Há tecnologias que melhoram o mundo tal como ele é.
E há outras que tornam esse mundo irreconhecível.
A inteligência artificial pode pertencer à segunda categoria.
Durante décadas, a desigualdade de género foi explicada por fatores conhecidos como: acesso desigual, interrupções de carreira, estruturas rígidas, expectativas sociais. Esses fatores continuam a existir. Mas talvez estejamos a entrar num território onde essas explicações deixam de ser suficientes. Não porque desapareceram, mas porque o próprio contexto em que operam está a mudar.
O trabalho, tal como o conhecíamos, começa a reconfigurar-se.
Quando sistemas autónomos assumem a execução, como: escrever relatórios; analisar dados; programar; até decidir rotinas operacionais; o valor humano muda de lugar. Afasta-se da repetição, da presença constante, da linearidade das trajetórias profissionais. Aproxima-se de outra coisa: da capacidade de formular perguntas relevantes, de ligar ideias distantes, de decidir em contextos ambíguos onde não há resposta certa.
Como tem sido defendido por Mustafa Suleyman, a inteligência artificial não é apenas uma ferramenta de produtividade, mas antes uma tecnologia que altera a estrutura da economia e redefine o próprio conceito de trabalho. E, ao fazê-lo, redefine também o que conta como vantagem, valor ou competência.
Nesse espaço, menos físico, menos previsível, menos dependente de carreiras acumuladas, o género perde peso. Não porque a sociedade resolveu o problema, mas porque aquilo que conta pode deixar de estar ligado ao género.
E isso introduz uma possibilidade rara.
A de estarmos perante a primeira tecnologia verdadeiramente indiferente ao género, num mundo que ainda não o é.
Há um desfasamento inevitável entre o que a tecnologia permite e o que o sistema social absorve. O acesso às ferramentas não é igual; a confiança no seu uso não é igual; o reconhecimento do trabalho que delas resulta também não é igual. Dados recentes do World Economic Forum mostram precisamente isso: a adoção da inteligência artificial já reflete desigualdades existentes, em vez de as neutralizar.
Mas o ponto mais interessante não está no presente. Está na direção, no futuro, que poderá ser amanhã, daqui três meses, daqui a um ano.
Talvez a questão deixe de ser “quem sempre teve vantagem” e passe a ser “que competências passam agora a definir valor”. Criatividade. Pensamento crítico. Capacidade de navegar a ambiguidade. E estas não pertencem a nenhum género. Mas também nunca foram distribuídas, incentivadas ou reconhecidas de forma neutra.
Se o centro de gravidade do valor se deslocar, algo mais profundo pode acontecer.
Perfis antes periféricos tornam-se centrais.
Trajetórias não lineares deixam de ser ruído e passam a ser sinal.
Experiências fora dos circuitos tradicionais deixam de ser exceção e passam a ser recurso.
E isto não é apenas sobre género.
É sobre qualquer diferença que, até agora, funcionava como condicionante de acesso, de progressão, de reconhecimento.
A inteligência artificial não resolve desigualdades por si só. Nunca foi esse o papel da tecnologia. Mas pode alterar o terreno em que essas desigualdades operam. E, por vezes, mudar o terreno é suficiente para tornar as regras irrelevantes.
O futuro não está escrito. Nem sequer está alinhado.
Mas há uma possibilidade em aberto e talvez a mais disruptiva de todas: pela primeira vez, o valor económico pode ser dissociado de características humanas que durante demasiado tempo o condicionaram.
Se isso acontecer, o género não desaparecerá.
Mas pode deixar de determinar.
E talvez seja esse o verdadeiro ponto de inflexão.
Não o momento em que a desigualdade é resolvida, mas o momento em que deixa de fazer sentido.
O Observador associa-se à comunidade PortugueseWomeninTech para dar voz às mulheres que compõe o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.