Avesso a fotos e entrevistas (salvo raríssimas exceções como uma conversa com a revista Numéro em 2024), a imagem de Martin Margiela, hoje com 69 anos, como que permanece cristalizada num instantâneo de quando estava ainda na casa dos vinte. Desde 1988, nunca foi fotografado para qualquer revista, nem sequer aparecia no final dos desfiles para colher os aplausos, acreditando que a decisão recentraria as atenções nas coleções, e defendendo a ideia de que os projetos são fruto de uma equipa e não apenas de um nome. O espírito reclusivo alimentaria inúmeros mitos urbanos ao longo das últimas décadas. Havia mesmo quem garantisse que o relações públicas da marca era na verdade o próprio Martin, ou que seria uma mulher, que talvez nem existisse, ou que, em existindo, se sentaria de forma anónima entre a audiência das suas apresentações, disfarçado com um boné de beisebol. Nos últimos anos, tem mostrado trabalho numa vertente escultural em contextos como a Art Basel Hong Kong.
À W Magazine, Salomé Pirson recorda as primeiras abordagens junto do criador, tendo em vista este leilão, e a visita ao armazém onde reúne todo este acervo, um aglomerado de caixas no seu tom assinatura, o branco. Pirson explica como foi convocada para o primeiro de vários encontros em pessoa com Martin –“O e-mail não é algo que lhe seja familiar”, confessa. “Acho que ele acredita que a Internet um dia morrerá.”, vai ainda mais longe.

A responsável aponta ainda o motivo de uma ausência considerável: olhando para este acervo há muito poucas peças de roupa assinadas pelo designer, mas há uma boa razão para isso. Pirson recorda que as manequins que desfilavam para a maison eram muitas vezes pagas em roupa e que muito provavelmente têm uma coleção mais generosa do que a do próprio autor. Há no entanto algumas peças relevantes do seu próprio guarda-roupa roupa, incluindo um casaco de ganga pintado de branco, calças de marinheiro de algodão branco, e a sua célebre bata usada em contexto de atelier, salpicada com manchas. Em 1988, quando a Maison Martin Margiela foi fundada, toda a equipa usava este fato de trabalho em algodão branco, réplicas dos “casacos de laboratório” que os modelos usam em casas de alta costura entre sessões de fitting.
O público interessado neste espólio terá acesso à exposição das peças em causa de 4 a 8 de julho, no 60, rue La Boétie, no 8.º arrondissement de Paris, a morada da Maurice.