O verão começa oficialmente em Portugal às 9h24 do próximo domingo, 21. Mas até lá Portugal vai entrar, em menos de um mês, na segunda onda de calor deste ano. Com uma agravante: as temperaturas vão ser mais elevadas e esta vaga vai ser mais prolongada no tempo. É o que dizem os principais modelos meteorológicos, que convergem todos no mesmo sentido. E essa direção aponta para que a partir desta quarta-feira as temperaturas comecem a subir até máximas que, na próxima semana, podem ir bem além dos 40°C (há estimativas de que possam chegar aos 45ºC), com noites tropicais (acima dos 20ºC) e tórridas (acima dos 25ºC). E, pelo menos até ao fim do mês, ficaremos debaixo desta cúpula quente.
O fenómeno está a ser acompanhado com crescente preocupação pelos meteorologistas. A formação desta vasta cúpula de calor vai estender-se sobre a Europa Central outra vez e o período mais crítico pode ter lugar entre 22 e 26 de junho. Nessa altura as temperaturas devem atingir as máximas mais altas, não apenas em Portugal (que pode até ficar protegido no litoral) e Espanha, mas também em França (que já está em alerta) e Reino Unido.
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Ainda existem algumas incertezas importantes, sobretudo relacionadas com a posição final da depressão que se está a formar a oeste da Península Ibérica (uma gota fria). Pequenas alterações na sua localização poderão significar diferenças de vários graus nas temperaturas previstas. Mas as indicações dos modelos são cada vez mais consistentes.
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A preocupação é ainda maior porque esta nova onda de calor surge poucas semanas depois de um outro episódio semelhante e excecional que começou a 20 de maio e terminou a 1 de junho. Em Portugal, tratou-se da terceira onda de calor mais longa de que há registo em número de dias, com 9,3 dias: a mais longa ocorreu em 1964, com 9,7 dias. Já quanto à magnitude média da onda de calor, ou seja, a intensidade e a extensão do desvio térmico, foi a segunda maior, depois da que teve lugar em 1965.
Nesse período, foram registados 25 novos máximos da temperatura máxima, um no dia 26 de maio, três no dia 28 e os restantes no dia 27. Foi ainda registado um novo extremo absoluto, em Mora, que atingiu os 40,3°C, e as estações de Mora (distrito de Évora) e Alvega (Abrantes, distrito de Santarém) ultrapassaram o anterior extremo absoluto de maio (40°C, Pinhão).
Nessa altura o heat dome atingiu também vários países da Europa, como agora vai acontecer, com França e Inglaterra a registarem 16 mortos: por colapso devido ao calor; ou por afogamento em locais não vigiados quando procuravam refrescar-se. O Reino Unido atingiu os 33,5°C perto do aeroporto de Heathrow, em Londres, valor que superou o recorde anterior para o mês de maio no país, que era de 32,8°C, registado na capital em 1922. Em França, os termómetros bateram os 37°C nas proximidades de Hossegor, na região de Les Landes. Mais de 350 cidades francesas registaram as temperaturas mais altas alguma vez sentidas no mês de maio.
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Agora é de novo para França que apontam os piores alertas, já que há previsões de mais de 40ºC para algumas regiões. Portugal e Espanha podem chegar a valores perto dos 45ºC.
Porque é que os especialistas estão mais preocupados do que em maio?
Além das temperaturas máximas previstas, existem vários fatores agravantes: o estado dos solos e os dias mais longos. Depois da onda de calor do final de maio, os solos ficaram mais secos em muitas regiões da Península Ibérica e de França. Ora quando existe humidade disponível, o calor leva à evaporação da água. Mas quando os solos estão secos, o calor transforma-se em aquecimento do ar. Por outro lado, como estamos muito próximos do solstício de verão, vêm aí os dias mais longos do ano, mais horas de sol e mais calor para aquecer a superfície.
Esta combinação do bloqueio atmosférico que não deixa desfazer a cúpula de calor, solos mais secos e dias mais longos leva vários meteorologistas a admitir que a segunda onda de calor em menos de um mês deverá ser mais intensa do que a registada em maio e durar mais dias.
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Estas cúpulas de calor, ou heat domes, formam-se quando uma extensa área de altas pressões permanece praticamente imóvel durante vários dias (sujeita a um bloqueio de um outro anticiclone, neste caso o que está sobre os países nórdicos). O ar desce lentamente dentro do anticiclone, aquece e seca, a formação de nuvens torna-se mais difícil, não há hipótese de chuva e o calor do sol acumula-se diariamente à superfície. Resultado: uma subida progressiva das temperaturas e um bloqueio capaz de manter o calor durante muitos dias consecutivos.
Portanto, até quarta-feira Portugal continuará sob a influência de uma atmosfera relativamente instável. Segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), deverão continuar a formar-se aguaceiros e trovoadas, sobretudo durante a tarde, nas regiões do interior Norte e Centro e nas zonas montanhosas. Em alguns locais poderão ocorrer fenómenos localmente intensos de chuva, acompanhados de granizo e rajadas fortes de vento. As temperaturas estão mais baixas, mas não muito: o país está dividido entre um litoral mais fresco e um interior já com valores típicos do verão.
No litoral Norte e Centro, as máximas deverão variar entre os 22 e os 28 graus. Na região de Lisboa e Setúbal entre os 27 e os 31 graus. Já no interior Norte e Centro são esperadas temperaturas entre os 30 e os 36 graus, enquanto no Alentejo e Vale do Tejo os termómetros poderão atingir os 34 a 38 graus.
Depois de quarta, a massa de ar quente, a gota fria e o calor de dia e de noite
É a partir de quarta que tudo muda: as temperaturas iniciam uma escalada generalizada. As maiores subidas deverão ocorrer no Vale do Tejo, Beira Baixa, Alentejo e Nordeste Transmontano. As projeções atuais apontam para máximas entre 37°C e 40°C em Santarém, 38°C e 41°C em Castelo Branco, 39°C e 42°C em Évora e Beja, 36°C e 39°C em Bragança e Vila Real. A partir daí, a tendência é de continuação da subida e entre sábado e domingo começa a grande preocupação dos meteorologistas.
Se se confirmar o cenário atualmente sugerido pelos modelos, a Península Ibérica entrará numa fase de calor mais intenso associada ao reforço de uma dorsal africana e à formação de uma depressão isolada a oeste da costa portuguesa. A depressão funcionará como o mecanismo de transporte do ar muito quente do Norte de África, enquanto o anticiclone nórdico bloqueará a circulação atmosférica sobre a Europa Ocidental. A combinação de ambos poderá funcionar como uma verdadeira “bomba de calor”, transportando o ar muito quente do Norte de África para a Península Ibérica, França e grande parte da Europa Ocidental.
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Ou seja, neste momento, a milhares de quilómetros de Portugal, os modelos meteorológicos já mostram o reforço de uma vasta dorsal subtropical que se estende desde o Norte de África até à Europa Ocidental, uma espécie de “língua” de ar muito quente que se desloca para latitudes mais elevadas. E depois o elemento mais importante, que vai estar no Atlântico: uma depressão isolada em altitude — gota fria — que se posicionará a oeste da Península Ibérica. A circulação atmosférica em torno da depressão ajudará a puxar o ar extremamente quente do Saara para norte, canalizando-o para Portugal, Espanha, França e depois para o resto da Europa. Chama-se uma advecção quente excecional.
Os cenários mais consensuais apontam para 40°C a 42°C no interior alentejano, 39°C a 41°C no Vale do Tejo, 38°C a 40°C na Beira Baixa e 36°C a 39°C no Nordeste Transmontano. Mas algumas simulações mais extremas admitem temperaturas próximas dos 43°C a 45°C em zonas do interior Sul da Península Ibérica. Os franceses também temem valores acima dos 40ºC.
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Há outra preocupação: as noites. Os modelos apontam também para noites tropicais generalizadas, sobretudo no Sul e em parte do litoral, com as temperaturas mínimas a não descerem abaixo dos 20°C. Em alguns locais do interior do Alentejo e do Vale do Guadiana poderão mesmo ocorrer noites tórridas, quando os termómetros não descem dos 25°C. Estas situações aumentam significativamente o impacto do calor sobre a saúde, porque impedem o organismo de recuperar e arrefecer durante a noite. O mesmo acontece com a atmosfera, que se mantém quente, não arrefece, e soma o calor do dia seguinte.